Mato Grosso do Sul registrou alguns pontos de paralisações pontuais de caminhoneiros entre quarta (8) e quinta-feira (9). Uma greve do setor fragiliza ainda mais a economia de todo o País. Conforme analistas ouvidos pela reportagem, o impacto econômico de uma greve do setor de transportes seria pior que o da própria pandemia.
De acordo com a economista Daniela Dias, além do impacto no desabastecimento e do consequente aumento dos combustíveis, uma nova greve também aumentaria a inflação de custos.
“Os produtos podem ficar mais caros, esse foi o reflexo da outra vez [greve em 2018]. Isso tem bastante potencial para acabar acontecendo justamente porque a gente percebe que a economia é movida por expectativas e, se depender da reação das pessoas", avalia.
"A gente pode ter um aumento da demanda pelo combustível e ter carência de alguns produtos essenciais. Isso acaba interferindo nos preços, que ainda estão bastante elevados em relação ao período pré-pandemia”, completou.
Ainda de acordo com a economista, a instabilidade político-econômica fragiliza o desenvolvimento do País. Por isso, qualquer mudança repentina desacelera o ritmo de retomada.
“O cenário já está bastante instável, então qualquer alteração dele pode deixá-lo ainda mais desestabilizado. Podemos ter também o câmbio que pode responder de forma negativa”, analisa Daniela.
O governador do Estado, Reinaldo Azambuja (PSDB), disse que o Brasil está indo para uma retomada de crescimento econômico e o transporte é importante.
“O próprio presidente se manifestou pedindo a sensibilização dessa categoria, que já teve muito das reivindicações atendidas. Aqui mesmo, quando teve aquela paralisação, nós atendemos várias reivindicações. O Estado hoje tem o menor ICMS [Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços] de diesel do Brasil, essa foi uma das reivindicações, e eu acho que é uma agenda que precisa ser discutida e voltar à normalidade”.
ARREFECIMENTO
Para o economista Normann Kalmus, o desempenho econômico pode ser afetado em caso de continuidade das paralisações.
“Se o movimento continuar, evidentemente teremos que enfrentar o desabastecimento e isso terá impactos sérios no desempenho econômico. O que vejo, no entanto, é que já arrefeceu a mobilização, que hoje [quinta-feira], segundo o Minfra [Ministério da Infraestrutura], está em 10% do que estava no dia anterior”.
Conforme informações da Polícia Rodoviária Federal (PRF), até o início da noite de ontem ainda havia pontos de bloqueio e concentração de caminhoneiros nas rodovias do Estado.
O doutor em Economia Michel Constantino ressalta que o efeito seria catastrófico, mas acredita que, como as paralisações têm se dispersado, os impactos devem ser amenizados.
“Sobre a greve dos caminhoneiros, se isso ocorrer, será muito ruim, pois o impacto na economia pode ser maior do que a própria pandemia. O que vemos hoje é que a paralisação não é greve, foi apenas uma manifestação pró-governo e está arrefecendo”, minimiza.
INFLAÇÃO
A pressão da inflação, que já vem em elevação, pode se intensificar. Em maio de 2018, os caminhoneiros de todo o Brasil fizeram greve de 10 dias. Na época, a pauta era o preço do óleo diesel. Agora, as paralisações são em apoio ao governo Bolsonaro.
O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) naquele período, em Campo Grande, saiu de 0,73% em abril para 1,02% em maio e 0,87% no mês de junho.
Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), neste ano a inflação já está em ascensão. Na Capital, passou de 0,66% em junho para 0,79% em julho e 0,89% em agosto.
“Nós tivemos diversas modalidades inflacionárias, uma delas é a inflação trazida pelo câmbio e que, diante de uma instabilidade política, está acentuando a instabilidade econômica no cenário interno e externo. A gente percebe que com essa paralisação podemos ter um agravamento nesse cenário da inflação de custos”, ressalta Daniela.
“E em decorrência da pandemia nós não voltamos ao nível de produção anterior, então a gente não normalizou a oferta, por isso a inflação em ascensão. A greve dos caminhoneiros pode acentuar esse cenário e impactar de uma forma mais significativa esse índice inflacionário", conclui a economista.
"E mexer mais com as expectativas das pessoas, tanto na parte de consumo quanto na parte de tomada de decisão dos empresários, como as relacionadas à empregabilidade”, completou.
Conforme os dados do IBGE, dos nove grupos de produtos e serviços pesquisados em Campo Grande, oito tiveram alta de preços em agosto. O maior impacto veio do grupo transportes (1,31%) e a segunda maior contribuição veio de alimentação e bebidas (0,90%). (Colaborou Naiara Camargo)