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ENTREVISTA

“Facilitar a vida do usuário é a melhor forma de melhorar o transporte”

Prestes a iniciar seu segundo mandato como prefeito de Campo Grande, Marcos Trad falou sobre os desafios da gestão que se encerra e dos próximos quatro anos
31/12/2020 08:00 - Eduardo Miranda


Reeleito para mais quatro anos de mandato, Marcos Trad (PSD) começa 2021 com desafios do mandato anterior, e nada fáceis. O primeiro é atuar na gestão da pandemia da Covid-19, que reserva surpresas diárias aos que estão no Poder Executivo e em toda população. 

O segundo é resolver o grande problema do fim da década em Campo Grande: o transporte coletivo. Para o prefeito, a solução está nos corredores do ônibus, que já estão sendo implantados e serão efetivados a partir do próximo ano.  

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Para quem ainda torce o nariz para os pontos de ônibus colocados no meio de vias importantes, como Bandeirantes, Brilhante e Bahia, Marcos Trad avisa: “O transporte chama-se coletivo, e se é coletivo é para todos. Não é um transporte individual, não é um transporte privado que beneficia uma pessoa somente”.

CORREIO DO ESTADO: Qual o balanço que faz sobre seus primeiros quatro anos? 

Marcos Trad: Eu sempre busquei fazer as letras dos meus jingles já com um prenúncio da minha ação, no poder Legislativo ou no Executivo. 

Quando nós fizemos o jingle de 2016, ele tinha o refrão: “Levanta, Campo Grande, está na hora de trabalhar, colocar a cidade em ordem, porque aqui é o nosso lar”. O que eu estava dizendo em 2016 é que estava na hora de parar de reclamar dos outros e de jogar a culpa nos outros e trabalhar pela cidade.  

Tínhamos de colocar a casa em ordem, porque ela estava bagunçada, estava desarrumada. Não havia harmonia entre os poderes, não tinha diálogo entre as instituições. 

Era um Poder Executivo, frequentemente, com CPFs diferentes, era um Legislativo “antipatizado” com a cidade. Era um presidente da Câmara proibido de voltar à própria Câmara, e isso gerou instabilidade. Não apenas administrativa e política, mas também social.

E o que você destacaria deste primeiro mandato, depois de ter colocado a casa em ordem? 

Na transição, eu achei extremamente necessário a criação da Controladoria-Geral, e o controlador não pode ser submisso ao prefeito, embora ele seja indicado pelo prefeito. 

Ele tem de guardar uma certa independência dos princípios legais. A partir desse momento, com o Executivo tendo o controle externo da Controladoria-Geral, da Câmara Municipal, do Tribunal de Contas, do Ministério Público e da própria sociedade, também tínhamos internamente esse controle, que nada mais é do que um órgão que vai ajudar a cidade a errar menos e evitar que o próprio prefeito erre futuramente.

E sobre este segundo mandato, teria como antecipar uma característica? 

O País só vai mesmo decolar depois que a gente começar a ter a vacinação. Enquanto não se desenvolver uma segurança à saúde pública da população, o Brasil vai ficar com receio, vai ficar inseguro. 

É por isso que nós já enviamos ao Instituto Butantan a proposta de compra dessa vacina, e já estamos com um calendário, com um planejamento de vacinação no município de Campo Grande.

Eu já posso lhe dizer que, no Plano Nacional de Imunização, nós já enviamos a eles a aquisição de 125.736 doses já em janeiro, outras 170.345 em fevereiro e 121.736 em março.

Os pedidos foram feitos somente para o Instituto Butantan? 

Por enquanto, só o que está tendo é do Butantan. Cada País está se virando. Como o nosso presidente aqui não foi atrás, quem foi atrás foi só o governador de São Paulo (João Dória), eu estou indo atrás de quem tem. E aí dizem: ah, mas lá é 60% de eficácia... 70%... Olha, dizem que se passou dos 50% de eficácia – é a ciência – já é válido.

E para depois ou durante a vacinação? 

Fora isso daí, nós já estamos com recursos garantidos e projetos aprovados. Já está pronto. Nós vamos pavimentar 106 quilômetros da nossa cidade, em 13 bairros diferentes, já para 2021. 

E não é apenas a rua. É esgotamento sanitário, calçada, sinalização, pavimentação. Aonde estão essas obras? Vamos lá, vou citar os bairros: Nova Campo Grande, Nova Lima (etapas C e D), Santa Luzia (etapa B), Ramez Tebet, Rita Vieira, Parque Dallas, Parque dos Girassóis, Centenário, Jardim Los Angeles, Vila Lídia, Vila Marli e Seminário.

E sobre a transformação que o Reviva Centro começou a promover no primeiro mandato, deve continuar na segunda gestão? 

O Reviva é um programa internacional de uma sobra de valores de 2004, em que eles disseram: nós queremos que os prefeitos das capitais do Brasil apresentem projetos para revitalizar os seus centros. Na época, Campo Grande apresentou com outras capitais do País, e cinco delas tiveram sucesso, entre elas, Campo Grande. 

Os termos burocráticos foram sendo feitos, até que, em 2017, o senador Pedro Chaves me ligou dizendo o seguinte: “O valor do BID, do projeto de 2004, está na minha mesa para relatar. 

É pegar ou largar”. Eu disse: “Mas como assim, senador?”, e ele respondeu: “Se você não quiser, não tem problema, vai ser devolvido o dinheiro”. Perguntei então: “Não posso pegar esse dinheiro para construir um hospital?”, e ele me disse que não poderia, pois é um projeto específico para revitalização do Centro da cidade.

Depois eu chamei uma daquelas que estavam cuidando do projeto, Catiana Sabadin, e ela disse que o projeto seria um sonho para a cidade. 

Reitero: não é para o centro da cidade, é para a cidade. Então ela me mostrou o levantamento feito pela Associação Comercial que informava que a 14 de Julho e o quadrilátero central não era uma região de residências, e sim de comércio. A pesquisa mostrou que o Centro da cidade é o coração dos bairros.

O transporte coletivo será um dos principais problemas a serem resolvidos no segundo mandato, concorda? 

Principalmente para Campo Grande, que é uma cidade que foi planejada para carros, não foi planejada para ônibus. Se você ver as nossas ruas, por exemplo, a 14 de Julho. Ela tinha cinco faixas para carros, tiramos três delas dar para o povo, para as pessoas andarem.  

O campo-grandense foi acostumado a ir de um lugar para o outro em um curto espaço de tempo, e sempre que ele chega ao seu lugar de destino quer parar na frente de onde ele vai. A pessoa parece que não pode andar uma quadra. Essa é a forma como o campo-grandense foi criado, porque antigamente era tudo pertinho.

Acontece que o transporte chama-se coletivo, se é coletivo, é para todos. Não é um transporte individual, não é um transporte privado que beneficia um. Enquanto seu carro leva você e mais uma pessoa, aquele ônibus está levando 30, 40 seres humanos, e eu tenho de pensar neles, não nos dois que estão dentro do carro.

E aí, o que acontece? Acontece que o transporte coletivo por não ter uma faixa exclusiva, um caminho que o ônibus levaria cinco minutos, está levando 20. Porque o carro ocupa a faixa do ônibus, porque o carro não obedece o transporte coletivo, porque o carro – por meio dos motoristas – quer o bem apenas deles, não de quem está dentro do ônibus.

Acha que falta compreensão sobre os corredores? Um problema parecido com o que houve em São Paulo há algumas décadas...

E hoje tudo mundo aplaude lá (em São Paulo). Só tem uma maneira de você tirar um pouco o estresse do transporte coletivo, é facilitando a vida do passageiro e do usuário. 

O usuário deve falar: vale a pena agora, eu pego o ônibus e ele vai em linha reta, não passa em 200 quebra-molas... Ele deve pensar: agora eu tenho ventilação dentro do veículo. 

Porque caso contrário, você vai estimular o passageiro a sair do ônibus, e quando você sai do ônibus, você vai ter de encontrar um transporte semelhante. Semelhante no que? Não em conforto, porque não tem. O carro é 10 vezes mais confortável que o ônibus. Mas, no valor.  

E aí veio o transporte por aplicativo. Eles não cobram o valor de uma passagem, mas as pessoas preferem gastar R$ 4 ou R$ 5 a mais e ter o conforto de andar sozinhas, do que economizar R$ 4 ou R$ 5 e passar o estresse que está passando dentro do ônibus.

Então o caminho é melhorar a mobilidade urbana?

Você melhorando a mobilidade, por exemplo, vamos pegar a Avenida Bandeirantes, ela vai do Trevo Imbirussu até a Avenida Afonso Pena, antes de toda essa reforma, o ônibus para sair de um ponto ao outro levava 20 minutos. 

Agora leva 12. Imagine você dentro do ônibus, 20 minutos, sem ar-condicionado, e com o calor que faz em Campo Grande. Sabe qual é a velocidade média lá? 13 km/h. Não entra vento na janela, o passageiro pode abrir o que quiser que o vento não entra. 

Agora ele andando a 22 km/h, o cara vai sentir o refresco do vento. O que vai acontecer? O transporte coletivo vai aumentar o número de passageiros, isso fará com que eles (o Consórcio Guaicurus) melhorem suas frotas.

E sobre aos frequentes pedidos de subsídio pelo Consórcio Guaicurus?

Eles perderam quantos passageiros? Essa pandemia atingiu todo o mundo, não é só aqui não. Você não viu o (João) Doria (governador de São Paulo) e o (Bruno) Covas (prefeito de SP)? Eles tiraram a gratuidade lá. É muito fácil fazer cortesia com o chapéu alheio né?  

Aí o presidente da República fala: idosos e estudantes não pagam. Tudo bem, mas você não vai mandar nenhuma ajuda para quem vai pagar por eles? Eu também concordo que idoso não deve pagar. 

Eu também concordo que estudante não deve pagar. Mas quem vai ajudar? Então (que a União) compre um número X de passagens por mês e deposita na conta, não é mesmo?

Olha só, se o governo federal bancasse a tarifa, que está em R$ 4,20, estaria em média R$ 2,60. De cada 10 pessoas que entram no ônibus, de quatro a quatro e meia tem gratuidade. Se ele (o presidente) que está falando que deve andar de graça, tem de ajudar.

E sobre as enchentes, como este ano choveu menos, as obras avançaram?

Fizemos ações visando contenção de inundações, contenção de alagamentos e desassoreamento dos córregos. Pela primeira vez na cidade foram contratadas pela Secretaria de Obras equipes específicas para limpar bueiro. 

É coisa que as pessoas não enxergam, mas fez com que muitos pontos, que antes eram visitados por vocês da imprensa, em época de chuva, que deixaram de ser inundados. 

Foi feita a limpeza de três em três meses em locais em que as pessoas colocam frauda, absorvente, sacos plásticos, garrafas pet, latas de Skol, de Brahma... Eles tiram toneladas disso daí. Tem bueiro que está lotado na boca de barro duro. Camada que não sai mais.  

Essa limpeza foi importantíssima. Na região do Nova Lima, por exemplo, nós fizemos um piscinão para evitar a erosão do Córrego Segredo. Nós fizemos na Praça das Águas, o término de todas as obras que estavam desde a época do Nelsinho (Trad, irmão dele, ex-prefeito), que retém 26 milhões de litros de água. 

Lembra quando chovia na câmara, no shopping? Graças a Deus isso não acontece mais. Essas obras não resolveram, mas atenuam o problema.

E o que pensa desta nova formação da Câmara? Como está a articulação com o Poder Legislativo?

Eu vim do Legislativo. Eu fiquei 14 anos entre vereador e deputado estadual. As pessoas falam: você vai interferir na eleição da mesa, você vai escolher isso ou aquilo. 

E eu disse para eles: quando eu era vereador e deputado, eu participei de eleição de dois em dois anos da Assembleia e da Câmara, foram mais de nove disputas. A coisa que mais chateava a mim era a intromissão do Executivo.  

Então eu aprendi: a casa não é minha, eu não tenho a chave da porta da Câmara Municipal. Quem tem são os 29 vereadores e quem tem de decidir são eles. 

E aí, me perguntam: ah, mas você não quer um que seja do seu lado? Eu não vou fazer nada de errado, porque eu preciso ter alguém para me acobertar? Eu vou mandar as coisas corretas, decentes. Digo aos vereadores: façam a parte de vocês que eu vou fazer a minha. Como foi dessa vez.  

Ah, tinham alguns deselegantes? Você viu o resultado deles, sucumbiram à consciência do eleitor. O eleitor não quer parlamentar desse jeito.

Sobre a oposição, eu acho que ele deve existir. A melhor coisa em uma democracia é a oposição construtiva, porque por meio dela você acerta mais. Burra é a unanimidade. E quando você tem críticas construtivas, você se aperfeiçoa, deixa de errar.

E haverá mudanças no secretariado já no início do novo mandato?

Com essa situação de eleição a menos de 20 ou 30 dias da posse, essa pandemia, e esse fechamento da situação da vacina, confesso que eu não fiz ainda a troca de secretários. 

Uma eventual mudança de nomes, e, se isso ocorrer, será no curso do mandato. Se eu tivesse naquele prazo da transição, se eu tivesse um ano normal, tudo bem. Está tudo atípico...

E o balanço que faz da atuação nesta pandemia?

Tivemos alguns contratempos, até porque o presidente da República (Jair Bolsonaro) tem uma interpretação diferente dela. Ele sempre se pautou por algo que não seria tão trágico e que não afetasse ao mundo todo. Ele se equivocou.  

As orientações dele eram diferentes das do restante do mundo, e isso trouxe uma série de contratempos para vários gestores.  

Muitos agentes públicos deixaram de renovar seus mandatos por causa de posicionamento político. Fomos muito balizados nos três meses. Uma mensagem aos cidadãos de Campo Grande

Nossa gestão continuará pautada por trabalho, responsabilidade, muita oração e expectativa de esperança de dias melhores.  

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