Economia
12ª ALTA

Selic vai a 13,75%, a maior taxa em sete anos

Desde março de 2021 a elevação chega a 11,75%, choque de juros mais intenso desde 1999, quando o índice foi elevado em 20%

Rodrigo Almeida, Súzan Benites

04/08/2022 08:30

Pela 12ª vez consecutiva, a taxa básica de juros, a Selic, foi elevada pelo Comitê Nacional de Política Monetária (Copom). Com aumento de 0,50 ponto porcentual, o juro básico foi a 13,75% ao ano. O juro se iguala à taxa praticada de novembro de 2016 a janeiro de 2017, conforme os dados do Banco Central (BC).

A Selic subiu 11,75 pontos porcentuais desde a mínima histórica de 2,0% – que vigorou até março de 2021. Esse é o maior choque de juros desde 1999, quando o banco elevou os juros em 20 pontos de uma só vez. Em comunicado, o Copom sinalizou para uma nova alta de 0,25 p. p. em setembro.  

O indicador é utilizado como parâmetro para a manutenção das principais regras de financiamento do País. A elevação segue a tendência anunciada pelo BC no fim de 2021, quando o presidente Roberto Campos Neto disse que a alta seria intensificada após as medidas do governo federal de injetar dinheiro na economia para evitar uma recessão ainda mais forte.  

O principal objetivo com os aumentos é deixar o crédito mais caro ao consumidor, para reduzir o consumo e frear a escalada da inflação.

Segundo o doutor em Economia Michel Constantino, era esperado que esta fosse a última alta do ano.

“É importante destacar que na próxima reunião, em 21 de setembro, esse diagnóstico será mais preciso, pois teremos o real efeito nos preços por redução de impostos e aumento de auxílios”.  

A inflação já deu uma arrefecida em junho, e o movimento deve ser o mesmo em julho – o indicador do mês passado ainda não foi divulgado. Mas o principal motivo para a queda foi a redução de impostos, que acabou diminuindo preços de combustíveis e energia elétrica.  

“Com os produtos mais baratos, consequentemente temos uma queda da inflação. É um conjunto de fatores que ajudam nessa deflação. Mas, por outro lado, possivelmente aumentará o rombo nas contas do governo”, avalia o economista Marcio Coutinho.  

“E para o governo segurar esse rombo, como é que ele capta dinheiro? Aumentando os juros. Uma conta fecha a outra, a inflação diminui e a dívida aumenta”, completa.

Conforme o assessor de Investimento da Safra Investimentos, Eliseu Nantes, a única certeza é de que o ciclo de aumentos está no fim. Para ele, a situação que o Brasil atravessa é muito parecida com a dos Estados Unidos, também na fase final de elevação dos juros.

Para 2023, o especialista prevê uma retração da taxa.  

“A ideia é que no ano que vem, de fato, a gente tenha um recuo na Selic. Tudo vai depender do comportamento da inflação”.  

De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), a inflação oficial de Campo Grande foi medida a 0,64% em junho, contra 0,67% da nacional. No acumulado dos 12 meses, o Brasil está com inflação de 11,89% e Campo Grande mede 12,06%.  

“É fato que essa repercussão na inflação vem em quatro ou cinco meses. Então, o governo está enxergando lá na frente. Quando ele altera a taxa de juros, ele está sempre vendo o futuro, apostando na queda da inflação. Com certeza vai frear a inflação”, reforça Coutinho.

DEFLAÇÃO

Segundo o Boletim Focus do fim de julho, a expectativa para a inflação é de queda. Um mês antes, o material previa IPCA em 7,96% em 2023. Atualmente, essa métrica caiu para 7,15%.  

No caso da taxa Selic, as perspectivas foram mantidas em 13,75%. Para 2023, a expectativa é de terminar o ano em 11%; em 2024, em 8%; e para 2025, 7,5%.  

Já a inflação deve convergir para o centro da meta em 2023 e atingir 5,33%. Para 2024 e 2025, a expectativa é de 3,3% e 3%, respectivamente. Essa redução nos indicadores de inflação esperados pelo boletim são resultados de uma política monetária anticonsumo.  

Constantino comenta que a alta da Selic já está surtindo efeito na inflação, em conjunto com a redução de impostos.  

“Porém, o indicador de intenção de consumo está aumentando com a melhora do mercado de trabalho, e tudo isso será levado em conta para avaliar a Selic”.

Já o mestre em Economia Eugênio Pavão comenta que esse efeito é sentido em diversas economias pelo mundo. “A alta de taxas de juros faz com que, em um movimento recessivo, a economia freie e a inflação caia. A velocidade dessa queda pode ser abrupta ou gradual, conforme o setor privado responde, reduzindo investimentos, contratações, etc.”, explica.  

Ele classifica ainda que a queda gradual se dá com a alta progressiva e lenta dos juros, a tática usada pelo BC nesta série. A queda abrupta se dá com altas expressivas de juros, movimento também notado por alguns especialistas que consideram os patamares de juros muito elevados.  

No entanto, alas do mercado consideram que o efeito da alta da Selic foi mitigado pelos benefícios e corte de impostos dados pelo governo federal, esfriando a força com que a inflação desacelera.  

Como Eliseu Nantes revelou ao Correio do Estado, essas alas consideram que ainda haverá altas um pouco menos expressivas nas próximas reuniões. Alguns analistas, segundo ele, trabalham com a Selic em 14% até o fim do ano.