Após passar quase 30 anos como deputado federal de baixo clero no Congresso, Jair Messias Bolsonaro, 63, toma posse nesta terça-feira (1º) disposto a imprimir uma nova ordem política, econômica e social no país.
Eleito com quase 58 milhões de votos, Bolsonaro se ancora no discuso de que extirpou o PT do poder com a missão de implementar um governo de direita: liberal na economia e conservador nos costumes.
Seu principal desafio para cumprir as promessas de campanha -muitas delas revisadas ou abandonadas ainda durante o processo eleitoral- será estabelecer uma nova relação com os parlamentares.
O novo presidente diz que vai acabar com a distribuição de cargos em troca de apoio político e constrói sua base no Congresso com as chamadas bancadas temáticas -evangélica, ruralista e da segurança pública-, porém, pouco efetivas em votações de medidas econômicas, por exemplo.
Crítico à imprensa, também promete inovar no diálogo entre o Planalto e a população, mantendo o uso intensivo de redes sociais, como fez durante a campanha.
Embora Bolsonaro e seus aliados tenham passado parte do governo de transição prometendo inovações no dia da posse –shows e até um inédito ato ecumênico foram cogitados–, a única mudança será um rigoroso esquema de segurança montado pelo GSI (Gabinete de Segurança Institucional), a pedido do eleito.
O futuro comandante da pasta, general Augusto Heleno, alega que há riscos de atentado a Bolsonaro, que foi alvo de uma facada durante a campanha, em setembro. Os fatores de segurança e as condições climáticas deixam como fator surpresa o carro que será escolhido por Bolsonaro para o desfile: o tradicional Rolls Royce presidencial, de capota aberta, ou um veículo fechado.
Capitão reformado do Exército, Bolsonaro será o 16º militar a ocupar a Presidência da República do Brasil, o 3º eleito pelo voto direto. Escolheu para o primeiro escalão seis militares, representantes das três Forças Armadas.
Nesta terça, receberá a faixa de um presidente impopular. Michel Temer nunca recebeu o adereço das mãos de outro mandatário. Reeleito vice-presidente em 2014, o emedebista assumiu o Planalto em maio de 2016, após impeachment de Dilma Rousseff.
O presidente eleito quer se projetar internacionalmente como nova força da direita. Para isso, busca aproximar-se de gestões como a de Donald Trump, nos EUA, e de Binyamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel que veio ao Brasil para a posse. Na América Latina, quer diminuir a importância do Mercosul e romper com o modelo adotado pelo PT, que fez negócios e acordos com governos de esquerda, como os de Cuba e Venezuela.
Na política interna, Bolsonaro chega ao poder sem o apoio formal de nenhum outro partido.
Embora a legenda à qual é filiado, o PSL, tenha conquistado a segunda maior bancada da Câmara, com 52 deputados, o número ainda é insuficiente para aprovação de projetos considerados cruciais para seu mandato, como a reforma da Previdência, que precisa de pelo menos 60% dos votos na Casa para ser aprovada.
Para comandar uma agenda liberal na economia, escolheu Paulo Guedes, a quem deu superpoderes e entregou a ele o Ministério da Economia, que unificará Fazenda, Planejamento, Indústria e Comércio Exterior e Serviços.
Guedes assume a área com a promessa de zerar o déficit fiscal no primeiro ano de governo, embora a previsão seja de que o país fechará as contas devendo R$ 139 bilhões em 2019.
O guru de Bolsonaro pretende realizar reformas como a da Previdência e a tributária e reduzir o tamanho do Estado por meio de privatizações, mas ainda não apresentou um plano objetivo de nenhuma dessas medidas.
Bolsonaro se elegeu graças a um forte discurso antipetista, de moralização da política e combate à corrupção.
Como fiador para essa agenda, escolheu o ex-juiz Sergio Moro para o Ministério da Justiça. O ex-magistrado foi responsável por comandar a Lava Jato em Curitiba e pela sentença que levou o ex-presidente Lula à prisão.
Moro também assume uma superpasta, que unificará Segurança Pública e Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras), importante órgão de combate à corrupção hoje ligado à Fazenda.
Apesar do discurso, a posse de Bolsonaro ocorre em meio a investigações do Coaf que respingam em sua família. Um relatório do órgão apontou que Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flavio Bolsonaro, efetuou movimentação atípica em sua conta no total de R$ 1,2 milhão.
Para a cerimônia desta terça, 200 mil pessoas são esperadas na Esplanada dos Ministérios, num evento que deve ser comparado somente à primeira posse de Lula, em 2003, quando cerca de 71 mil apoiadores compareceram.