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TRAFICANTE

Minotauro comprou ex-vice-ministro do Paraguai, diz Ministério Público Federal

Base da ação é o pagamento a Hugo Volpe, que comandava a pasta de Política Criminal, e ao chefe do combate ao tráfico na cidade de Pedro Juan Caballero
31/07/2020 17:17 - Marcos Pierry


Sérgio de Arruda Quintiliano Neto, o Minotauro, tornou-se alvo de mais uma denúncia do Ministério Público Federal em Ponta Porã (MS). Maria Alciris Cabral Jara, a Maritê, advogada e esposa do acusado também foi denunciada. 

A Ação se baseia em inquérito policial que comprova o pagamento de propina a dois integrantes do Ministério Público paraguaio visando o arquivamento de investigações relacionadas a Minotauro.

Um deles é o vice-ministro de Política Criminal, Hugo Volpe, que coordenava o grupo de investigações e denúncias de tráfico de drogas em âmbito nacional no Paraguai. O outro, Armando Cantero, era o responsável pelo combate ao tráfico na região de Pedro Juan Caballero, cidade que faz fronteira com o município sul-mato-grossense de Ponta Porã (MS). 

Ambos eram agentes fiscais do Ministério Público paraguaio, cargo equivalente ao de promotor de justiça no Brasil. Cada um dos agentes públicos recebeu uma caneta da marca Mont Blanc, avaliada em US$ 900 dólares. Cantero recebeu ainda a quantia de US$ 10 mil dólares em dinheiro.

Inquérito policial comprovou que, imediatamente após o recebimento do “presente”, em 18 de julho de 2019, Hugo Volpe arquivou uma investigação contra Minotauro que apurava uso de documentação falsa no Paraguai. A utilização de documentos falsos, com os nomes de Celso Matos Espíndola ou Mário César Medina, possibilitava que Minotauro administrasse seus “negócios” tranquilamente no país vizinho, apesar das condenações judiciais e mandados de prisão que acumulava no Brasil.

A identidade falsa em nome de Celso Matos Espíndola foi descoberta no início de 2018 pela polícia civil de Ponta Porã com auxílio de policiais paraguaios. O policial que liderava a investigação foi executado no dia 6 de março de 2018 e, a partir daí, Minotauro passou a adotar a identidade de Mário César Medina. A partir daí, os denunciados empenharam-se em arquivar procedimento aberto no MP do Paraguai para apurar essa nova identidade falsa, chegando à entrega de vantagens indevidas aos membros do Ministério Público.

O fiscal Hugo Volpe chegou a ser nomeado vice-ministro de Política Criminal em novembro de 2019, cargo que ocupou até janeiro de 2020, quando renunciou após a fuga de 76 presos da penitenciária de Pedro Juan Caballero. Como coordenador da Unidade Especializada na Luta Contra o Tráfico de Drogas no Paraguai, esteve à frente das maiores operações do país nos últimos anos. 

Além disso, Volpe coordenou a parcela paraguaia da equipe conjunta criada especificamente para tratar do caso “Minotauro”, resultante de acordo firmado entre Brasil e o país vizinho. Por ironia, quando houve a celebração do referido acordo binacional, em 23 de agosto de 2019, fazia pouco mais de um mês que Hugo Volpe tinha arquivado uma das investigações contra Minotauro, em 18 de julho.

 
 

Entenda o caso  

A quebra do sigilo telefônico dos envolvidos comprovou que a relação escusa estabelecida entre a organização criminosa e os integrantes do Ministério Público no país vizinho se deu por intermédio do advogado paraguaio Edson Francisco Sanchez Benitez. Era com ele que Maritê combinava os detalhes das tratativas a serem feitas e da consequente entrega de “presentes” aos agentes públicos. Foi Edson quem fez o contato inicial com o fiscal Armando Cantero, então ocupante do cargo que antes tinha à frente Hugo Volpe. Armando passou o contato de Volpe para o advogado e, a partir daí, bastaram poucas conversas para o agendamento da reunião que culminou com a entrega da caneta Mont Blanc a Volpe e o consequente arquivamento de uma das investigações contra Minotauro.

Eram frequentes as ligações e trocas de mensagens entre Edson e Maritê e também entre Edson e os integrantes do MP. Foi assim que o advogado escolheu, com orientação de Maritê, o modelo das canetas que seriam entregues aos fiscais e que, posteriormente, ele informaria à colega de profissão o sucesso da empreitada, com o arquivamento das investigações. As mesmas investigações resultaram em outra denúncia contra Minotauro e Maritê por corrupção ativa, com foco no oferecimento de propina a policiais paraguaios. As denúncias foram separadas a fim de garantir celeridade aos processos.

Extensa ficha criminal – Minotauro e Maritê integram associação criminosa especializada no tráfico internacional de drogas e corrupção ativa de funcionários públicos. A principal atividade da organização era a comercialização de cocaína proveniente da Bolívia. A logística consistia em buscar a droga na Bolívia em aviões, descarregar em uma fazenda na região de Pedro Juan Caballero e, dali, distribuir para os mais diversos destinos nacionais e internacionais.

A Minotauro, cabia fomentar a produção e negociar a comercialização da droga em larga escala, além de comandar as relações da organização criminosa, seja através de violência e ameaças ou da “diplomacia”. Já Maritê, pessoa de confiança de Minotauro, era a gestora financeira da organização, responsável pela contabilidade, que incluía pagamentos mensais a policiais paraguaios, além da organização dos voos com carregamentos de drogas e da administração dos bens móveis e imóveis do grupo criminoso.

Minotauro encontra-se preso na Penitenciária Federal de Brasília desde fevereiro de 2019. Já Maritê encontra-se presa preventivamente na Penitenciária Feminina de Sant’Ana, em São Paulo.

 

Felpuda


Figurinha carimbada ganhou o apelido de “biruta”, instrumento que indica direção do vento e, por isso, muda constantemente. Dizem que a boa vontade até existente ficou no passado, e as reclamações são muitas, mas muitas mesmo, diante das decisões que vem tomando a cada mudança de humor do eleitorado. Como bem escreveu o poetinha Vinicius de Moraes: “Se foi pra desfazer, por que é que fez?”.