Em Campo Grande, uma cidade onde os preços e as filas dos restaurantes não param de crescer, mas o salário nunca aumenta na mesma proporção, pagar um real ou menos por um salgado é como voltar no tempo.
Naquela época em que o cafezinho não custava três reais e o estacionamento era de graça, ninguém faria uma matéria de jornal sobre o preço do salgado. Hoje, com o preço da refeição fora de casa 49% maior que há três anos, isso é notícia.
Primeiro, foram as lanchonetes de bairro que baixaram os preços – e os tamanhos. Quem atravessa a principal avenida do Tiradentes pode parar cinco vezes para comer uma chipa por um real ou uma coxinha por setenta centavos. Há filas no café da manhã. Nada está incluso, nem o sachê de catchup, vendido a dez centavos.
A onda chegou ao centro de Campo Grande nos últimos meses. Na loja de Marcio Maciel, entre a Avenida Afonso Pena e a Rui Barbosa, salgados disputam espaço com sapatos e sandálias femininas. E ganham: nas próximas semanas, ele vai transformar o ponto em lanchonete definitivamente. “Se cada estudante que passar aqui na frente levar um salgado, eu tô burguês”, calcula.
Na Rua 14 de Julho, perto da Igreja Ortodoxa, duas funcionárias fritam rissoles e quibes todo o dia. Não raro, vendem 800 salgados até fechar. Tudo vem de uma fábrica caseira, no Amambaí, que fornece para outros pontos na cidade.
Ganhando na escala
Para manter o preço de custo de quarenta centavos, Marcio vira a noite na cozinha. A tia ensinou o básico a ele. A mãe e mulher são a equipe. “Se não for assim, é pedir pra ter prejuízo”,ensina.
Os microempresários dizem ganhar na escala. O salgado é um pouco maior que a palma de uma mão e leva pelo menos uma colher de recheio. Quem acha pequeno, pode comer vários.
A estratégia é a mesma da grande indústria, que diminui os tamanhos para atingir mercados emergentes, dispostos a pagar pouco. A Coca-Cola colocou no mercado brasileiro uma lata de 250 ml, 100 a menos que a original, de 350 ml, para vendê-la a R$ 0,99. O Habib’s é famoso pela esfiha que, se passar de um real, causa comoção.
Pelos mesmos motivos,a comerciante Angelina Lacerda passou a vender salgados por dois valores: o tradicional, a R$ 3, e a pechincha, pela metade do preço. “O pessoal dizia que não tinha dinheiro”, conta. Sua lanchonete, em frente ao Mercado Municipal, é abastecida por dois fornecedores.
O preço de custo dos salgados menores é R$ 0,80 nos bares e demais estabelecimentos.