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DOENÇA AUTOIMUNE

Lúpus é uma doença inflamatória causada pelo próprio sistema imunológico e capaz de afetar múltiplos órgãos

Um dos órgãos mais atingidos pelo lúpus é a pele, que pode apresentar manchas vermelhas, principalmente no rosto
08/02/2021 09:21 - Naiane Mesquita


Conhecido principalmente por atingir alguns famosos, como a cantora norte-americana Selena Gomez – que chegou a realizar um transplante de rim em 2017, em razão do avanço da doença –, o lúpus é uma doença inflamatória e autoimune que afeta múltiplos órgãos e tecidos, como pele e articulações, causando dor, febre e fadiga.  

No mês de fevereiro, a cor roxa simboliza a conscientização para o diagnóstico precoce e o tratamento da doença, ao lado de outras duas patologias, o Alzheimer e a fibromialgia. Apesar de diferentes, elas têm em comum o fato de não terem uma cura descoberta até o momento.  

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“O lúpus é uma doença autoimune que a gente chama de ‘protótipo das doenças autoimunes’”, explica o médico reumatologista e professor do curso de Medicina da Uniderp Izaias Júnior.

“O que a gente tem no nosso corpo é um sistema imunológico, que é um sistema de defesa. Ele tem de nos proteger de vírus, bactérias, e faz isso gerando um processo inflamatório, então, por exemplo, quando alguém está gripado, com o nariz escorrendo e febre, isso tudo é resultado do processo inflamatório que o seu sistema imunológico está promovendo contra aquele vírus, aquela bactéria que está tentando invadir seu corpo”, conta o médico.  

Em pacientes com lúpus, o que ocorre é uma desregulação do sistema imune. “O paciente que tem lúpus ou doenças autoimunes tem uma desregulação no seu sistema de defesa, que passa a ter dificuldades em diferenciar o que é uma bactéria, um vírus ou um organismo estranho ao próprio corpo”, ressalta Izaias Júnior.

Confuso, o sistema imune gera um processo inflamatório contra os tecidos do próprio corpo. “É como se o soldado atirasse nos companheiros do pelotão”, exemplifica o médico.  

A doença pode atingir diversos órgãos e tecidos. “Ela é tida como a doença mais polimórfica da medicina, ou seja, é a doença que pode se apresentar de maneiras diferentes: ela pode acometer qualquer órgão e tecido, mas existe um padrão, a maioria das pessoas inicia, abre o quadro de lúpus, com alguns sintomas gerais, que são sintomas que a gente vê em outros processos inflamatórios, como fadiga, mal-estar, dor de cabeça, dores musculares, dores articulares, às vezes uma febre baixa, falta de apetite, perda de peso e alguns sintomas específicos, como inflamação nas articulações, nas juntas, principalmente das mãos, punhos, joelhos, tornozelos. As juntas ficam inchadas, às vezes quentes e doloridas”, pontua.  

Foi dessa forma que Marli Lopes de Souza, 44 anos, descobriu a doença. Primeiro, ela notou manchas vermelhas na perna e, logo em seguida, surgiram as dores nas articulações.

“Eu descobri quando de repente apareceram umas manchas nas minhas pernas, um inchaço no tornozelo. Até então, onde estava inchado não doía, mas estava inchado e na época eu achei estranho. Comecei a ter perda de cabelo, aftas na boca, um ou dois dias de febre”, relembra.  

Há 16 anos Marli convive e realiza tratamento frequente para a doença. No início, ela confessa que o mais difícil foi lidar com o inchaço e, posteriormente, as dores nas articulações. “O que me incomodava muito eram os inchaços nas articulações, nos cotovelos, e os punhos e os joelhos que doíam demais, principalmente no finzinho da tarde. Eu dormia e amanhecia bem e, quando era fim de tarde, eu começava a sentir as dores novamente”, pontua.

Marli explica que notou o aparecimento da doença após o nascimento do filho.  

“Após um ano e três meses que ele nasceu é que começaram a surgir os sintomas. Eu já procurei acompanhamento: fui atrás dos médicos, que conseguiram diagnosticar o lúpus”, frisa.

As lesões na pele que Marli notou são sintomas comuns da doença. “É comum que os pacientes com lúpus afirmem que têm sensibilidade ao sol. Quando a pessoa sai ao sol, a pele fica bastante machucada, principalmente na maçã do rosto, no decote e nos antebraços, que são as áreas que ficam mais expostas aos raios solares. Essa lesão avermelhada é chamada de rash malar ou asa de borboleta, porque a mancha faz justamente o formato de uma asa de borboleta”, indica Izaias Júnior. O cuidado, neste caso, é o uso de protetor solar e outros adereços, como guarda-sol, para evitar a exposição e diminuir a chance de manchas.  

ÓRGÃOS AFETADOS

Assim como no caso da cantora e atriz Selena Gomez, que fez um transplante por causa do avanço da doença, o lúpus pode atingir os rins.  

“Ele pode acometer os órgãos internos. Tem que ficar de olho e cuidando, principalmente o acometimento dos rins. O lúpus pode causar uma inflamação dos rins, chamada de nefrite, e esta inflamação pode levar à perda da função dos rins. O paciente chega a precisar de uma hemodiálise, se não for tratada da maneira adequada”, frisa o médico.

De acordo com Izaias, o indicado é que o paciente – não só os que tem lúpus – observem a urina, já que a doença pode ser silenciosa. “O paciente pode observar se a urina forma muita espuma, porque a lesão nos rins não é muito sintomática, não dá dor, o que pode ocorrer é um aumento da pressão arterial. Mas não dá muito para perceber, se a pessoa não for atenta”, explica.  

Além disso, a doença pode atingir coração, pulmão, cérebro e vasos sanguíneos. “Grosso modo, é uma doença que acomete muito articulações, pele, rins e causa sintomas gerais”, frisa.  

Outro ponto indicado pelo médico é que pessoas que têm parentes próximos com lúpus devem ficar atentas. “O lúpus tem um componente genético importante. Não necessariamente, mas você tem mais chance de desenvolver a doença se um parente de primeiro grau tiver. É preciso redobrar a atenção em relação aos sintomas”, afirma.

TRATAMENTO

O tratamento indicado para a doença é o uso de imunossupressores. “O lúpus é uma desregulação do sistema imune, então, a gente precisa usar medicações que reduzem ou que ajustam a intensidade da resposta inflamatória. É um tratamento um pouco desafiador, porque a gente precisa reduzir a intensidade da resposta inflamatória do paciente ao ponto de a doença não se tornar ativa, mas não reduzir demais, para não expor o paciente ao risco de não ter infecções”, pontua.

Famosa em época de pandemia, a hidroxicloroquina é utilizada no tratamento do lúpus por auxiliar na regulação da imunidade.  

“Uma medicação muito comum de ser usada é a hidroxicloroquina, que ficou famosa por causa de alguns estudos iniciais no começo da pandemia que evidenciaram um possível benefício. Hoje a gente sabe que não existe esse benefício, mas na época teve um certo frisson em torno disso. A cloroquina funciona como um imunomodulador, ou seja, dá uma estabilizada na resposta imunológica”, explica. Além disso, normalmente o tratamento é feito com o uso de corticoides.

Correio do Estado