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LITERATURA

Coletânea de livros terena e obra que reflete sobre família imigrante são finalistas do prêmio Jabuti

A coletânea terena “Itúkeovo Têrenoe” e o livro "Ototo" foram selecionados para o prêmio literário
26/10/2020 07:30 - Naiane Mesquita


O silêncio intrínseco a uma família de imigrantes japoneses, e que de certa forma reflete como é viver na interseção de duas culturas, é a grande inspiração para o livro “Ototo”, concebido em Mato Grosso do Sul pelo escritor Henrique Komatsu e selecionado como finalista do prêmio Jabuti. Neste ano, a premiação, considerada a maior do País na área de literatura, tem dois representantes do Estado na final. Além de “Ototo”, a coletânea “Itúkeovo Têrenoe”, que resgata a língua e as tradições indígenas dos terena de Mato Grosso do Sul, organizado pela professora Denise Silva, do Instituto de Pesquisa da Diversidade Intercultural (Ipedi), também foi selecionado para a premiação, na categoria Inovação – Fomento à Leitura.

Silêncio

Komatsu nasceu em São Paulo, morou durante muito tempo em Curitiba e há 12 anos escolheu Campo Grande para viver. O livro, que resgata parte da sua trajetória como filho de imigrantes japoneses, foi escrito entre os anos de 2014 e 2018, na busca por ensaios mais pessoais.  

“Eu produzi uma série de outros ensaios que transitavam pelo formato conto e pelo formato crônica, e desse exercício, dessas tentativas, saiu esse livro, ‘Ototo’. Curiosamente, quando eu fui olhando todo o material que eu tinha, eu percebi que tinha uma temática comum, que é um pouco sobre esse silêncio que existe na família japonesa radicada no Brasil. Parece que é um silêncio trazido do Japão e enxertado no meio da sociedade brasileira”, explica Komatsu.

Em português, ototo significa irmão mais novo. “Nesse livro eu tento desvendar um pouco do silêncio paterno. Na cultura japonesa, essa coisa do filho mais velho e do filho mais novo é muito importante, inclusive tem um ditado japonês que diz que, quando a situação está muito confusa, não dá para saber quem é irmão mais novo e irmão mais velho, tamanha a força dessa distinção para eles. Eu sou o filho mais velho do meu pai, enquanto meu pai é o filho mais novo dos meus avós. No livro tem essa coisa de olhar para o meu pai, não como meu pai, mas como irmão mais novo, para eu poder deslocar ele da figura de pai e compreendê-lo”, explica Komatsu.  

A tradição também aparece na capa do livro, feita com ideogramas desenhados pelo pai do escritor. “A gente acha que a cultura japonesa não é tão forte nas famílias que vivem no Brasil, mas, quando você observa, percebe que há muita coisa ainda”, acredita.  

Formado em Filosofia e Direito, este último cursado na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), Komatsu conta que descobriu que queria escrever durante a faculdade de Filosofia. “O curso de Filosofia é um curso que atrai muita gente que está querendo saber qual que é a da vida. Foi quando eu conheci um grupo de poetas, músicos e outras pessoas que estava tentando fazer alguma coisa. Por eu me aproximar desse grupo, eu acabei descobrindo que eu queria escrever”, relembra.  

O primeiro livro foi lançado no último ano da faculdade de Filosofia, intitulado “A Igreja de Pedra”. Depois veio o livro de contos “Cidade Dormitório”, em 2006, o infantil “A Menina que Viu Deus”, em 2017, e agora, “Ototo”. Os dois últimos publicados pela editora Confraria dos Ventos.  

 

 
 

“Itúkeovo Têrenoe”

A coletânea de livros “Itúkeovo Têrenoe” foi publicada no ano passado, por meio do Fundo de Investimentos Culturais (FIC) e do Ipedi. O trabalho é fruto da dedicação de diversos professores de Miranda, interior de Mato Grosso do Sul, que resgatam a cultura e a língua terena nas escolas da região. “Esse trabalho na verdade é o resultado de um longo estudo de linguística, que, ao longo dos últimos 19 anos, tem tentado documentar a língua e a cultura indígena de Mato Grosso do Sul”, explica Denise Silva, professora da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD).  

A coletânea foi escrita por professores de escolas indígenas de Miranda e organizado por Denise.  

Os temas são referentes a “modo de ser”, “modo de fazer” e “contos e lendas”. “A coletânea é composta por um box com, quatro livros inéditos e escritos em língua terena”, frisa.

Um dos autores da coletânea, o professor terena Anésio Alfredo Pinto, foi uma das vítimas do novo coronavírus e faleceu no dia 24 de setembro, antes da revelação de que os livros eram finalistas no maior prêmio da literatura brasileira.  

Para a professora, a maior homenagem ao educador é tornar a memória terena mais forte nas futuras gerações. “Nesse momento de pandemia, em que temos perdido muitos idosos das nossas comunidades, esse prêmio nos emociona muito. Eu sempre falo que quando parte um idoso na comunidade indígena, perdemos um pouco da biblioteca do povo. Enquanto a sociedade ocidental tem a tradição de escrever a sua história, os indígenas contam ela por meio da oralidade, por isso é tão importante documentar a cultura e a língua atualmente. Nas comunidades indígenas, todo esse conhecimento está na memória dos mais velhos”, explica.  

Além da coletânea, a professora desenvolve um trabalho de capacitação de professores indígenas nas escolas, por meio da inter-relação entre Comunicação e Educação. “Nós trabalhamos por meio da educomunicação, com o objetivo de valorizar a cultura local por meio do resgate dos saberes tradicionais. Esse projeto surgiu pela colaboração de duas organizações não governamentais de Mato Grosso do Sul, a Ecoa e o Ipedi. A experiência de trabalhar juntas foi promovida por meio do edital da Brazil Foundation, que buscava propostas de trabalhos colaborativos entre as instituições que já recebiam apoio da fundação”, frisa.  

Nesse trabalho foram utilizados zines – revistas independentes – para que alunos e professores pudessem escrever sobre as lendas, tradições e memórias da cultura indígena. Foi a partir daí que surgiu a proposta da coletânea, reconhecida agora nacionalmente. “Teve esse projeto de educomunicação para produzir o material, mas os textos são resultado do meu trabalho de 19 anos com o povo. A gente teve a ideia de organizar em forma de coletânea porque os professores se apropriaram da metodologia da educomunicação e começaram a utilizar. Por isso que a gente fragmentou em quatro pequenos livretos, como se fossem quatro zines”, indica Denise.  

O prêmio Jabuti, que está em sua 62ª edição, é organizado pela Câmara Brasileira do Livro (CBL). Os vencedores de cada uma das 20 categorias e o ganhador do Livro do Ano serão anunciados em cerimônia de premiação on-line, transmitida ao vivo nas redes sociais da CBL, no dia 26 de novembro.

 

 

Felpuda


Racha em entidade religiosa teve péssimas consequências eleitorais na disputa por vagas na Câmara Municipal de Campo Grande.

O quiproquó, também, digamos, com nuance familiar, provocou estragos da-que-les.

Aí, como consequências, fez com que quem está não conseguisse votos suficientes para permanecer em 2021-2024 e quem estava fora tentando retornar ficasse à beira do caminho. 

Como se vê...