A ministra Ideli Salvatti (Relações Institucionais) voltou a negar hoje que haja crise na interlocução do governo com o Congresso, mas admitiu que se trata de uma relação difícil.
Em uma espécie de balanço sobre seu último semestre à frente do ministério, afirmou que seu cargo é uma "profissão de risco" e queixou-se que, nas negociações do governo, "sempre sobra" para ela.
"Outro dia eu brinquei, não me lembro agora quem foi que entrou na minha sala e perguntou 'Tudo bem'? Se estivesse tudo bem, eu não precisava estar aqui", comentou a ministra.
Segundo ela, "articulação é justamente para equacionar que as coisas andem bem". "É um trabalho permanentemente tensionado, você faz a intermediação, a interlocução, você viabiliza o que tem possibilidade de viabilizar, dá as condições de negociar o que é possível, e sempre sobra pra mim", disse.
A declaração vem depois de a Folha de S.Paulo mostrar nesta sexta-feira que o Palácio do Planalto decidiu reformular o sistema de execução das obras patrocinadas por deputados e senadores por meio de emendas.
Agora, ministros e líderes dos partidos aliados indicarão quem receberá a verba e, em contrapartida, terão a missão de cobrar do beneficiado fidelidade ao governo nas votações do Congresso.
A decisão deve enfraquecer a já fragilizada posição de Ideli, que é quem discute com a equipe econômica a liberação das verbas. Parlamentares põem na conta da ministra a intransigência do governo e acusam o Planalto de quebrar acordos e não liberar emendas --como no caso da votação da MP dos Portos, tida por Ideli como o momento mais "tenso" do ano.
"Liberação de emenda tem todo ano, que nem inverno e verão. Depende obviamente das condições climáticas. E qual foi a condição climática neste ano? Nós não tivemos aprovação do Orçamento no final do ano, foi aprovado no início do ano legislativo. Nós tivemos um atraso de aproximadamente três, quatro meses."
Ela disse que não vê "novidade" nessa decisão do Planalto em redistribuir tarefas de interlocução com o Legislativo.