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BRASIL

País tem 2ª maior alta nos preços de atacado do planeta, economistas temem inflação

Dólar alto, e maior demanda interna e externa, já pressionam setor varejista brasileiro
26/11/2020 16:01 - Estadão Conteúdo


O Brasil teve a segunda maior variação de preços no atacado do mundo, ficando atrás somente da Argentina. A constatação é resultado de estudo da economista-chefe da gestora de investimentos Armor Capital, Andrea Damico.  

O estudo teve como base os índices de preços ao produtor (PPI, na sigla em inglês) de 82 países. O resultado preocupa economistas, que temem alta na inflação quando estes índices chegarem ao consumidor. Os varejistas já estão pressionados.  

Especificamente no caso brasileiro, foi considerado o Índice de Preços ao Produtor Amplo (IPA), que está dentro do IGP-DI, índice aferido pela Fundação Getúlio Vargas.  

No acumulado de 12 meses até setembro (que é o dado que consta no estudo), o aumento de preços chega a 26,03%. Mas a FGV já publicou o resultado de outubro, elevando o acumulado a 31,05% - não muito distante do resultado da Argentina (39,2%).

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Real desvalorizado

Os índices de preços no atacado captam basicamente o custo dos processos de produção - como os preços das matérias-primas e de produtos intermediários usados pelas indústrias, por exemplo.  

Esses custos têm subido por vários motivos, sendo um dos principais a desvalorização do real, que torna mais caros os insumos importados.

Por conta das atuais condições da economia brasileira, principalmente o desemprego em alta, tem sido difícil repassar a totalidade desse aumento de custos aos consumidores.  

Daí a diferença entre os indicadores: enquanto o IGP-DI acumula mais de 30% em 12 meses, o IPCA (índice oficial de inflação do País) está em 3,92%. A preocupação dos analistas é por quanto tempo será possível segurar esse repasse do atacado para o varejo, se as condições econômicas se mantiverem deterioradas por muito tempo.

 

Diferentes números

Em seu levantamento, com dados compilados pela plataforma CEIC, ligada ao grupo ISI Emerging Markets, Andrea só comparou os países que tinham dados para os meses de setembro ou outubro. Isso porque, a depender do local, esse indicador é informado com defasagem. Na União Europeia, por exemplo, o último número disponível é o de setembro. A Venezuela é, disparado, o país com maior alta de preços (258%) - mas o dado disponível é de janeiro

“A maioria dos emergentes está oscilando entre zero e 5% de PPI. Não existe paralelo do nosso choque de preços do atacado no mundo emergente razoável, retirando Venezuela e Argentina”, disse a economista.

 

Choque duplo

Andrea afirma que o Brasil vive hoje um choque duplo na inflação, de câmbio e de commodities, pois o aumento desses produtos no mercado internacional não se traduziu, como ocorre historicamente, em valorização do real - sobretudo por conta das preocupações fiscais no Brasil. O choque é quase triplo quando se considera também o aumento das exportações para a China neste ano.

Ainda há alta da demanda por causa do auxílio emergencial e, principalmente, na visão da economista, da poupança circunstancial de famílias de classe média, que deixaram de consumir serviços durante o período de isolamento social. “Tenho muita preocupação com a inflação. O choque ainda não acabou.”

 

Preocupação no mercado

Ela não está sozinha. Sem folga no aumento de preços no atacado, a preocupação com a inflação de 2021 é crescente no mercado financeiro, contrastando com o discurso do Banco Central de que o choque parece temporário. “Não há o menor sinal de desaceleração do IPA agrícola, os repasses para o consumidor só devem diminuir dois a três meses depois do início do alívio dos preços ao produtor”, destaca o economista Alexandre Lohmann, da GO Associados, que já projeta IPCA de 3,80% em 2021 e reconhece viés de alta.

Outro ponto que vem ganhando atenção do mercado é o reajuste dos preços administrados, represados ou contidos este ano por causa da pandemia de coronavírus. JPMorgan e Barclays destacaram em relatórios essa dinâmica de preços administrados em suas revisões do IPCA para 3,60% no ano que vem.

Na visão do economista para Brasil do Barclays, Roberto Secemski, haverá uma troca de componentes na inflação no ano que vem, com os alimentos e os comercializáveis cedendo - com a queda da demanda causada pelo fim do auxílio emergencial limitando espaço para repasses - mas avanço de administrados (de 0,70%, em 2020, para 5,40% em 2021) e serviços (de 1,80% para 2,90%).

 
 

Presidente do BC diz que inflação alta "é passageira"

 

Nesta quinta-feira (26), o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, voltou a considerar que a alta recente de preços que tem elevado a inflação nos últimos meses é um movimento temporário, que tende a se normalizar. “O BC está sempre prestando atenção em tudo que está acontecendo. Nossa opinião é de que os componentes que estão gerando essa inflação mais alta são passageiros”, afirmou, em entrevista ao canal MyNews.

Campos Neto destacou que parte da inflação de curto prazo vem do efeito do câmbio misturado com a alta nos preços das commodities “O preço das commodities subiu e a moeda do Brasil e de outros emergentes desvalorizou. Também há um efeito substituição pela alimentação no domicílio. Além disso, o próprio auxílio emergencial elevou o consumo de itens cujos preços subiram mais rapidamente”, detalhou.

Para Campos Neto, esses três componentes devem deixar de pressionar os preços. “O câmbio já está nesse nível há algum tempo e esse efeito (na inflação) tende a se estabilizar. Com a reabertura da economia, o consumo de serviços deve aumentar, reduzindo o efeito substituição. E a parte do auxílio emergencial tende a amenizar com a redução das transferências de renda”, projetou.

Campos Neto destacou que o horizonte relevante da política monetária tem um prazo mais largo, de olho no fim de 2021 e em 2022. Por isso, ele destacou que a instituição busca entender quais fatores da inflação atual podem gerar impacto na inflação futura. “O BC não olha a inflação no dia a dia, porque as medidas que tomamos demoram a fazer efeito. O BC está atento e tem um horizonte um pouco mais longo do que olhar a inflação de hoje. Estamos sempre tentando entender quais são os componentes da inflação que podem gerar uma inércia inflacionária para frente”, completou.

O presidente do BC destacou que também havia críticas no começo da pandemia de covid-19, quando os índices de inflação estavam muito abaixo do piso da meta para este ano. Ele ressaltou, no entanto, que já era esperado um aumento nos preços quando o auxílio emergencial e outras medidas do governo impactassem a economia.

 

Risco fiscal

Campos Neto repetiu também que o quadro fiscal brasileiro é hoje o principal componente de risco para o mercado. “A dinâmica do mercado é reflexo do risco, e nosso risco hoje é fiscal. Tudo é reflexo do fiscal”, afirmou. “Temos alertado governo e entendemos ser importante importância de endereçar essa dinâmica fiscal” completou.

O presidente do BC reforçou que dúvidas sobre a trajetória fiscal do País podem impactar as projeções para a inflação nos próximos anos. “A gente já teve isso no Brasil. Quando você entende que o fiscal está descontrolado e que a saída do fiscal lá na frente é um processo inflacionário, o câmbio desvaloriza, a curva de juros fica muito inclinada, a inflação implícita de prazo longo sobe, contamina o meio da curva e eventualmente contamina o início da curva”, comentou.

Ele explicou que o elevado endividamento do governo para bancar as despesas no enfrentamento à pandemia de covid-19 forçou uma mudança estrutural no financiamento do Tesouro Nacional. “Sempre dissemos que um gasto tão grande na pandemia iria pressionar a rolagem da dívida. Isso sempre foi dito pelo BC e está acontecendo. O Tesouro está reagindo e temos conversado bastante”, acrescentou.

O presidente do BC lembrou que em crises, como a atual, o mercado tem menos apetite a risco, o que força a uma mudança na estratégia de emissões de títulos pelo Tesouro. “Um dos efeitos colaterais da dívida crescer tanto em um ano é que o financiamento desse excesso se dá por meio de uma mudança na estrutura da dívida. Você acaba encurtando a dívida e fazendo mais pós-fixado que pré-fixado”, explicou.

 

Microcrédito

Campos Neto destacou que a agenda de competitividade da autoridade monetária continua para 2021. “Temos o objetivo de melhorar o microcrédito, aumentar o cooperativismo, ter mais fintechs. A concentração bancária já vinha caindo antes da pandemia e precisamos voltar à normalidade em termos de intermediação financeira”, afirmou.

Entre as iniciativas citadas por ele para o próximo ano estão o avanço do Open Banking, a consolidação do PIX e criação novas funcionalidades para a plataforma de pagamentos instantâneos. “Queremos avançar também no processo de conversibilidade da moeda, avançar na moeda digital e vamos começar a olhar como esses projetos de tecnologia vão desembocar lá na frente em um sistema mais competitivo”, completou.