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SAÚDE

Anticoncepcional causa dúvida em mulheres, que optam por descontinuar o uso

Efeitos colaterais e risco de trombose estão entre os problemas apontados por mulheres que deixaram de tomar a pílula
02/03/2021 10:25 - Beatriz Magalhães


De mocinho a vilão, o anticoncepcional tem sido alvo de questionamentos sobre seus benefícios e efeitos colaterais, que, em algumas situações, podem ser irreversíveis. O risco de trombose, além de alterações no corpo, estão entre os motivos apontados por mulheres que decidiram descontinuar o uso.

De acordo com a ginecologista e obstetra Rubia da Silva Borges Loureiro, algumas das reações colaterais do remédio são brandas, já outras são mais severas. “Estão entre os efeitos colaterais mais recorrentes a cefaleia, indisposição, mal estar gástrico, diminuição da libido e, em muitos casos, sensação de inchaço e alteração no peso, isso porque a circulação fica prejudicada. Pode acontecer até mesmo casos mais complicados, como a formação da trombose, que é raro, mas é um dos efeitos colaterais do uso de métodos hormonais”, afirma a médica.

A pílula anticoncepcional, que deve ser tomada diariamente, é um medicamento que tem uma combinação de estrogênio e progestogênio, hormônios semelhantes aos que são produzidos pelo ovário da mulher. A pílula inibe a ovulação e torna o muco cervical espesso, dificultando a passagem dos espermatozoides, evitando, assim, a fecundação.

Considerado um dos principais métodos contraceptivos pelas mulheres e um dos símbolos da libertação feminina e da revolução sexual, a pílula chegou ao mercado na década de 1960, com o nome de Enovid. Na época, o remédio tinha uma alta concentração de hormônios, cerca de 150 mg de estrogênio sintético e 9,85 de derivado de progesterona. Após críticas, ela passou por uma reformulação na década de 1970 e outra na década de 1990, dessa vez com menos hormônios. Atualmente, a porcentagem de hormônio é em média 3 mg e 0,03 mg.  

 

Mudança

A dúvida em relação aos benefícios do anticoncepcional começou a ser questionada no século 21, principalmente por meio da disseminação de informações sobre o produto na internet e os casos de trombose envolvendo o uso de anticoncepcional.

A estudante Natálly Coelho, 21 anos, começou a tomar o remédio aos 16 anos com o objetivo de diminuir as cólicas menstruais. “Na época, eu procurei um ginecologista porque tinha muitas cólicas e um alto fluxo menstrual. Ele não me pediu nenhum exame, apenas me indicou a pílula e, por falta de conhecimento, comecei a tomar. Senti melhora nas cólicas e no fluxo e continuei tomando”, conta.

Aos 20 anos a jovem descontinuou o uso da pílula, quando começou a ter mais conhecimento dos danos que o medicamento pode causar.

“Quando comecei a cursar enfermagem passei a ter mais conhecimento em relação aos danos que esse medicamento pode causar, direta e indiretamente. Mas continuei tomando [a pílula] por achar ser a única forma de controlar as cólicas. Depois de alguns anos, passei por um processo de reeducação alimentar e melhora de hábitos de vida e tive conhecimento de que a pílula influenciava negativamente no ganho de massa muscular e na perda de gordura, além de causar alterações de humor – eu tinha muita TPM. E também passei a ver cada vez mais relatos de mulheres que tiveram problemas graves, como trombose, por conta da pílula. Foi aí que resolvi parar definitivamente. Já havia parado outras vezes, mas de forma inadequada e isso me gerava muitas alterações na pele e no fluxo menstrual”, ressalta.

O uso do anticoncepcional é indicado quando há orientação médica, entretanto, de acordo com a ginecologista, não é preciso acompanhamento médico quando se tem a intenção de parar com o medicamento.

“Não são todas as mulheres que podem usar o anticoncepcional, principalmente as mulheres que têm maiores chances de desenvolver a trombose. Existem outros casos também em que a gente não opta em usar o anticoncepcional hormonal. Entretanto, todas podem parar de tomar o remédio quando quiserem, mas é preciso de um acompanhamento para uma escolha correta de um outro contraceptivo”, salienta Rúbia.

A também estudante de enfermagem Aline Costa, 21 anos, disse ter vontade de parar com o uso da pílula, mas que por se preocupar com uma gestação indesejada continua com o uso. “Eu quero parar porque sinto que o anticoncepcional age de uma forma sistêmica muito agressiva no meu organismo”, explica.

“Sinto inchaço, muitas dores, uma mudança muito abrupta das minhas emoções e isso atrapalha muito no meu rendimento, com as minhas convivências e o meu bem-estar. Enfim, atrapalha a minha vida no geral. Eu não parei ainda por medo de engravidar. Aliás, eu tento usar mais de um método contraceptivo, justamente por saber das pequenas possibilidades de dar problema. Com dois métodos eu me sinto mais segura”, complementa Aline.

Natálly parou o uso do anticoncepcional e diz já sentir os benefícios da pausa definitiva. “Parar com o uso da pílula me auxiliou na perda de peso e na definição muscular na academia. Além do aumento da libido e mais estabilidade no humor”, frisa.

Para evitar as mudanças que a pílula causava, a estudante procurou outras especialidades médicas. “Quando parei definitivamente, procurei um ginecologista e um dermatologista para cuidar dos distúrbios na pele”, frisa Natálly.

Aline, que ainda tenta parar com o uso do medicamento, disse que tem como opção o uso do DIU, que é um método disponível no Sistema Único de Saúde (SUS).

“Eu não troquei ainda o uso do anticoncepcional pelo DIU porque a fila do SUS é extensa. Mas com certeza eu já teria colocado o DIU de cobre e o associaria ao uso da camisinha. Ele não alteraria meu humor tanto como a pílula, até porque ele mesmo com seus contrapontos é mais tranquilo que os efeitos do anticoncepcional, eu acredito. Eu não parei definitivamente com o uso [da pílula] ainda por não ter coragem de usar apenas um método contraceptivo, que é a camisinha, um método de barreira, e nem condições financeiras para colocar o DIU pelo sistema particular”, afirma Aline.

A ginecologista Rubia Loureiro enfatiza ainda sobre a importância do uso da camisinha. “O anticoncepcional te protege de uma gravidez, mas não de doenças sexualmente transmissíveis. Para se proteger dessas doenças é necessário o uso do preservativo. Então, eu sempre recomendo o uso combinado dos dois métodos”, orienta.