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ENTREVISTA

'Faltam apoio político e verbas para que transplante de medula deslanche', afirma médico

'Faltam apoio político e verbas para que transplante de medula deslanche', afirma médico

Redação

15/06/2014 - 18h00
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Um dos fundadores da AACC (Associação dos Amigos das Crianças com Câncer) na Capital, ao lado de Miriam Comparim, o médico Marcelo dos Santos Souza, especializado em onco-hemato-pediatria, é uma referência na área no Estado. Atualmente, ele busca colocar em prática o projeto de construção de um local onde funcione um hospital especializado em Transplante de Medula Óssea, além de um banco de recolhimento da medula. Nesta entrevista, ele traça um panorama da doença no Estado e fala sobre as dificuldades do projeto sair do papel.

CORREIO PERGUNTA - O senhor é um onco-hemato-pediatra, especializado em transplante de medula óssea. Muita gente confunde esse transplante com o transplante de medula espinhal. O senhor poderia esclarecer a diferença?

MARCELO DOS SANTOS SOUZA - A medula óssea, leigamente falando, é o tutano do osso, onde é produzido o sangue e este é o tipo de transplante que é feito para as pessoas que têm tanto alguns tipos de câncer como doenças também não malignas. E a medula espinhal é onde nasce todo nosso sistema nervoso, onde têm as raízes nervosas, o líquido da espinha e não tem nada a ver uma coisa com a outra. Não existe transplante de medula espinhal.

Poderia traçar o quadro da doença na medula óssea em MS, esclarecendo como os pacientes são tratados atualmente?
Atualmente existem em Campo Grande três serviços de oncologia e hematologia: na Santa Casa, no Hospital Regional e no Hospital do Câncer. Tem um serviço em Dourados também. Então, quando lidamos com pacientes com doenças hematológicas malignas, a grande maioria destes tipos de doenças, enquanto não respondem ao tratamento quimioterápico, lançamos mão de fazer o transplante de medula óssea. Trata-se do tratamento para aquelas pessoas que partem de zero chance de cura para, no mínimo, 50% de chance de cura, realizando o transplante de medula óssea.

E este tranplante é feito no Estado?
Não, não é. O lugar mais próximo que tem é em Jaú (SP), depois a capital de São Paulo e Curitiba. No Centro-Oeste, apenas na cidade de Goiânia.

O senhor batalha para que MS tenha um banco de medula e que os transplantes sejam viabilizados por aqui. Como está este processo?
Está numa fase de idealismo, pronto, feito, entregue às autoridades aqui do Estado. Foi entregue há cerca de um ano para o nosso governador. E é um trabalho meu em conjunto com a AACC. E, recentemente, o deputado Lauro Davi, que também encampou este projeto tentando fazer um projeto de lei para que esteja autorizado implantar este projeto em Mato Grosso do Sul. Há mais ou menos um mês tivemos uma audiência pública na Assembleia Legislativa, onde discutimos o assunto e, por unanimidade, todo mundo vê a necessidade de haver este serviço aqui no Estado. Mas faltam apoio político e verbas para que este serviço deslanche. Trata-se de um serviço que é pago pelo SUS e precisamos ter o espaço físico para isso.

O que já existe de embrionário nisso tudo? Teria que haver verba para se construir um local? A equipe médica já existe?
De médico, eu, que sou especialista na área; a gente precisa de um laboratório de congelamento e manipulação da medula óssea, que conta com um biólogo preparado para isso. E a equipe de enfermagem que será treinada e capacitada. Da parte de pessoal é disso que nós precisamos e mais um médico será necessário para dividirmos o serviço. Quanto ao espaço físico, não temos. Existe a proposta de um projeto para o Hospital Regional e há pouco tempo a Santa Casa também se mostrou bastante interessada em implantar esse tipo de serviço. Estamos, portanto, neste patamar de conversas, mas nada totalmente fechado onde e como será.

Se essa verba fosse viabilizada agora, os senhores primeiro construiriam o prédio ou tentariam viabilizar o serviço numa parte do Hospital Regional, por exemplo?
O projeto que nós fizemos até hoje está associado ao Serviço de Transplante de Medula Óssea e à Oncologia Pediátrica, que fica no Hospital Regional. Hoje, se nós colocarmos o Serviço de Transplante de Medula Óssea onde está a Oncologia Pediátrica não haverá espaço para esta última. Então, fizemos um projeto de um prédio novo, onde a parte térrea teria um ambulatório para atender toda a demanda de pacientes da oncologia pediátrica e os pacientes candidatos ao transplante. E aí o transplante não seria apenas para crianças, mas para os adultos também.

Qual é a demanda, hoje, no Estado. Ela vem aumentando?
Ela aumenta a partir do momento em que você faz um diagnóstico bem feito. Porque estes pacientes, mesmo fazendo a quimioterapia, são encaminhados precocemente para esse tipo de tratamento. O levantamento que eu fiz recentemente em relação aos pacientes, apenas do Hospital Regional, no mês de abril, de 130 pacientes hematológicos em tratamento quimioterápico e mais 70 pacientes pediátricos em tratamento oncológico, nós temos em torno de 20% dessa clientela como pacientes aptos a realizar o transplante de medula óssea, sendo a maioria deles adultos. Então, hoje, se nós tivéssemos o serviço de transplante aqui em MS, em torno de 25 a 30 pacientes teriam indicações de fazer transplante de medula - tanto o transplante autólogo como o transplante halogênico, que é o transplante que necessita de um doador aparentado ou não.

Há, também, a necessidade de se implantar um banco de coleta de cordão umbilical?
Este também é um projeto que está em andamento no Estado. Já aprovado e oferecido pelo Ministério da Saúde, é a implantação do banco de cordão umbilical público para MS. Aqui nós temos um banco de coleta e o material é levado para São Paulo. Então, no banco público serão feitas doações; o banco privado é direcionado, cada um congela o cordão do seu filho. No caso do banco público, é um projeto que está sendo desenvolvido no Hemosul. O do transplante de medula óssea nós precisamos de um laboratório para manipular a medula colhida deste doador preestabelecido para o paciente ou a medula do próprio paciente quando se faz o transplante autólogo.E nós também precisamos de uma enfermaria específica para esses pacientes, porque quando ele é internado para fazer o transplante é um paciente imunodeprimido, precisa tomar uma quimio ou radioterapia com uma dose extremamente alta e a imunidade dele fica, praticamente, zero. O local onde ficam esses pacientes precisa de filtro 100%, ter um ar totalmente limpo, todos os cuidados necessários para evitar qualquer tipo de infecção. Até um virose é muito grave para esse tipo de paciente. Então, nós não temos esse tipo de espaço físico aqui em nenhum hospital dentro do Estado. E também precisamos capacitar toda a equipe multiprofissional que vai trabalhar nesse serviço.

A implantação desse conjunto traria benefícios além do tratamento em si, não é mesmo?
Sim, a implantação do serviço de transplante aqui no Estado, no hospital onde isso acontecer, não é beneficiado apenas o paciente mas o hospital como um todo. Porque junto com o serviço de transplante agrega-se muita coisa. Nós precisaremos de profissionais mais especializados, mais capacitados, tem toda a área de ensino e pesquisa que só terão a ganhar e serem desenvolvidas em cima disso, além de laboratórios, serviços secundários que precisa haver ao redor para atender outras especialidades. Quando nós conversamos sobre isso na Santa Casa, a visão deles já era também de contemplar os outros. Tendo o transplante de medula óssea na Santa Casa já estaremos aptos para voltar a trazer os transplantes cardíacos, renal, de fígado.

Quando é que uma pessoa precisa de um transplante de medula óssea? Quais os sintomas?
Vamos direcionar, então, à leucemia, que é o maior número de casos. Inicialmente, nós temos alguns tipos de leucemia: leucemia linfoide aguda, leucemia mieloide aguda e a leucemia crônica. Então, a maioria dos pacientes que precisa de transplante é da leucemia aguda, tanto linfoide ou mieloide. Inicialmente, eles são tratados com quimioterapia. Se ela não resolve, isso quer dizer que o paciente tem uma ressidiva precocemente, então já é um candidato a fazer o transplante de medula óssea. Ele precisa fazer um novo tipo de quimioterapia, fazer com que a medula óssea dele fique limpa das células doentes - mas isso não quer dizer que ele está curado - e aí sim é indicado o transplante de medula óssea. Então, estes são para as doenças oncológicas, malignas. Existem vários outros tipos de doenças não malignas que também têm indicação de transplante, como a aplasia de medula óssea. Isso ocorre quando a medula do paciente para de funcionar, de produzir o sangue. E existem diversas causas para isso. Então, a chance de recuperação deste indivíduo é o transplante de medula óssea. Por ano, lá no Cetoi, nós recebemos de 5 a 7 crianças com aplasia de medula óssea, fora os adultos. Também estamos tentando resolver a nível de Ministério da Saúde a liberação do transplante de medula óssea para os pacientes portadores de anemia falciforme. Isso já é feito na Europa, nos EUA, apenas no Brasil que ainda não foi totalmente liberado, mas alguns serviços já fazem. Na anemia falciforme o paciente tem muitas intercorrências, quadros que complicam a vida dele. E com o transplante, a chance de cura para estes pacientes é de 95%, 96%. Eles ficam curados de toda a doença.

Que chance tem de conseguir um doador a pessoa que necessita de um transplante de medula óssea? Os parentes podem doar, incluindo pai e mãe?
Sim. Existe o transplante que chamamos de alogênico, que é entre irmãos, ou aparentados, que a chance hoje em dia é de 25% de um irmão ser compatível. E o alogênico não aparentado, que aí entram os tios, primos, doadores anônimos. A chance, hoje, no Brasil, é de 1 para cada 100 mil. Pai e mãe também podem e hoje no Brasil está sendo feito o transplante haploidêntico, quando o doador é 50% compatível com o paciente. Então, são alguns tipos de doenças específicas que se pode realizar este transplante.

O que precisa fazer um doador voluntário de medula óssea?
Ele, primeiramente, precisa se cadastrar em algum banco de sangue - na Santa Casa, Hospital Regional ou Hemosul, no HU, nos bancos de sangue de Dourados, atender as campanhas. Ele precisa se cadastrar como doador e neste momento é feita a coleta de 10 ml de sangue da veia e feito o exame de HNA, que é o exame de compatibilidade. É diferente daquele que faz a tipagem sanguínea, é outro tipo de exame. Vai se fazer uma pesquisa a nível de DNA para ver se aquela pessoa é compatível ou não com o doador. O exame deste doador é lançado num banco nacional, que hoje é gerenciado pelo Inca - Instituto Nacional do Câncer, no Rio de Janeiro. Então, se uma pessoa se cadastrou e é compatível com algum paciente, ele será chamado para fazer alguns testes confirmatórios, realizar vários outros exames para verificar o estado de saúde do doador e, se tudo for confirmado, for positivo, será chamado para fazer a doação da medula óssea. E existem dois métodos para se fazer esta doação: um é através da coleta da medula óssea por punção óssea, no osso da bacia, para se coletar a quantidade necessária de medula que o paciente precisa. É um procedimento praticamente sem riscos para o doador, em um ou dois dias ele já está apto a retomar suas atividades. O outro método é quando se faz a coleta pela veia, pelo sangue periférico. O doador é colocado numa máquina, o sangue dele passa por ali - é semelhante a uma máquina de hemodiálise. Este sangue é filtrado e são retiradas apenas as células-tronco hemapoéticas que estão na corrente sanguínea.
 

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