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MUDANÇA DE VOCABULÁRIO

Rotular pessoas com deficiência como exemplos de superação pode trazer mais preconceito que elogio

Perfil no Instagram com o objetivo de abordar temas relacionados ao seu cotidiano
07/07/2020 07:00 - Naiane Mesquita


 

Jornalista, Sarah Santos tem 22 anos e muitos deles vividos da melhor forma possível, ao lado de amigos, familiares e do namorado. O cotidiano comum a jovens da sua idade muitas vezes é visto como uma superação por parte da sociedade e até da mídia.  

A palavra vem sempre acompanhada da história de vida de Sarah, que tem uma má formação congênita denominada Focomelia, causada pelo uso do remédio Talidomida durante a gravidez. O medicamento utilizado pelos avós causou a má formação nos pais de Sarah e, posteriormente, nela.  

Mas, ao contrário da expectativa do senso comum, Sarah sempre  lidou bem com a deficiência, tema que ela tenta desmistificar todos os dias na internet e na vida real.  

“Com a vivência na pele de várias situações relacionadas à deficiência, torna-se quase inevitável falar sobre o assunto. O movimento de pessoas com deficiência é muito novo e a maioria dos conceitos ainda não foi difundido entre as pessoas. Também, por ser jornalista e trabalhar com Marketing Digital, entendo a importância das informações para contribuírem com as lutas sociais.”, explica.  

Foi com esse propósito que Sarah criou o perfil @soupassarinha no Instagram e todos os dias busca mostrar não só o seu cotidiano, mas temas importantes, como o fato de que nem sempre o preconceito é óbvio. “Acredito que, para que pessoas com deficiência entendam sobre as nossas pautas, é preciso que nós falemos à respeito delas”, pontua. “É muito comum, inclusive, eu ser chamada de “exemplo” por fazer coisas que não fazem de mim um exemplo, necessariamente, como beber com amigos, dançar em festas e ir para o Carnaval. Nesses momentos acredito que o preconceito fique mais evidente ainda, pois não há nenhum mérito nessas atividades de pura descontração”, completa.  

O termo que a primeira vista pode ser inocente e até denotar empatia com a realidade de milhares de pessoas pode carregar o preconceito de forma latente. “Geralmente, o termo ‘exemplo de superação’ é utilizado para se referir à pessoas com deficiência que levam uma vida normal, fazendo coisas que pessoas sem deficiência fariam, conquistando o seu espaço e adquirindo coisas por mérito próprio. Quando se coloca uma pessoa com deficiência como ‘exemplo’ ou ‘inspiração’ por fazer o mínimo, espera-se que o normal seja que ela não faça nada, não se destaque, não se desenvolva na sociedade”, explica.  

Para a jornalista, é necessário cuidado ao abordar assuntos como esse e o que o propósito não é desmerecer a admiração das pessoas. “Não há mal em elogiar uma pessoa com deficiência por algo que ela faz ou suas contribuições para a sociedade. Por exemplo, não há mal em dizer que eu sou um exemplo de profissional ou uma profissional inspiradora. O problema está quando a deficiência te dá esse status de “super-heroi””, acredita.  

Para ela, esse elogio pode ir contra o desejo de inclusão. “Esse pensamento vai contra o que o movimento de pessoas com deficiência prega, de que queremos ser vistos em patamar de equidade perante o resto da sociedade”, frisa.

Mudança

Sarah confessa que já foi transformada em um exemplo de superação, porém, sente que o discurso tem mudado ao longo dos anos. “Antes, isso acontecia muito mais. Hoje, acredito que  por eu falar sobre isso com frequência e as informações sobre o universo de pessoas com deficiência também estarem mais disseminadas, as pessoas sabem que não é interessante usar esse termo.

Eu sempre me senti um pouco constrangida ao ser chamada dessa maneira, mas não via como se fosse realmente um problema, até me integrar no movimento de pessoas com deficiência e me aprofundar na nossa realidade, saber porque, mesmo com o passar dos anos, pessoas com deficiência ainda são marginalizadas”, frisa.

Para ela, esteriótipos como esse contribuem ainda mais para o preconceito e a marginalização.  

Representatividade

Para a jornalista, é possível ir além do exemplo de superação ao se ater as reais necessidades que as pessoas com deficiência tem, como a de políticas públicas que sejam eficientes para promover a equidade. “Há temas muito interessantes e que devem ser compartilhados com a sociedade, como relacionamento, sexualidade, acesso à educação, saúde, entre outras problemáticas.

Não digo que histórias de pessoas com deficiência não devam ser compartilhadas. Acho importante, pois isso ajuda a naturalizar a imagem que a sociedade tem do PCD. No entanto, é possível contar histórias saindo da narrativa de exemplo de superação”, frisa.

Para a jovem, o problema são os extremos. “Como jornalista, fico incomodada por termos tanta abertura na mídia para histórias que colocam pessoas com deficiência como “super-heróis” ou como “coitadinhos”, sempre em um desses dois extremos. Enquanto isso, não temos a mesma abertura para coisas que realmente precisam ser faladas, como a ausência do Estado nas políticas públicas para pessoas com deficiência e a negligência sofrida por esse grupo”, pontua

Lei Brasileira de Inclusão

Ontem (6), a Lei Brasileira de Inclusão celebrou 5 anos de existência, ainda com muitos desafios. “Pela primeira vez, o movimento de pessoas com deficiência se sentiu verdadeiramente olhado pelo poder público. Agora, temos leis para nos protegerem em relação à cultura e lazer, no trânsito, em relação à curatela - quando uma pessoa sem deficiência é responsável por uma pessoa com deficiência adulta - e a criminalização da discriminação contra pessoas com deficiência, entre tantas outros direitos pautados. No entanto, ainda sentimos falta de ver o desenvolvimento dessas legislações na prática”, frisa.

 
 

Felpuda


Pré-candidato a prefeito de Campo Grande divulgou vídeo em que político conhecido Brasil afora anuncia apoio às suas pretensões. O problema é que o tal líder já andou sendo denunciado por mal feitos em sua trajetória, sem contar que o pai do dito-cujo teve de renunciar ao cargo de ministro por ter ligações nebulosas com empresa de agrotóxico. Depois do advento da internet, essa coisa de o povo ter memória curta hoje não passa de coisa “da era pré-histórica”.