Economia

Agricultura

Safra de milho pode ter prejuízo de quase R$ 3 bilhões em MS

Mais de 643 mil hectares apresentam condições regulares ou ruins; clima e problemas fitossanitários ameaçam produtividade

A segunda safra 2025/2026 de milho em Mato Grosso do Sul já apresenta um potencial de perdas que pode chegar a R$ 3 bilhões, conforme levantamento realizado pelo Correio do Estado, com base nos dados do Boletim Casa Rural, elaborado pela Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso do Sul (Sistema Famasul) e a Associação dos Produtores de Soja de MS (Aprosoja-MS). O valor considera os 643,6 mil hectares classificados atualmente como regulares ou ruins, que podem não atingir o potencial produtivo estimado para a temporada.

De acordo com o boletim, divulgado nesta semana, 239.569 hectares das lavouras foram classificados como ruins e outros 404.044 hectares, como regulares.

Somadas, as áreas representam 29,2% dos 2,2 milhões de hectares cultivados com milho na segunda safra 2025/2026 no Estado.

A projeção de prejuízo leva em conta a produtividade média estadual estimada em 84,2 sacas por hectare e a cotação atual do milho em torno de R$ 50 por saca.

Nessa conta, os hectares considerados problemáticos representam um potencial produtivo de aproximadamente 54,2 milhões de sacas, o equivalente a R$ 2,71 bilhões em receita agrícola.

Caso parte significativa dessas áreas tenha perdas severas ou produtividade abaixo do esperado, o impacto econômico poderá se aproximar da marca de R$ 3 bilhões.

Apesar do cenário de preocupação, a maior parte da safra ainda apresenta boas condições. Conforme o levantamento, 70,8% das lavouras sul-mato-grossenses foram classificadas como boas, enquanto 18,3% estão em condição regular e 10,9% em situação considerada ruim.

O boletim detalha os fatores que justificam a classificação negativa de parte das áreas. Segundo o boletim técnico, uma lavoura é considerada ruim quando apresenta “alta infestação de pragas (plantas daninhas, pragas e doenças) ou falhas no estande de plantas, desfolhamento excessivo, enrolamento de folhas, amarelamento precoce das plantas, entre outros defeitos que causem perdas significativas de produtividade”.

Os problemas climáticos continuam sendo a principal ameaça para o ciclo. Em praticamente todas as regiões, os técnicos destacam o risco de estiagem e de ocorrência de geadas, justamente no momento de formação e enchimento dos grãos.

REGIÕES

A situação mais delicada é observada na região central do Estado, que engloba municípios como Sidrolândia, Rio Brilhante, Nova Alvorada do Sul e Campo Grande. Nessa região, apenas 57,9% das áreas são consideradas boas, enquanto 23,8% estão classificadas como ruins, o maior porcentual estadual. A região concentra mais de 97 mil hectares em situação crítica.

Outro ponto de atenção está na região sul-fronteira, formada por municípios como Amambai, Aral Moreira, Coronel Sapucaia, Paranhos, Tacuru e Sete Quedas. Ali, 17,7% das áreas foram enquadradas como ruins e 20% como regulares, indicando que mais de um terço da safra enfrenta algum grau de comprometimento produtivo.

Na região sul, onde estão importantes polos produtores, como Dourados, Caarapó e Itaporã, o porcentual de lavouras ruins é relativamente baixo, de 4,9%. Entretanto, chama atenção o fato de 31% das áreas estarem classificadas como regulares, o maior índice do Estado. Isso significa que parte relevante da produção ainda depende das condições climáticas das próximas semanas para confirmar o potencial produtivo esperado.

O agrônomo e consultor Ricardo Rigon afirma que o comportamento irregular das chuvas já comprometeu parte das áreas cultivadas, principalmente na região sul do Estado.

“Sem notícias de prejuízo em relação a essa primeira frente fria [do fim de semana]. A maioria está com boas perspectivas de produtividade, mas teve áreas com estiagem que prejudicaram o desenvolvimento do milho, comprometendo a produtividade”, explica.

Segundo ele, houve forte diferença produtiva até dentro das mesmas propriedades rurais. “Na região de Dourados e Rio Brilhante, cerca de 70% das áreas devem produzir em torno de 100 sacas por hectare ou mais. Já os outros 30% podem ficar entre 30 e 50 sacas por hectare, porque dentro de uma mesma propriedade teve muita variação de chuva”, relata.

Conforme o documento técnico, a queda de granizo também impactou uma parte das lavouras. 
“Na terceira semana de maio, os municípios de Deodápolis, Fátima do Sul, Glória de Dourados, Itaporã, Ivinhema e Dourados foram atingidos por granizo, provocando danos significativos nas lavouras e afetando cerca de 2.850 hectares até o momento. Apesar da intensidade do evento, os prejuízos ocorreram de forma localizada. A Aprosoja-MS segue monitorando as áreas atingidas e avaliando os impactos decorrentes desse evento climático”.

REDUÇÃO

O boletim também destaca que a segunda safra de milho deverá ocupar 2,206 milhões de hectares em Mato Grosso do Sul, com produtividade média projetada em 84,2 sacas por hectare. A produção estimada é de 11,139 milhões de toneladas.

Ainda assim, os números representam uma redução da participação do milho sobre a área de soja em relação a anos anteriores, reflexo dos riscos climáticos e da busca dos produtores por alternativas como sorgo, milheto e pastagens em áreas consideradas menos favoráveis ao cultivo.

Além da estiagem e das geadas, os técnicos identificaram problemas fitossanitários em diferentes regiões produtoras.

Entre as principais ameaças estão cigarrinha-do-milho, lagarta-do-cartucho, pulgões, percevejos, cercosporiose, ferrugem-polissora e manchas foliares, fatores que podem reduzir ainda mais o potencial produtivo.

Outro possível empecilho é a incidência do El Niño. De acordo com os modelos climáticos, há cerca de 61% de probabilidade de formação do fenômeno no trimestre que se encerra em julho.

Para os técnicos do setor, a combinação de calor acima da média, irregularidade hídrica e avanço tardio do plantio aumenta os riscos para a produtividade.

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