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CRÔNICA

Na fila da vacina

Por Theresa Hilcar
12/04/2020 00:00 - Da Redação


 

E no 23º dia eu saí. Não sem antes pedir a proteção divina e, claro, colocar uma máscara – caseira - para minimizar o trabalho Dele. Que, convenhamos, deve estar muitíssimo ocupado no momento. A bem da verdade, devo dizer que hesitei bastante sobre a decisão. Arriscar o bem-estar ou prevenir de uma gripe? Escolhi a prevenção, até porque tenho gripes muito desagradáveis nesta época do ano.

Colocar os pés fora do prédio, depois de tantos dias, foi uma sensação estranha. Ôpa, peraí que eu estou na calçada, penso ao ver a jovem, sem máscara, na minha direção. Escolho a farmácia mais próxima para ir a pé, apenas três quadras de distância. E bem cedo, para evitar o movimento que vai crescendo ao longo da manhã. Sim, as ruas estão cheias. De automóveis e pessoas. Infelizmente.

Sou obrigada a me desviar de muitos madrugadores de plantão. Alguns caminham olhando para o celular e outros como se estivessem no parque. Fico aflita com este pequeno trajeto. E o ânimo não arrefece ao avistar a farmácia na esquina. Ao contrário, vejo na porta uma pequena multidão de idosos, alguns muito perto dos outros, fazendo a famigerada fila. Outros esperam dentro dos carros, levados pelos filhos.

A maioria, seguindo a última moda, está usando máscara. Ufa! Menos mal, penso. Pego a última senha do dia e procuro lugar o mais distante possível. Não demora e chega a senhorinha querendo puxar conversa. Que já vem falando antes mesmo de parar a minha frente. Tento despistar, olhar para o lado, mas ela insiste.

A senhora pegou que número? Digo que foi o 25. Ah! Então eu vou primeiro, sou o 18. Mas olha lá, nem chamaram o 12, diz apontando para o interior através do vidro. Faço que sim com a cabeça e me afasto delicadamente para o outro lado. Ela não descansa e procura outro interlocutor. Desta vez é uma jovem que, segundo percebi, foi levar os pais. Menina, a máscara do seu pai está caída, você viu? Vi sim, responde a jovem. Ele diz que é o modelo Bolsonaro, e sorri ingenuamente. Jesus! Tenho vontade de gritar.

O vigia de restaurante nos arredores passa rente à calçada e cumprimenta um amigo na fila. E aí, não vai vacinar? – pergunta o amigo.  Não consegui ainda, responde o senhor magrinho com cigarro entre os dedos, reclamando que não tem paciência para ficar na fila. Também conta que perdeu o emprego há 15 dias.  A senhorinha escuta a conversa e, com ares de intimidade, já lasca o conselho: toma bastante suco de laranja e acerola que dá certo. Afe! Quero gritar de novo.

Sorte que alguém grita primeiro: números 24 e 25 podem entrar. Uma hora na fila, mas finalmente vou conseguir minha ração contra o H1N1. Lá dentro um rapaz pergunta o preço do álcool gel. Muito caro, quase preço de uma vodca, compara, dizendo que o álcool gel está muito líquido. Ah você não vai mais encontrar álcool gel como antes não, explicou a atendente. Ele sai sem o produto e eu imagino se, mais tarde, ele irá comprar a vodca, na tentativa de se proteger por dentro. Vai saber.

Afinal, receitas “milagrosas” não faltam nesta temporada de desatinos. A última que recebi sugere tomar água morna com limão e bicabornato de sódio antes de dormir. Dizem que é tiro e queda. Ciência para quê, não é mesmo?  Estou pensando nos chineses e italianos, que decerto não sabiam das receitas brasileiras, quando vejo duas chiques chegando esbaforidas procurando vacina. Acabou, diz a mulher saindo da cabine de vacinação, com certo ar de vitória. E ainda solta um risinho torto. Preconceito é atemporal pelo visto. O que mais nos trará esta tormenta?

Dizem que diante de um luto, uma morte iminente, a reação das pessoas vem em fases. Quatro para ser mais precisa: negação, raiva, barganha, depressão e aceitação. Creio que já passamos pela primeira – embora ainda haja quem esteja nela – e tremo só em pensar na proliferação da segunda. Para ela não existe vacina.

Felpuda


Pré-candidatos que em outras eras cumpriram mandato e hoje sonham em voltar a ter uma cadeira para chamar de sua estão se esmerando em apresentar suas folhas de trabalho. O esforço é grande para mostrar os serviços prestados, mas estão se esquecendo que a cidade cresceu, os problemas aumentaram e aquilo que já foi tido como grande benefício hoje não passa da mais simples obrigação diante do progresso e das novas exigências legais. Assim sendo...