A turbulência político-institucional em nível federal pode deixar o cenário eleitoral de Mato Grosso do Sul mais nebuloso para 2022, acredita o sociólogo e professor Paulo Cabral. Segundo ele, a desproporção entre os protestos que ocorreram em outras capitais e no Estado pode contribuir nesse jogo de cartas ainda embaralhadas.
“Quanto ao arranjo político local, as cartas estão indefinidas. Quem será o candidato ao governo? O jogo está nebuloso, e seguramente a gente vai ter de esperar o desfecho desta crise institucional para ver quais candidatos, de fato, terão chance por aqui”, explicou Cabral.
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Na terça-feira, as manifestações favoráveis a Jair Bolsonaro (sem partido) e contra instituições como o Supremo Tribunal Federal (STF) atraíram aproximadamente 40 mil pessoas, segundo estimativas da Guarda Municipal, enquanto os protestos contra o presidente da República e sua política econômica e sanitária.
Além do ataque às instituições, reuniu em torno de três mil participantes.
Em outros estados brasileiros, os protestos bolsonaristas ficaram aquém do esperado, enquanto em Campo Grande as expectativas dos organizadores foram atingidas. Para Cabral, a origem conservadora de Mato Grosso do Sul explica a adesão maior por aqui.
“Aqui em Mato Grosso do Sul o apoio a Bolsonaro é maior que o nacional. Enquanto em todo o Brasil o presidente tem em torno de 24% de preferência nas pesquisas, por aqui tem pelo menos 38%”, ponderou.
“O latifúndio sempre foi um fator político muito forte no Estado, que tem uma base conservadora histórica. Essa circunstância, ao lado da inexistência de um operariado forte, contribui para que políticos com discursos mais conservadores sejam maioria no Estado”, explicou Cabral.
O sociólogo afirma que, historicamente, os políticos, inclusive os de esquerda, para se movimentar no Estado têm de ter algum tipo de apoio ou tolerância dos setores tradicionais.
Segundo Cabral, as incertezas causadas pela tensão entre o presidente Jair Bolsonaro, investigado por atos antidemocráticos e por propagar notícias falsas, e o Supremo Tribunal Federal (STF), sobretudo o ministro Alexandre de Moraes, deixam o cenário incerto por causa de uma possível ruptura institucional propagada por seus apoiadores.
Neste cenário, as candidaturas ficam incertas e os próximos atos poderão alterar toda a estratégia dos políticos que cogitam eleições majoritárias em 2022, como Eduardo Riedel (PSDB), Marquinhos Trad (PSD), Simone Tebet (MDB), Tereza Cristina (DEM) e Luiz Henrique Mandetta (DEM), entre outros.
Protestos
Cabral ainda disse que os protestos bolsonaristas, em nível nacional, foram grandes, mas ficaram abaixo das expectativas dos organizadores. Para ele, os apoiadores de Jair Bolsonaro não conseguem avançar nas demais camadas da sociedade, que não se identificam ou repudiam o comportamento do presidente da República.
“É importantíssimo frisar que não se tratava de uma participação popular, e sim de um segmento da extrema-direita. Mesmo com toda a emulação nas redes bolsonaristas, não houve grande adesão popular e espontânea”, analisou.
Cabral comentou, por exemplo, a presença de caminhões de transportadoras nos movimentos de Campo Grande e de Brasília.
“Caminhoneiro autônomo não tem carreta zero-quilômetro para deixá-la parada em Brasília. Se tiver, ele precisa no mínimo de rodar para pagar suas contas”, comentou. Para ele, trata-se apenas de uma camada do empresariado. “O segmento mais retrógrado”, finalizou.