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IPCA

Campo Grande registra a maior inflação para o mês de novembro desde 2015

Custo de vida do morador da Capital sobe mais do que a média nacional; em novembro, a taxa foi de 0,87%, no ano chega a 5,26% e é a maior do País
09/12/2020 08:30 - Súzan Benites


O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de Campo Grande teve uma leve queda em relação ao mês anterior, passando de 0,91% em outubro para 0,87% em novembro.

 Ainda que tenha registrado leve queda, este foi o maior índice inflacionário registrado para 11° mês do ano desde 2015. É o sexto mês consecutivo de inflação, reflexo dos aumentos nos preços de alimentos, bebidas e transportes.

No comparativo com a média nacional, o índice da Capital é quase o dobro da taxa do País, quando considerados os 11 meses do ano e o intervalo interanual. 

No acumulado de janeiro a novembro, o índice chega a 5,26% em Campo Grande, enquanto a média nacional é de 3,13%.  

Quando analisado o intervalo de 12 meses, a média do País é de 4,31% e a da Capital vai a 6,65%. Tanto no acumulado do ano quanto no intervalo de 12 meses, a inflação sul-mato-grossense é a maior do Brasil.  

Para o doutor em Economia Mateus Boldrine Abrita, o custo de vida está subindo mais no Estado do que a média nacional. 

“Não necessariamente que o custo de vida é maior do que a média nacional, mas, sim, que ele tem encarecido mais do que a média nacional. Com essa incerteza generalizada, é difícil que os preços caiam até o fim do ano”, considera.

Segundo o economista Marcio Coutinho, a inflação nada mais é do que uma análise do mercado, quando os preços de produtos e serviços aumentam, o índice inflaciona. “Consequentemente, analisando esses dados, nosso custo de vida tem aumentado mais do que a média nacional. Os economistas, de uma maneira geral, acreditam que a inflação fique próximo desses 4% no ano de 2020”.

Produtos

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que mede o IPCA, apontam que dos nove grupos de produtos e serviços pesquisados cinco tiveram alta em novembro. 

A maior variação (2,74%) no índice do mês veio do grupo alimentação e bebidas, que acelerou em relação a outubro (1,82%). O segundo maior impacto e a variação vieram dos transportes (1,12%).  

Ainda entre as altas estão os grupos vestuário (1,41%), despesas pessoais (0,48%) e saúde e cuidados pessoais (0,27%). 

Entre as quedas, a maior foi registrada no grupo artigos de residência (-0,56%), seguida do grupo habitação (-0,45), comunicação (-0,03%) e educação (-0,02%).

Os itens que mais impactaram para a alta do índice no mês passado foram a batata-inglesa (40,36%), o óleo de soja (11,40%), a cebola (11,31%), o arroz (6,48%), o tomate (5,67%) e as carnes (4,92%).

No acumulado do ano, a inflação do índice foi puxada pelo grupo alimentação e bebidas, que registra 13,66% de aumento. A maior alta foi registrada no preço do arroz, que aumentou 69,10% no ano. 

Ainda entre os alimentos, a batata-inglesa subiu 61,12%; o óleo de soja subiu 52,99%; o tomate, 40,97%; a cebola, 21,52%; e as carnes, 21,36%.

“Maio foi o último mês em que tivemos deflação. Desde junho temos variações positivas. O que tem influenciado mais nos últimos meses é a alta dos alimentos, que pode ser explicada por dois fatores: por um lado, há o aumento da demanda, sustentada pelos auxílios concedidos pelo governo, e, por outro, a restrição de ofertas no mercado doméstico em um contexto de câmbio mais alto, que estimula as exportações”, explica o gerente da pesquisa, Pedro Kislanov.

Pressão

Conforme divulgado pelas agências de notícias, os preços de insumos que servem de base para a cadeia produtiva brasileira registram a maior alta desde o início do Plano Real. 

Levantamento feito pelo economista André Braz, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre FGV), aponta que o preço das matérias-primas brutas, como soja, milho, carnes e minério de ferro, acumula alta de 68% nos 12 meses encerrados em outubro, aumento inédito desde o fim do período de hiperinflação.

O economista Marcio Coutinho explica que a pressão sobre os preços acontece em decorrência do aumento da demanda.

 “Essa pressão em cima dos preços é uma questão bastante simples, a demanda está sendo maior do que a oferta. Quando você tem mais produtos sendo demandados e você tem menos produtos, a tendência é de que esses preços aumentem. Tem o fator da desvalorização da moeda também, de repente em função do câmbio é mais atrativo para o produtor vender ao mercado externo. Se ele vende para o exterior, significa que vai faltar para o mercado interno. E com isso a tendência dos preços é subir”, analisa.  

A depreciação do real também gerou preços inflacionados em todo o território nacional. 

“A pandemia afetou diversas moedas, mas o real foi uma das que mais perdeu no mundo. Alguns dados de outubro mostravam que o real foi a moeda que mais perdeu no mundo em 2020. Esse fenômeno de o câmbio impactar os preços domésticos chama-se efeito pass-through cambial, ou seja, é uma espécie de repasse dos efeitos cambiais para o índice de preços”, diz Abrita, que ainda frisa que a falta de insumos também afeta os preços ao consumidor final.

“Certamente, neste cenário desafiador que atravessamos ficamos sempre naquela situação de cobertor curto, ou seja, cobre de um lado e descobre de outro. Então, tudo acaba atrapalhando nesse sentido. Embora uns mais e outros menos, todos acabam afetando de algum modo”, destaca o economista.

Hiperinflação

O ministro da Economia, Paulo Guedes, afirmou no mês passado que o Brasil pode “ir para uma hiperinflação muito rápido” se não rolar a dívida satisfatoriamente. 

Guedes se disse frustrado por não ter conseguido ainda privatizar nenhuma empresa estatal, como prometido na campanha do presidente Jair Bolsonaro, e defendeu desinvestimentos para reduzir o endividamento público.

Para os economistas ouvidos pelo Correio do Estado, é muito improvável que o País chegue a esse estado. 

A hiperinflação é um conceito econômico derivado da inflação, que nada mais é do que uma alta generalizada dos preços de modo geral.

“Olha, só se ele mesmo [Guedes] ou outras autoridades realizarem uma infinidade de bobagens para que isso ocorra. Mesmo o nosso País estando com uma gestão econômica muito questionável, é bastante remota essa possibilidade”, concluiu Mateus Abrita.  

Coutinho acredita que o governo federal está cuidando para que isso não aconteça.

 “Já tivemos a hiperinflação, mas vejo que o governo está atento para que isso não volte. Porque se voltar, significa que as coisas estão fora do controle e para consertar vai ser complexo. Acredito que o governo fará de tudo para conter essa hiperinflação”, complementa o economista.