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CRÔNICA

Maratona de limpeza

"Não há como evitar. Atualmente só há dois assuntos que se sobressaem a todos os outros: a Covid 19 e a política."
18/07/2020 10:25 - Theresa Hilcar


Não há como evitar. Atualmente só há dois assuntos que se sobressaem a todos os outros: a Covid 19 e a política. Ninguém aguenta mais ler sobre as duas pandemias que tem tirado o sono da maioria dos brasileiros. Eu tampouco. Mas falar de coisas mais leves, como sugeriu a leitora e amiga, exige uma leveza que, sinceramente, não tenho no momento.

Eu bem que tento. Evito ler e ouvir coisas pesadas, voltei a fazer meditação e comecei a cantar baixinho, coisa que não fazia há séculos. Mas sinto que minha intolerância também está alcançando níveis inimagináveis. Hoje mesmo, quando o interfone tocou às sete horas da manhã, interrompendo o silêncio do quarto, dei um pulo da cama e esbravejei bastante antes de tirar o fone do gancho.

Tudo que me tira da rotina é motivo de desagrado. São quase 120 dias cumprindo à risca o isolamento. Criar uma rotina foi inevitável. E a minha é quase espartana, eu diria. Não fossem esta crônica para o jornal e eventuais matérias que faço no home office, diria que virei um fantasma. Desses que eventualmente descem as escadas do prédio, evitando o uso do elevador, com o saco de lixo na mão e rezando para não encontrar vizinho algum.

A hora de receber as compras é um verdadeiro martírio. Ao primeiro sinal do entregador, que normalmente vem da mercearia aqui perto, começo a me paramentar com o vestuário de uso exclusivo para saídas do apartamento. Roupa, sandália, óculos, bolsinha, álcool gel e, claro, a máscara. Pego as compras e subo pelo elevador, sempre sozinha. Depois vem a parte da desinfecção.

Tenho uma área exclusiva para a primeira parada dos produtos, antes da higiene propriamente dita. Imediatamente tiro tudo das sacolas plásticas e borrifo o álcool 70 em tudo. Depois vou pegando um por um e limpando com papel toalha e álcool gel. Legumes e frutas passam por uma minuciosa limpeza com sabão neutro e em seguida vão para imersão de hipoclorito de sódio, junto com as verduras.

Quando não sei bem o que fazer, deixo os objetos não laváveis de quarentena por um ou dois dias na primeira parada, antes de serem guardados.  Sim, às vezes bate uma dúvida: será que estou fazendo o correto? Não sei se uma limpeza só basta, se o vírus não pode se esconder nos cantinhos, se ele ficou na sacola. Sem saber o que fazer, entrego para Deus. Ele deve entender melhor dessas coisas que eu.

Depois das compras é hora de tirar a roupa (o calçado já ficou na entrada), a máscara, limpar os óculos e lavar novamente as mãos antes de entrar na cozinha. O processo todo leva de uma a duas horas, dependendo do volume. Mas tenho evitado grandes compras. Desconfio até que tenho evitado comer para não ter que passar por este exaustivo processo. Mesmo assim o ponteiro da balança subiu um pouco. Desconfio que a falta de sol e ar puro engordam.

Por isso não tenho vergonha de confessar: sinto uma pontinha de inveja de quem tem um “canto verde” pra chamar de seu. Que falta me faz um simples jardim! Nem vou falar de água e árvores que já é querer demais. E tenho vontade de chorar vendo gente fazendo live em meio à natureza. Aliás, é duro ver tanta gente fazendo live sobre os mais variados tipos de assuntos. E não é opção assistir ou não. Elas simplesmente aparecem nas minhas redes sociais – que, aliás, ando evitando o máximo que posso.

Ontem por exemplo, apareceu uma senhora, que tem milhares de seguidoras, ensinando a fazer maquiagem em pele madura para, segundo ela, dar dignidade na quarentena. Olá? Quem vai pensar em fazer maquiagem para descer na portaria ou fazer faxina na casa? As mocinhas, as recém-casadas, aquelas que estão em casa com seus maridos ou namoridos, talvez tenham mesmo que cuidar minimamente da aparência, sob pena de azedar o convívio. Aliás, isto vale também para os homens. Que, convenhamos, não precisam passar o dia com aquele calção velho e feio.

Bom, mas isto é problema de cada um. Já basta a parte que me cabe neste latifúndio de vírus, emas e antas. E haja água, sabão e outros bichos!

 

Felpuda


Figurinha carimbada ganhou o apelido de “biruta”, instrumento que indica direção do vento e, por isso, muda constantemente. Dizem que a boa vontade até existente ficou no passado, e as reclamações são muitas, mas muitas mesmo, diante das decisões que vem tomando a cada mudança de humor do eleitorado. Como bem escreveu o poetinha Vinicius de Moraes: “Se foi pra desfazer, por que é que fez?”.