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RECONHECIMENTO

Premiada, juíza Jacqueline Machado afirma que trabalho de combate a violência contra as mulheres tem o objetivo de “salvar vidas"

Juíza foi homenageada no Prêmio Mulheres que Fazem a Diferença 2020, da Embaixada e Consulados dos Estados Unidos no Brasil
25/11/2020 07:30 - Brenda Machado


Homenageada pelo terceiro ano consecutivo, a juíza Jacqueline Machado está entre as oito brasileiras escolhidas para receber o Prêmio Mulheres que Fazem a Diferença 2020, da Embaixada e Consulados dos Estados Unidos no Brasil. A condecoração reconhece trabalhos comunitários significativos que causam algum impacto social.

O intuito do Prêmio Mulheres que Fazem a Diferença 2020 é homenagear mulheres que estão ou na linha de frente ou nos bastidores dos desafios locais, nacionais e até globais, sempre lutando para romper barreiras e conseguir mudanças positivas na sociedade.

Neste sentido, representando a história e a luta pelos direitos das mulheres, a juíza Jacqueline Machado foi uma das ganhadoras.

Segundo ela, a Embaixada entrou em contato avisando que seu nome seria um dos indicados e, apesar de premiações não serem o propósito do seu trabalho, ficou emocionada por estar entre as vencedoras.

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“O objetivo desse trabalho não é ter reconhecimento, e sim proteger as mulheres, é tentar salvar vidas; então esse é meu papel, mas quando a gente ganha, também é sinal de que o trabalho está fazendo a diferença, ele pode inspirar outras pessoas”, frisa.

Questionada, a juíza disse que acredita que essa vitória pode ser o resultado da maior visibilidade que sua atuação ganhou depois que ela começou a trabalhar na Capital, em 2016.

Como seu foco é a prevenção, os projetos desenvolvidos ao longo deste tempo, como o Mãos EmPENHAdas, iniciativa que capacita trabalhadores da área de beleza a reconhecerem os sinais de violência doméstica.

O trabalho rendeu bons resultados e foi replicado em outros estados. Além disso, Jacqueline também já estabeleceu outros projetos, inclusive em parceria com a ONU Mulheres.

Para Jacqueline, ainda é importante que as pessoas vejam e repliquem esses projetos e impactem outros locais pelo País.

“A gente tem que lembrar que a maioria das vítimas de feminicídio, que é o crime mais bárbaro, não tinha acesso ao sistema de Justiça, por isso é importante buscar ajuda”, pontua.

Além dela, os outros nomes vencedores do Prêmio são: Claudinete Colé de Souza, de Oriximiná (PA), Janete Vaz e Sandra Soares Costa, de Brasília (DF), Jeanne Aguiar, do Recife (PE), Jovita Belfort, do Rio de Janeiro (RJ), Major Karla Lessa, de Belo Horizonte (MG), e Nadine Anflor, de Porto Alegre (RS).

Conforme destacado pela Embaixada, todas as indicadas ao prêmio promovem iniciativas econômicas e ambientais, engajamento cívico, a inclusão e os direitos dos migrantes e refugiados, políticas de minorias religiosas e étnicas, comunidades indígenas, mulheres com deficiência e outros grupos historicamente marginalizados.

Fazendo uma analogia entre a data do Prêmio e a semana de Ação de Graças, em que os estadunidenses festejam e agradecem pelos bons acontecimentos, o embaixador dos EUA, Todd Chapman, falou da alegria em anunciar as vencedoras.

“Esta semana [de Ação de Graças] é o momento certo para expressarmos nossa gratidão e admiração a essas oito mulheres brasileiras incríveis, que trabalham incansavelmente para apoiar e avançar suas comunidades”, afirmou.

TRAJETÓRIA

Há quase duas décadas atuando em Mato Grosso do Sul, Jacqueline explica em entrevista ao Correio do Estado que sempre teve vontade de buscar a justiça

"É uma coisa que me veio desde muito cedo, não sei nem dizer de onde esse desejo surgiu”, explica. 

Natural de Passo Fundo, no interior do Rio Grande do Sul, Jacqueline cresceu, estudou e teve sua primeira experiência profissional na cidade.

Formada em Direito pela Universidade de Passo Fundo, a juíza advogou por oito anos antes de mudar o endereço.

Com a aprovação no concurso público, seu trabalho começou por Campo Grande e Amambai, município a 301 km da Capital. Por algum tempo se manteve no cargo de juíza substituta, até ser transferida para outras cidades do Estado, como Rio Negro, Camapuã e Nova Andradina, onde já era juíza titular.

Ao retornar de forma definitiva para a Capital, em 2016, a promoção deu a ela um lugar na Vara Cível, porém, como seu interesse já espreitava outras áreas, acertou uma troca com um amigo e conseguiu ser transferida para a Vara de Violência Doméstica.

Segundo a jurista, nas outras comarcas onde trabalhou ela já tinha atuado com questões familiares, da área da infância e de violência contra a mulher.

“Sempre gostei de temas relacionados aos direitos humanos, acho importante que as pessoas saibam o que são, pra não cair no senso comum de que serve só para bandido”, frisa.

DIREITOS HUMANOS

No ano passado, Jacqueline deixou o cargo na Coordenadoria Estadual da Mulher em Situação de Violência Doméstica e Familiar, onde estava desde 2017.

Atualmente, além de coordenar a 3ª Vara de Violência Doméstica e Familiar, na Casa da Mulher Brasileira de Campo Grande, ela também é presidente do Fórum Nacional de Juízes e Juízas da Violência Doméstica e Familiar Contra a Mulher (Fonavid).

Ainda conforme relatou a juíza, apesar dos temas tratados por ela serem considerados “polêmicos” por alguns, nunca teve problemas com a família, nenhuma reprovação. 

Quando decidiu sair de casa e mudar de cidade, os pais ficaram apreensivos sobre como seria esse futuro em outro Estado, mas Jacqueline conta, feliz, que seu pai nunca foi o tipo de homem que tentou podar as filhas mulheres de suas vontades.

Essa liberdade para seguir as aspirações profissionais a deu força para conquistar espaço em uma área majoritariamente masculina, não só em relação à quantidade de pessoas, mas também às posições de poder e escolha.

“A gente sabe que há uma dificuldade da mulher ascender porque ainda não somos encaradas com normalidade nos espaços públicos. Ainda se tem o senso comum de que a mulher tem que cuidar de casa, dos filhos ou, no máximo, trabalhar em serviços de cuidado. Eu nunca ouvi nenhum comentário direto, mas a gente sabe que as pessoas falam”, pontua.

O caminho a levou ao reconhecimento neste ano e nos anteriores. Além da atual honraria, a jurista também recebeu em 2018 o Prêmio de Direitos Humanos, do Ministério de Direitos Humanos do Brasil, e em 2019 o Prêmio Espírito Público, de uma organização social apartidária que contempla a Fundação Lemann, Humanize, entre outras.

Neste último prêmio, como complemento, ganhou um curso de gestão na Hertie School, com duração de uma semana, na Alemanha.