O ex-deputado e ex-ministro da Saúde do governo Bolsonaro Luiz Henrique Mandetta (DEM) avaliou que a CPI da Covid-19, que ocorre no Senado, pode deixar como legado um direcionamento aos gestores públicos brasileiros sobre como agir em eventuais epidemias ou pandemias.
A avaliação foi feita por Mandetta ao Correio do Estado, após ele prestar depoimento aos senadores sobre sua gestão à frente do Ministério da Saúde no início da crise sanitária no Brasil.
Mandetta foi sabatinado pelos senadores em uma sessão que durou 7 horas.
Em sua avaliação, os governantes podem extrair da CPI normativas para serem trabalhadas em casos de calamidade pública sanitária, como o da pandemia do novo coronavírus.
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“As audiências podem servir para elaborarmos protocolos sanitários para serem executados em epidemias ou pandemias. Esse pode ser o legado deixado pela comissão de investigação. Todos imaginam que esse tipo de CPI só serve para uso político, mas se estivermos abertos podemos utilizarmos depoimentos e opiniões dos especialistas, ou políticos, para elaborarmos um documento que servirá para orientar os gestores públicos de todo o País. Assim, teremos no futuro um protocolo unificado de combate a essas doenças epidêmicas”, projetou.
Narrativa governista
A base governista tentou atribuir a ele, por diversas vezes, a orientação que ele teria dado para apenas procurar atendimento quando os sintomas do novo coronavírus estivessem agravados.
Essa narrativa tenta imputar ao ex-ministro eventuais mortes por conta da suposta recomendação.
Para Mandetta, essa tentativa da base aliada do governo não é novidade. Ele explicou que essa afirmação é fantasiosa e que nunca deu essa orientação.
“Nunca afirmei isso. Na verdade, antes do mês de março, não tínhamos um único caso de contaminação da doença, e a procura de pacientes era 99% por causa de outras doenças, como a gripe, ou por medo de estarem infectados. Para evitar uma transmissão da Covid-19, pois um único paciente em uma sala de espera poderia espalhar o vírus para dezenas de pessoas, nós orientamos ir até o hospital caso os sintomas da doença, até então pouco conhecidos, fossem identificados”, explicou.
Interferência do Planalto
Um fato inusitado ocorreu durante o depoimento de Mandetta na CPI.
Ao ser perguntado pelo senador e aliado do presidente Bolsonaro Ciro Nogueira (PP) sobre a orientação de procurar tratamento apenas quando os sintomas estivessem agravados, o ex-ministro revelou que a mesma pergunta havia sido feita na segunda-feira (3), por engano, pelo ministro das Comunicações, Fábio Faria (PP), via aplicativo de troca de mensagens.
Porém, logo após enviar a mensagem, Faria havia apagado ela.
Ao ser perguntado pelo Correio do Estado sobre o fato e se ele demonstra uma interferência do Planalto na CPI, que é da prerrogativa dos senadores, Mandetta afirmou que o caso não o surpreendeu, pois esse tipo de postura do Planalto já havia sido difundida pelos meios de comunicação e pelos senadores da oposição.
“O fato de o ministro Fábio ter me mandado aquela mensagem só confirma a informação de que o governo federal está orientando quais perguntas os senadores vão fazer ao longo de toda a comissão. Isso é uma pena, pois é um avanço do Executivo sobre o Legislativo. Além disso, apequena os senadores e mostra que a independência entre os Poderes pode estar em xeque na gestão Bolsonaro”, concluiu.