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COVID-19

'Cepa anda de Ferrari. Vacinação vai de carroça'

O hoje ex-ministro da saúde, concedeu entrevista para o jornal O Estado de S. Paulo. Veja na integra:
01/03/2021 13:52 - Estadão Conteúdo


Um ano após o registro do primeiro caso da covid-19 no Brasil, o ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta (DEM), que comandou a pasta nos meses iniciais da pandemia, vê o País como uma nau sem rumo, o Sistema Único de Saúde (SUS) destruído e a situação do País cada vez mais grave. 

"A cepa mais transmissível anda de Ferrari. Já a campanha de vacinação vai de carroça"

Mandetta tornou-se personagem central nos primeiros meses de pandemia ao divergir da postura do presidente Jair Bolsonaro, que minimizava a força da doença. 

Bolsonaro o demitiu em 16 de abril.

O ex-ministro afirmou que vai participar "ativamente" das eleições de 2022, "como eleitor, cidadão ou candidato", mas que estará em caminho diferente da "esquerda equivocada" e do "Bolsonaro desequilibrado".

Quando o senhor ouviu falar sobre a covid-19 e em que momento percebeu que se tratava de uma doença grave?

O Brasil foi um dos primeiros países a questionar a OMS (Organização Mundial da Saúde) sobre a doença, quando o Wanderson Oliveira (ex-secretário de Vigilância Sanitária) ouviu ruídos sobre o vírus. 

Quando fui para o Fórum de Davos, parei em Genebra. Iria jantar com Tedros (Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS), mas ele disse que não iria participar, pois haveria reunião no comitê de emergência sobre a doença. 

Eles (a cúpula da OMS) racharam sobre declarar emergência global Aí fizeram (a declaração): é uma emergência para Wuhan e um alerta internacional.

Quando o senhor falou ao presidente que a doença causaria uma grave crise?

Quando tivemos o primeiro caso no Brasil e o sistema de saúde da Itália caiu. 

Mas ele começou a entrar na vibe do Trump, não dimensionou. 

Ele tinha uma viagem aos EUA. Eu já estava dando o alerta. 

Eles não queriam usar nem álcool em gel para não transparecer preocupação.

Em que momento o senhor percebeu que Bolsonaro assumiu postura diferente daquela recomendada pela Saúde?

O presidente começou a forçar saídas e aglomerações. 

A imprensa me perguntando: "Você está dizendo para o pessoal se cuidar e o presidente fica saindo". 

Ele me convidou (para as saídas), mas como percebeu que eu não iria começou a chamar o presidente da Anvisa (Antonio Barra Torres). 

A Anvisa servia como autoridade de saúde para legitimar aquilo. 

O presidente me chamou para uma live e disse (aos apoiadores) que era melhor não irem à manifestação, mas no domingo ele sai, abraça, beija. 

Era para ele estar em quarentena, porque teve contato com infectados na viagem aos EUA. 

Daquele momento para frente foi só... "bom, não vou poder contar com ele para enfrentar isso".

Com as informações disponíveis hoje sobre a doença, o senhor teria feito algo diferente no cargo de ministro?

Não. 

Eles não queriam fazer nenhuma campanha de esclarecimento ao público. 

Passei a utilizar a imprensa, fazer coletivas, para a imprensa fazer o papel que foi fundamental naquele momento. 

Chegamos a zerar as máscaras. Então dissemos: use máscara de pano. 

Conseguimos um navio da China de equipamentos de proteção porque eu pedi ao ministro para deixar sair o último navio. 

Fazia licitação e dava "zero". 

Pessoal querendo cobrar a máscara a R$ 8 por unidade. 

Abrimos linha de montagem para respiradores. E foi o que salvou. No meio disso ainda havia um conflito com a China.