Numa produção cíclica, o que seria resto pode ser reutilizado como matéria-prima.O desenho circular desse modo de produzir toma forma nos canteiros da agricultora Zenir de Souza, de 72 anos, que mora nas proximidades de Rochedinho. São vários anéis de terra, com cenoura, chicória, beterraba, couve, espinafre, entre outras verduras e legumes – e tudo é cultivado sem uso de agrotóxico.
Zenir faz parte de um grupo de 353 agricultores familiares de Mato Grosso do Sul que produzem alimentos orgânicos através da técnica do projeto denominado Produção Agroecológica Integrada e Sustentável (Pais) desenvolvido em parceria pelo Sebrae, Fundação Banco do Brasil, Agraer e prefeituras municipais.O programa abrange comunidades de produtores de Sidrolândia, Terenos, Jaraguari, Bandeirantes e Três Lagoas e proporciona renda média entre R$ 1,5 mil e R$ 2 mil.
Por ser agroecológica, essa forma de produção usa como adubo matéria orgânica.O esterco é composto de excrementos de galinha e restos de folhas das verduras, segundo informa o engenheiro agrônomo Hélio Sussunu Kokehara, consultor do Sebrae.
Com o galinheiro ao centro e canteiros ao redor, a área de produção lembra uma mandala.
Kokehara explica que a forma cíclica é por questão de princípio da agroecologia, mas que também permite melhor aproveitamento da área. A irrigação é feita por gotejamento, com mangueiras perfuradas e colocadas dentro dos canteiros, ou seja, gasta-se menos água e luz.
Por meio de recursos do Banco do Brasil, os agricultores recebem, ao iniciarem a produção, um kit, com mudas de hortaliças, duas galinhas, um galo, telas e arames, de acordo com a gestora do projeto em Mato Grosso do Sul, Roberta Aparecida Marca. Os produtores também contam com orientações técnicas do Sebrae e da Agraer.
Outra característica do projeto é a cooperação. O transporte e comercialização dos alimentos, por exemplo, são realizados em conjunto. Com um caminhão comunitário, alguns produtores transportam os produtos dos agricultores da localidade para serem comercializados. Há, em Mato Grosso do Sul, dois caminhões – em Campo Grande e Sidrolândia.
Ritmo natural
No centro dessa produção, estão agricultores, como Zenir, que se adaptam ao ritmo da natureza para produzirem alimentos de modo sustentável. Com seus 72 anos, Zenir precisa contar com os braços do filho e da nora – apenas os três moram na propriedade. No entanto, ela não abre mão de cuidar da horta e de ajudar, como pode, na adubação, plantação e colheita. Além de hortaliças, ela produz algumas frutas, com destaque para a banana.
Mais próxima da natureza, Zenir dorme quando o sol se põe e acorda de madrugada, às vezes antes do galo cantar. “Quando vou tirar leite, levanto duas ou três horas. Nos outros dias, acordo por volta de cinco e meia, seis horas”, conta ela.
Zenir estima que a renda média possibilitada com a venda de seus produtos seja de R$ 1,8 mil. No campo, esse valor se torna mais considerável que na cidade. Outro retorno para Zenir, sua família e para quem dela compra é a saúde proporcionada pelo consumo de alimentos orgânicos.
“Produzir orgânicos é produzir saúde”, diz casal
“Produzir orgânico é produzir saúde”, define Antenir Rossetti, de 68 anos. Ela e o marido Luiz, 61 anos, estão ligados à terra durante quase toda a vida. Eles produzem em um assentamento em Campo Grande na saída para Três Lagoas e comercializam na Praça do Rádio, além de venderam para a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Luiz e Antenir, também conhecida como Tininha, produzem conforme a técnica do Pais (Produção Agroecológica Integrada e Sustentável). Produzir sem agredir a natureza e a saúde de quem consome os alimentos tem seus percalços. “A gente perde até 40% do tomate, que é o nosso carrochefe”, admite. “Mesmo assim, compensa”, pondera.
A compensação está no valor 30% maior dos alimentos orgânicos e na qualidade do produto. “Vale a pena, porque a gente comercializa saúde”, afirma ela. Além disso, a venda de parte dos produtos é assegurada pelo Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), do Governo Federal, com execução da Conab. Tininha calcula que, por mês, ela e o marido conseguem retorno médio de R$ 2,5 mil.
A jornada de trabalho do casal é determinada pelo “relógio” do sol. Eles se levantam antes das 5h para tirar leite, tomam café e vão cuidar da horta. Descansam para o almoço das 10h às 14h. “A gente trabalha até às quatro da tarde e, depois, descansa”, finaliza Tininha. Esse compasso rural acompanhou o casal durante quase toda a vida. “Só saímos do campo por causa dos filhos, pra eles estudarem na cidade. Depois que eles cresceram, nós voltamos”, conta Tininha. Os três filhos e os seis netos sempre estão por perto. Também muito próxima de Tininha e Luiz está a natureza – mais que próxima, ela habita dentro do casal.