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ARTE

Em Coxim, muralista Eduardo Kobra produz obra sobre Zacarias Mourão e fala sobre fé e arte

Além do mural, o artista fará uma parceria com o cantor Luan Santana em prol do Pantanal
10/12/2020 07:30 - Naiane Mesquita


Aos 45 anos e com diversos murais espalhados pelo mundo, o muralista Eduardo Kobra defende que a arte tem muito mais a oferecer do que apenas a estética. “Particularmente, eu penso sempre na arte como veículo de transformação, primeiro porque transformou a minha vida”, afirma o artista em entrevista ao Correio do Estado.  

Com isso em mente, ele percorreu 1.200 km de carro, de São Paulo até Coxim, cidade no interior de Mato Grosso do Sul, para pintar um mural de 6 metros por 19,60 metros, do compositor Zacarias Mourão. A obra, que deve ser concluída até o dia 11 de dezembro, inicia um projeto do artista de valorização da cultura regional brasileira.  

“Está valendo muito a pena o esforço e tal, a dedicação de poder estar por aqui, os outros tantos trabalhos que eu deixei de fazer para estar justamente aqui. A escolha se deu dentro de um dos projetos que eu tenho, o qual se chama Recortes da História ou Muro das Memórias, em que eu falo justamente da valorização e da importância de tantas personalidades, de tanta riqueza cultura, a escolha aqui foi pelo Zacarias Mourão, que é um poeta e músico regional que influenciou tantos grupos e tantas pessoas com aquilo que ele deixou”, pontua.  

Kobra confessa que um dos seus sonhos era conhecer Mato Grosso do Sul.  

“É interessante, porque eu tenho viajado muito, às vezes eu passo oito ou nove meses fora do Brasil, mas eu tenho trabalhos em vários estados, muitas cidades e várias capitais brasileiras também. Por causa de um projeto que eu tenho, chamado Greenpincel, que fala da preservação do meio ambiente, da natureza e dos animais. Então você pode imaginar que um dos meus sonhos atuais era vir justamente para cá, era conhecer um pouco mais de Mato Grosso do Sul”, afirma.  

No mural, Kobra destaca Zacarias Mourão (Coxim, 1928 – Campo Grande, 23 de maio de 1989), que colocou, principalmente com a canção “Pé de Cedro”, a cidade no cenário da música regional e nacional.  

Além do mural, o artista fará em parceria com o cantor Luan Santana, uma intervenção artística em alguma região devastada pelas queimadas, destacando a importância da preservação da natureza.

“Luan Santana, por ser da região, está sendo muito gentil em poder apoiar esse projeto de proteção aos animais, porque ele também é muito entusiasmado nessa questão da proteção das florestas, do meio ambiente e dos animais. Quando ele descobriu que eu estava envolvido neste projeto, prontamente me enviou uma mensagem, colocou todas as redes sociais dele a minha disposição e nós vamos marcar um encontro para fazer uma ação juntos, unindo forças para conscientizar as pessoas”, pontua. 

 
 

Pandemia

Além do trabalho em Coxim, um dos últimos murais entregues pelo artista está na região do Minhocão, em São Paulo. A obra “A Mão de Deus” tem 33 metros de altura por 7 metros de largura, na empena de um prédio situado na rua Traipu, nº 50. De acordo com o artista, é a mais autobiográfica de todas as suas obras. “Logo no começo da pandemia, eu perdi um bebê, lá por fevereiro, março, mais ou menos, então obviamente, passando pela questão do luto, veio a pandemia, a dificuldade toda, fiquei muito preocupado, com medo, muita ansiedade, muita depressão e tudo mais. Então, foi um momento muito delicado para mim, sim”, reflete.  

Para ele, a fé e o amor pela arte acabaram o ajudando a amenizar a tristeza pelo luto e pela pandemia. “Precisei de Deus e de fé. E, graças a Deus, eu estou agora pintando, o que significa que as minhas orações deram resultado”, frisa.  

Segundo o artista, a pandemia também traz lições. “Ensinou-me muita coisa, sempre usei minha arte para passar algum tipo de mensagem, não só como questão estética, mas para falar sobre todo o tipo de agressão, violência, racismo, união dos povos e tolerância. Nesse período, desenvolvi algumas artes, leiloei uma parte e doei 100% para ajudar as pessoas. Eu pude ajudar 20 mil moradores de rua”.  

 

O artista

Os murais de Kobra estão em cerca de 35 países e em diversas cidades e estados brasileiros – como “Etnias – Todos Somos Um”, no Rio de Janeiro; “Oscar Niemeyer”, em São Paulo; “The Times They Are A-Changin” (sobre Bob Dylan), em Minneapolis; “Let me be Myself” (sobre Anne Frank), em Amsterdã; “A Bailarina” (Maya Plisetskaia), em Moscou; “Fight For Street Art” (Basquiat e Andy Warhol), em Nova York; e “David”, nas montanhas de Carrara.

Kobra é um expoente da neovanguarda paulistana. Começou como pichador, tornou-se grafiteiro e hoje se define como muralista. Seu talento brota por volta de 1987, no bairro de Campo Limpo, com o picho e o grafite, e se espalha pela cidade e pelo mundo. Com os desdobramentos que a arte urbana ganhou em São Paulo, ele derivou – com o Studio Kobra, criado em 1995 – para um muralismo original, inspirado em muitos artistas, especialmente os pintores mexicanos e norte-americanos.