Com a crise hídrica e o aumento de 52% na cobrança da bandeira vermelha patamar 2, muitos consumidores voltam a cogitar o investimento em energias renováveis. Uma das alternativas mais conhecidas é a energia solar, gerada pelas placas fotovoltaicas. Com a adoção dos painéis, a economia na conta de luz pode passar de 20%.
No dia 1º deste mês, passou a vigorar a mudança na cobrança extra da bandeira vermelha patamar 2, saindo de R$ 6,24 a cada 100 quilowatts-hora (kWh) para R$ 9,49.
A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) ainda deixou em aberto a possibilidade de novos aumentos para os próximos meses em decorrência do acionamento das termelétricas.
Os painéis fotovoltaicos são uma alternativa para quem já está pagando caro pelo serviço e quer escapar dos aumentos que ainda estão por vir.
Os custos podem ser financiados ou até mesmo parcelados pelas próprias empresas do setor, mas o que torna o custo mais atrativo é a possibilidade de dividi-lo com outras unidades consumidoras.
“Excelente momento para investir, mesmo com o boicote das concessionárias na aprovação dos projetos de energia solar”, avalia o presidente do Movimento Solar Livre (MSL), Hewerton Martins.
INVESTIMENTO
O engenheiro eletricista Rafael Ferreira de Jesus explica que existem vários sistemas disponíveis, cada um deles fornece uma quantidade específica de quilowatt-hora.
Para saber se realmente vale a pena, o Correio do Estado analisou uma conta real de energia de um morador de Campo Grande. No mês passado, ele gastou 295 kWh e pagou R$ 289,10 para a concessionária.
“Um sistema de energia solar que fornece 600 kWh hoje custa R$ 20,1 mil. Isso é o dobro do que o imóvel precisa, então a geração excedente vira crédito que pode ser abatido de outra residência”, diz Jesus.
O preço dos painéis e de todo o equipamento pode ser parcelado em até 120 vezes de R$ 362, conforme o engenheiro eletricista. Se duas unidades consumidoras farão uso, elas podem dividir esse custo, cabendo a cada uma R$ 181.
“Se ambas mantiverem o mesmo patamar de gastos, a concessionária cobrará apenas a tarifa básica e a taxa de iluminação pública, que em média custarão R$ 40. O valor pode ser mais caro dependendo do tipo de padrão utilizado no imóvel”.
Somando todos os valores, cada cliente pagará um total de R$ 221, uma economia de 23,5%. Mesmo se o padrão for bifásico, haverá redução na despesa. Nesse caso, diz o engenheiro, a concessionária cobraria R$ 70, o que resultaria em uma conta de R$ 251.
Embora a diferença nesse segundo caso em relação à conta original não seja tão grande, convém ressaltar que o cliente não terá de se preocupar cada vez que a Aneel autorizar reajuste de bandeiras, aumento nos valores cobrados pela concessionária ou qualquer custo adicional que na conta de luz comum impactaria o orçamento negativamente.
“Outro ponto é que os painéis solares têm garantia de 25 anos, e o parcelamento não dura para sempre. Então haverá um momento em que os clientes passarão a pagar apenas a tarifa básica”, explica Jesus. Nessas condições, utilizando o mesmo imóvel como exemplo, a redução seria de 75%.
FONTE RENOVÁVEL
O presidente-executivo da Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar), Rodrigo Sauaia, explica que a geração própria de energia solar em telhados e pequenos terrenos é, hoje, uma importante ferramenta para reduzir a demanda por eletricidade no País, sobretudo nos horários de pico, entre 11h e 18h.
“A tecnologia é estratégica no atual cenário de crise hídrica enfrentada pelo Brasil. O aumento do risco de racionamento levou ao acionamento de todas as termelétricas fósseis disponíveis no País, mais caras, poluentes e que têm elevado a conta de luz dos brasileiros com a bandeira vermelha", considera.
"Adicionalmente, o País ficou mais dependente dos países vizinhos, pois passou a importar energia elétrica não apenas do Paraguai, mas também da Argentina e do Uruguai, pagando caro pela energia gerada fora do território nacional”, completa.
Segundo a Absolar, a energia solar gerada pelos próprios consumidores, com 5,8 gigawatts (GW) de potência instalada, já representa um terço da capacidade de Itaipu.
“O setor solar fotovoltaico está pronto para ajudar na superação dos desafios trazidos pela atual crise hídrica, ainda mais dada a perspectiva de crescimento econômico do Brasil nos próximos anos. O País precisará de energia elétrica limpa e barata para se manter competitivo”, destaca o presidente do Conselho de Administração da Absolar, Ronaldo Koloszuk.
TAXAÇÃO
Vale frisar ainda que tramita no Congresso Nacional o Projeto de Lei (PL) nº 5.829/2019, que quer taxar a energia solar. Por enquanto, o texto está parado, mas quando entrar em vigor deverá valer apenas no caso de painéis instalados após a vigência.
Somente em Mato Grosso do Sul, conforme dados da Agência, existem 14.649 sistemas de energia solar instalados, homologados e funcionando.
Eles alimentam as residências onde estão situados e outras 19.380 unidades consumidoras pelo sistema de divisão exposto anteriormente nesta reportagem, totalizando 36.029 imóveis ou empresas gerando energia limpa e econômica.
No ano passado, o Estado teve 7,7 mil novas instalações, de acordo com Jesus, e em 2021, até o momento, 1,5 mil já foram instalados.
“Contabilizando tudo, fica sempre mais barato. O retorno varia muito de acordo com o quanto se investirá. Quanto maior a conta de luz do cliente, mais alto será o investimento, mas o sistema não tem nenhum tipo de manutenção e ainda pode ser dividido até com mais de uma unidade”, explica o engenheiro eletricista.
Segundo ele, os painéis podem ser instalados em qualquer lugar, e não necessariamente precisam ficar na casa do cliente.
Existem atualmente opções de “condomínios de energia solar”, localizados na periferia das cidades.