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CRÔNICA

Sobre paranoias e indiferenças

"Pra mim é #fiqueemcasa e não se discute"
02/05/2020 11:00 - Theresa Hilcar


 

Mais de quarenta dias depois do início do confinamento domiciliar, algo me chama a atenção todos os dias quando alcanço a rua através da minha janela. O barulho dos carros e motos continua como se tudo estivesse normal. Ouço vozes de pessoas a todo instante e reparo, mesmo de cima, que há um vai e vem constante.

Às vezes chego a pensar que só eu vivo em meio a uma pandemia. Estou numa espécie de Matrix. Sou um avatar de mim mesma. Quem sabe nada disso seja real? Quem sabe eu seja a imitação daquele soldado japonês que viveu escondido na selva, anos a fio, ignorando o término da segunda guerra? Ou sou apenas uma metamorfose ambulante?

Na percepção de uma amiga, inconformada com minha recusa de sair de casa até para visitar os netos, o que me define no momento é a palavra “paranoica”. Com os devidos cuidados, diz ela, não há problema em pegar um táxi apenas para ver, apenas ver, meus lindos netos que, para minha aflição de avó, estão se desenvolvendo longe das minhas vistas e cuidados.

Na dúvida entre paranoia e cuidados, fiz consulta virtual com dois queridos amigos médicos – da melhor cepa. A resposta de ambos foi “não”. Não, você não está paranoica. E não, não deve sair de casa. Segundo um deles, por acaso eu sou, sim, o elo mais fraco da corrente. Pra mim é #fiqueemcasa e não se discute.

Mas a amiga, que também insiste para que eu vá visitá-la, não está sozinha em sua percepção. Em que pesem todos os alertas, apelos médicos e milhares de mortes que se acumulam, boa parte da população não aceita ficar em casa. Consideram um exagero quem não sai nem para ir ao mercado. 

Fico sabendo inclusive de pessoas que ainda jogam futebol ao ar livre, fazem atividades em grupo, não dispensam os contatos interpessoais, não tomam precauções nem procedem com cautela. E que não é raro frequentar praças em dia de sol, levar os filhos para brincar nos parquinhos, passear em bares e – pasmem! – fazer até churrasco com a família e amigos.

Não compreendem que ficar em casa, além de ser uma medida defensiva, de proteção à vida pessoal e familiar, é também uma atitude de solidariedade, respeito ao próximo e responsabilidade. E ficar em casa não é fácil, é bom deixar claro. A solidão é um enorme desafio diário.

 Outro dia, por exemplo, me dei conta de que ando conversando muito com minhas plantas. Há ocasiões que peço até desculpas por não cuidar melhor delas. Em dias que amanheço do avesso ou acordo num dia de cão, como se diz, recuso-me a executar tarefas das mais rotineiras. Faço muxoxo até da esteira – que trato como obrigação.

Também dei para debater, emitir opiniões e gritar com personagens de filmes, séries e até dos livros que leio. Continuo sem ver os noticiários da TV. Não suporto o assombro de indiferença dos que aparecem sempre na telinha, distribuindo insanidades. Nem me conformo com publicações piegas comovidas com a desgraça alheia – na Europa.

De onde concluo, não sem profunda dor, que estamos sozinhos nesta empreitada. Que estamos cada vez mais carentes de fraternidade e solidariedade, entregues à crueldade do mundo, como costuma dizer o filósofo francês Edgar Morin. A face cruel deste Brasil que hoje vemos é inacreditável. E inaceitável. 

 

Felpuda


Pré-candidatos que em outras eras cumpriram mandato e hoje sonham em voltar a ter uma cadeira para chamar de sua estão se esmerando em apresentar suas folhas de trabalho. O esforço é grande para mostrar os serviços prestados, mas estão se esquecendo que a cidade cresceu, os problemas aumentaram e aquilo que já foi tido como grande benefício hoje não passa da mais simples obrigação diante do progresso e das novas exigências legais. Assim sendo...