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CRÔNICA

Precisamos aprender sobre racismo

"Portanto, reconheço que não tenho lugar de fala nesse contexto."
13/06/2020 13:31 - Theresa Hilcar


Não sei quase nada sobre racismo. Estaria mentindo se dissesse que compreendo o racismo. Sou branca, nasci e cresci cercada de brancos de olhos azuis e verdes, estudei em escolas de brancos e só na idade adulta é que fiz amigos pretos. Antes dos 30 anos as únicas pessoas pretas que eu conhecia mesmo era dona Tereza, que me disseram teria me amamentado, dona Dirce, cozinheira de mão cheia, de cujas broas de milho muitas vezes eu acompanhava o fazer. Minha cidade era branca, por assim dizer. 

Portanto, reconheço que não tenho lugar de fala nesse contexto. Talvez por isto não me senti no direito de colocar tela escura (em sinal de luto) nas minhas redes sociais, nem fazer post manifestando a latente – e óbvia - indignação diante do assassinato brutal de George Floyd, morto nos Estados Unidos. Também não aderi ao movimento mundial Black Lives Matter (Vidas Negras Importam), que veio na esteira dessa justa comoção.

Não. Eu não tenho lugar de fala em meio a essa dor e outras dores ancestrais.  Tenho três ou quatro amigos negros. Um deles morreu ano passado, o querido artista plástico Isaac Oliveira. O que eu conheço da escravidão, li nos livros de história. E confesso: foi muito pouco. Através de Castro Alves conheci os versos do poema “Os navios negreiros”; desde cedo me identifiquei com o banzo, a melancolia que acometia os escravos longe da terra natal. Sei que a abolição no Brasil foi tardia; que a novela “Escrava Isaura” me deixava em prantos.

Na cultura tenho mais ídolos pretos do que brancos. O cineasta Spike Lee, o ator Denzel Washington, Oprah Winfrey. Na música, o primeiro foi Nat King Cole, ainda na infância; depois vieram em sequência Steve Wonder, Aretha Franklin, Nina Simone, Diana Ross, só para citar alguns. Os livros de autoras como Alice Walker e Chimamanda Ngozi Adichie me mostraram o universo feminino nos países africanos. Nelson Mandela é um exemplo de vida e de luta pacífica. Antes de conhecer a história de Martim Luther King, o ativista era apenas o homem que tirou de mim um título de beleza. 

Explico: aos doze anos disputei um concurso de Rainha dos Estudantes, da minha cidade, e minha concorrente mais forte citou o nome do recém-eleito Prêmio Nobel da Paz durante a entrevista. Ao ouvir aquele nome, mesmo sem saber quem era, intui que ali tinha acabado todas as minhas chances. Lembranças à guisa de ilustração. Que foi pouca, é verdade.

Sou de uma época e de um lugar onde as pessoas não falavam sobre segregação racial.  Numa cidade tão branca não havia discussões sobre racismo ou preconceito.  A separação entre nós era imperceptível ou velado.  Na minha família e na pequena cidade em nasci e cresci não me lembro de ter visto qualquer palavra ou gesto de preconceito. Diante deste cenário, talvez eu deva dizer que vivi à deriva de uma realidade que hoje se impõe com toda a força.

E talvez este hiato tenha contribuído para minha ignorância e desconhecimento. Por exemplo, não entender nada de candomblé; não saber a diferença entre os termos vigentes: negros, pretos, pardos e afrodescendentes. E na esteira do desconhecimento, a palavra neguinho era para mim apenas um apelido comum de qualquer menino da cidade. É também como uma amiga apelidou meu filho mais novo: meu nego, ela diz. 

E como não reconheço meu lugar de fala, porque de fato ele não existe, posso falar apenas do que meus olhos veem horrorizados. Como o número imenso, escabroso, de negros  assassinados pela polícia – no Brasil, nos EUA,  Reino Unido e em outros países. Claro que ouço o discurso das redes sociais sobre fatos recentes de racismo escancarado – e às vezes desconfio das declarações vazias de solidariedade. Também assisto, impávida, gente que faz live em defesa do que chamam de racismo natural. E acho escandaloso um governo que faz publicidade sobre educação usando foto de crianças brancas. Não, aqui não precisamos de Klu Klus Klan.

Mas, como já disse, não tenho nenhuma legitimidade para falar de pretos, de escravidão, de racismo. Mas tenho, sim, o direito de deixar cair todas as lágrimas diante de Mirtes Renata, a mãe do menino Miguel Otávio Santana da Silva, de cinco anos, literalmente conduzido à morte pela patroa da mãe num Condomínio chique de Recife. Ela que apertou o botão do elevador, ao que parece no nono andar, displicentemente a fim de se livrar de um incômodo. 

Miguel chegou ao térreo pouco depois num voo solo. Claro, um anjo só pode voar. E seu voo foi em busca da mãe que, cumprindo função que nem lhe pertencia, estava passeando na rua com o cachorrinho da patroa. Uma senhora loura, uma primeira dama, que foi incapaz ter um mínimo de paciência, como disse singelamente a avó do Miguel. Faltou paciência, corroborou a mãe. Cinco minutos, senhora. Olha meu menino como eu olho o seu, por favor. Ele só tem cinco anos, vai ficar perdido, não está acostumado com elevador nem conhece o condomínio.

Cuida dele pra mim só um pouquinho? A patroa, soprando o esmalte das unhas, acenou que sim. E lá se foi a Mirtes porta afora levando o cãozinho, enquanto Miguel, seu único filho, preparava-se para voar. Meu lugar de fala é apenas um grito de espanto e solidariedade. Racismo deveria ser ensinado na escola.

*Theresa Hilcar é jornalista, escritora e escreve aos sábados para o Correio do Estado

Felpuda


Figurinha está trabalhando intensamente para tentar eleger a esposa como prefeita de município do interior.

Até aí, uma iniciativa elogiável. Uns e outros, porém, têm dito por aí que seria de bom tom ele não ensinar a ela, caso seja eleita, como tentar fraudar folha de frequência de servidores. 

Afinal, assim como ele foi flagrado em conversa a respeito com outro colega, não seria nada recomendável e poderia trazer sérias consequências. Só!