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CULTURA

Saiba como a arte kadiwéu de Mato Grosso do Sul está ganhando o mundo

Mulheres indígenas se unem em associação e mostram o poder da arte que atravessa séculos
30/11/2020 07:00 - Naiane Mesquita


“Eu produzo desde quando me conheci como gente, com a minha mãe”, conta Adriele Vergilio de Almeida, 22 anos. Indígena da etnia kadiwéu, ela aprendeu desde cedo os traços finos e cheios de expressão, capazes de se destacar em qualquer parte do mundo, como bem analisou a pesquisa da antropóloga Viviane Luiza da Silva.  

À frente de uma longa investigação sobre a etnia, Viviane resgata a história da cerâmica – que ela estima ter 1.500 peças espalhadas pelo mundo – e colabora para o desenvolvimento do projeto de pesquisa sobre “Cerâmica e o Fomento da Comunidade e Cultura Kadiwéu no Mato Grosso do Sul”, desenvolvido na aldeia Alves de Barros, em Porto Murtinho. 

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Este último é realizado pelo governo do Estado, por meio da Fundação de Apoio ao Desenvolvimento do Ensino, Ciência e Tecnologia do Estado de Mato Grosso do Sul (Fundect), Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) e Universidade de Manitoba, do Canadá.  

O projeto tem o objetivo de estudar, fomentar e divulgar a cerâmica kadiwéu, avaliando seus aspectos artísticos associados aos fatores culturais e socioambientais, bem como as consequências de sua inserção no mercado nacional e internacional, sempre com ênfase no empoderamento das mulheres indígenas.

Para isso foi criada a Associação das Mulheres Artistas Kadiwéu (Amak), que justamente resgata essa história da cerâmica e valoriza a produção local. Com um site prestes a ser lançado, que possibilitará a venda da cerâmica para todo o País, as mulheres finalmente terão controle de todo o processo de produção, do barro à entrega.

“A ideia sempre foi identificar os pontos em que nós podemos atuar com a comunidade, de dentro para fora, não de fora para dentro. É uma demanda que a comunidade já tinha e sinalizava que queria muito trabalhar”, explica Viviane. 

Segundo a pesquisadora, o sonho de fundar a associação vivia no imaginário das mulheres desde 2004. “Mas apenas em 2015 conseguimos colocar em prática”, explica.

 
 

É interessante porque essas mulheres sempre me falaram que não eram artesãs, e sim artistas. Elas defendem que a arte Kadiwéu vem de muitos anos, até antes de 1500, quando Cabral chegou em terras brasileiras”, frisa.  

Para Adriele, que é filha de dona Creuza, presidente da Associação, o nascimento da organização e do site é uma vitória para toda a comunidade. 

“Olha, é um projeto que vai nos ajudar muito. Nós aqui da aldeia Alves de Barros digamos que somos meio isolados. É uma oportunidade muito grande da gente poder mostrar nossa arte Brasil afora”, acredita.  

Com uma filhinha de um ano de idade, ela já sonha em mostrar como realizar os desenhos que atravessam séculos. 

“Eu tenho 22 [anos] e pretendo ensinar a nossa arte para minha filha de um aninho, para que ela valorize a nossa cultura, que ela se sinta orgulhosa disso”, pontua.  

Além do site, estão previstos, ainda para 2020, a revitalização do Espaço Cultural da Aldeia Alves de Barros e a construção de um local apropriado para abrigar um museu e uma loja dos produtos das oleiras e outros artesãos, criando um novo complexo no local. 

“Essa iniciativa é muito importante para nosso Estado, pois, além de difundir parte da nossa cultura material e imaterial, também ajuda no sustento da comunidade, ao capacitar essas artistas [sob os aspectos econômico, jurídico e técnico] e oferecer uma estrutura para produção e venda dos seus produtos”, explica o secretário de Governo e Gestão Estratégica, Eduardo Riedel.  

O próximo passo do projeto prevê a inserção de novas etnias ceramistas, além do fomento ao turismo, conforme explica Viviane, que continua com as pesquisas como pós-doutoranda em Antropologia na Universidade de Manitoba. 

“Pretendemos agregar os kinikinau e os terena no projeto de geração de renda e iniciar um trabalho de etnoturismo na aldeia Alves de Barros, com capacitação para recepção dos turistas, atendendo a uma vontade dos próprios moradores da aldeia”, frisa Viviane.  

 
 

Trajetória  

Desde o século 18, quando se tem notícia das primeiras cerâmicas kadiwéu, a técnica artística pouco mudou. Uma argila cinza escura é cavada de um buraco no Pantanal, a uma distância considerável da aldeia, e carregada para casa, onde é misturada com cacos de panela amassados para dar mais rigidez à pasta. 

Dessa mistura, pratos, potes, vasos e outros recipientes são construídos, sem roda de oleiro, acrescentando ao fundo feito de um pedaço de argila uma série de anéis de argila, que são alisados com as mãos e com uma velha colher de metal (anteriormente uma concha). As estatuetas são moldadas a mão. 

A característica mais marcante da cerâmica kadiwéu é a decoração, com linhas gravadas no barro ainda úmido com um cordão de caraguatá, que fornecem os contornos para as pinturas posteriores.

Depois de secar os produtos resultantes à sombra ou, para acelerar o processo, perto do fogo ou ao sol, eles são cozidos em fornalha aberta a temperaturas relativamente baixas. 

Após a queima, quando a louça ainda está quente, esfrega-se na borda e partes da superfície resina de pau-santo, que deve ser obtido com os pigmentos usados para pintura em árduas viagens à Serra de Bodoquena, e mais recentemente também de aroeira-salso. 

Nas peças espalhadas pelo mundo há poucas mudanças. Entre as mais antigas, por exemplo, está uma tigela de 1790, da coleção Alexandre Rodrigues Ferreira, localizada no Museu Mayense da Real Academia das Ciências, em Lisboa. As cores são mais sóbrias do que as que vemos hoje, mas os traços são, com certeza, kadiwéu.  

“Nessa pesquisa identifiquei 900 objetos, que estão em museus na Europa, como Itália, Portugal, Suíça e Alemanha, e nos Estados Unidos, na Universidade de Harvard. Estimo que sejam, em média, 1.500 objetos. Uma forma que eu encontrei de devolver de certa forma esses objetos para a comunidade foi criando um banco digital dessas obras”, pontua Viviane. 

O banco de imagens, a criação da associação e, posteriormente, a criação de uma rádio na aldeia fazem parte do Acordo de Cooperação Mútua para fomentar o intercâmbio cultural entre a Universidade de Manitoba, a UFMS e a Fundect, assinado em 2015.  

Serviço – As peças da associação podem ser adquiridas na Casa do Artesão, na Avenida Calógeras, nº 2.050.