Auxiliar de cozinha, Lucimar Lopes, mãe de três filhos menores, seguia até a loja de vestuário, ontem à tarde, em Campo Grande, para quitar despesa contraída ainda no ano passado. Zeliana Lopes, zeladora de hospital, também apressava o passo com a mesma intenção: pagar conta atrasada. As duas disseram que, para evitar o endividamento, iam recorrer ao cartão de crédito, uma das modalidades financeiras que mais castigam o consumidor pela imposição das altas taxas de juros.
Lucimar e Zeliana são apenas parte de uma legião de compradores que enfrentam, desde ontem, um dos piores meses do ano devido à pilha de contas a pagar, como Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU), Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores (IPVA), materiais escolares, seguro de carros, além das eternas contas de luz, água e telefone. Lucimar disse que, nas festas de fim de ano, ela, o marido e os três filhos “saíram, festaram, comeram pizzas”. Tirando as diversões de lado, agora é hora de quitar a conta. “Pagamos no cartão de crédito, como no ano passado, a diferença que notamos é que agora os valores vieram maiores”, queixou-se a auxiliar de cozinha.
Ela revelou que paga a conta da luz e água da casa da mãe e o marido, do lugar onde vivem com os filhos. “Moramos de aluguel, sempre cuidamos para não cometer exageros, e não fazemos isso, o problema é que a situação não é boa”, argumentou. Já o material escolar das crianças, por falta de recursos, ficou para depois. “Em fevereiro compramos”, completou Lucimar.
Zeliana Lopes contou que faz esforço para quitar as despesas sem que para isso recorra a empréstimos. Ela afirmou que, para não se endividar e cumprir com os compromissos, pede aos credores que “parcelem tudo”, do contrário, enfrentaria crise financeira já no início do ano. O mecânico Juarez de Matos Agnaldo, pai de dois filhos pequenos, dono de casa financiada, afirmou que janeiro sempre foi “um inferno” na vida dele. “Pelos meus cálculos, devo ter de juntar uns R$ 2 mil para pagar IPVA e IPTU, até tenho isso para pagar à vista, mas, se fizer isso, como pago o resto das contas?”.
Agnaldo acha que vai recorrer ao parcelamento dos impostos para garantir a conta do mercado e prazo para quitar outras dívidas. Henrique Veras, porteiro, disse que “em seu caso” as finanças seguem tranquilas. “É só se cuidar, não gastar mais do que ganha, é o segredo”, afirmou o trabalhador.
Para a economista Andreia Ferreira, supervisora regional do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socieconômicos (Dieese), o cenário econômico de 2015 não será dos mais fáceis por influências políticas. No entanto, ela acha que há entre os consumidores uma “gritaria e histeria” desnecessárias. “Nosso padrão de consumo melhorou e isso reflete-se em nosso custo de vida. Agora, as famílias compram celular, depois contectam-se à internet, e isso tem um preço”, afirmou a economista. Ela recomenda que o consumidor anote sempre ganhos e despesas.
Andreia critica ainda as informações sobre o rendimento do comércio, que, ano a ano, afirma ter terminado o ano com números ruins. “Mas você não vê nenhuma loja das Casas Bahia ou Magazine Luiza fechando”, interpretou.