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Correio B+ - Capa da semana

Entrevista exclusiva com a jornalista e comunicadora Letícia Vidica

"Tem muito degrau para subir ainda, muita coisa para conquistar na carreira". Por que não ter um programa de viagens com Letícia, explorando o Brasil e o mundo? E também poder ter um programa com entrevistas. Eu sonho, sim."

Duas décadas de histórias, grandes coberturas, desafios, conquistas e muitos sonhos ainda por realizar. A jornalista Letícia Vidica celebra 20 anos de carreira vivendo uma fase especial de sua trajetória profissional, como repórter de entretenimento da TV Globo, participando de atrações como “Encontro com Patrícia Poeta”, “É de Casa” e “Mais Você”, comandado por Ana Maria Braga.

Uma caminhada construída com talento, determinação e versatilidade, que reúne experiências em importantes projetos da televisão brasileira, como “Fantástico”, “Profissão Repórter”, “Brasil que Eu Quero” e a comemoração dos 50 anos do “Jornal Nacional”, além de sua passagem pela CNN Brasil, onde idealizou o CNN Plural, iniciativa multiplataforma voltada à diversidade e à representatividade.

Primeira jornalista de sua família, Letícia também precisou abrir caminhos em um mercado no qual ainda encontrava poucas profissionais negras ocupando determinados espaços.

Com uma história marcada pela persistência e pela coragem de transformar desafios em oportunidades, ela ampliou sua atuação para além das redações e dos estúdios.

Há três anos, criou a Vidica Comunicações, empresa dedicada à gestão de sua carreira como palestrante, mediadora e mestre de cerimônias, e também investe em projetos autorais, como o Café com Lê, que nasceu de maneira despretensiosa e hoje ganha novos formatos e possibilidades.

Mas a inquietude criativa não para por aí. Autora do livro “Mulheres Solteiras Não São de Marte”, lançado em 2011, a jornalista já começa a preparar um novo projeto literário e alimenta planos ainda maiores para o futuro. Entre os desejos estão apresentar um programa de entrevistas, explorar o Brasil e o mundo em uma atração de viagens e consolidar cada vez mais seu espaço como comunicadora e empreendedora. 

Em uma conversa que percorre os bastidores da televisão, os desafios da representatividade, o empreendedorismo feminino, a paixão pela comunicação e os próximos capítulos de sua história, Letícia fala com franqueza sobre suas escolhas, aprendizados e ambições. E não esconde um sonho que traduz sua personalidade e sua vontade de ir além: tornar-se a “Oprah brasileira”. Aos 20 anos de profissão, ela mostra que a melhor parte da história pode estar apenas começando. 

Letícia é a Capa exclusiva do Correio B+ desta semana, e em entrevista ao Caderno, ela fala sobre carreira, escolhas, comunicação, trabalho e pojetos. Confira a entrevista na íntegra da nossa Oprah Winfrey...

A jornalista e comunicadora Letícia Vidica é a Capa exclusiva do Correio B+ desta semana - Foto: Estúdio Lookatme - Diagramação: Denis Felipe - Por: Flávia Viana

CE - Letícia, você acaba de realizar um sonho ao participar pela primeira vez da tradicional vinheta de fim de ano da Globo, em um momento ainda mais especial pela presença do seu pai nos estúdios. O que passou pela sua cabeça naquele dia e o que essa conquista representa para a menina que um dia sonhou em trabalhar na televisão?
LV -
Participar da vinheta de final de ano da TV Globo foi a realização de um sonho, acho que, um sonho e também concretizando um imaginário, porque eu cresci telespectadora da TV Globo.  Desde sempre, eu sou filha de pais que são telespectadores assíduos da Globo.

O meu pai, principalmente, é muito noveleiro, desde sempre, e a gente sempre acompanhou, além de toda a programação da emissora, eu sempre achei muito especial esse momento da vinheta. Quem nunca, né, cantou hoje a novo dia, de novo o tempo que começou.

E quando eu entrei para a TV Globo agora nessa segunda temporada, enquanto repórter do entretenimento, eu sonhei sim, desejei, falei: "Ah, quem sabe um dia eu estarei na vinheta". Eu só não imaginava que esse dia chegaria tão rápido e chegou. E poder participar justamente ao lado do meu pai.

Quando a Globo lançou essa ideia de levar familiares, né, para a vinheta, isso aconteceu no ano passado, eu assisti e achei muito bacana, e até brinquei com o meu pai e com a minha mãe: "Nossa, quem será que eu levaria?" E quando o convite chegou esse ano, eu falei: "Meu Deus, chegou a minha vez". E aí eu fiz um convite para os dois, falei: "Vocês decidem". Joguei essa bomba no colo dos meus pais, mas eles decidiram, né, que o meu pai pudesse me acompanhar.

É, meu pai é o grande noveleiro, tem um sonho, sempre tive um sonho de poder mostrar para ele os estúdios Globo. E foi emocionante, essa é a única palavra que consigo definir o momento que eu vivi ali, né? Emocionante por participar da vinheta pela primeira vez, emocionante por estar ali junto com tantos colegas, artistas consagrados e também me ver ali no meio deles, porque, né, sou uma global também. Poder estar ao lado do meu pai e poder mostrar para ele também: "Olha, pai, valeu todo o nosso esforço, valeu o seu investimento em mim". Então foi a realização e a materialização de um sonho de verdade.

E, e foi também um grande presente para essa menina que um dia nem imaginou que trabalharia em televisão, porque, ao contrário do que as pessoas acham que eu cresci sonhando em trabalhar em televisão, talvez isso estava no meu inconsciente, mas eu cresci brincando, sim, de ter, de ser apresentadora de programa de TV, cresci fazendo, brincando, né, com a minha irmã, de programa de auditório, mas nem imaginava que um dia eu estaria inserida no mundo da televisão. E então foi como se aquela menina falasse para mim: "Não era só uma brincadeira".

CE - Em 2026, você celebra 20 anos de jornalismo, com passagens por grandes emissoras e projetos que marcaram sua trajetória. Quando olha para tudo o que construiu, qual foi o momento em que percebeu que estava conquistando um espaço que, no início da carreira, parecia tão distante?
LV -
Olha, essa é uma pergunta sempre profunda de responder, porque eu fui conquistando meu espaço sem perceber num determinado momento que eu estava conquistando o meu espaço. Eu estava focada na minha carreira desde que eu comecei a estagiar, desde que eu decidi fazer jornalismo, eu logo pensei, preciso entrar na área.

Eu sou uma pessoa muito estratégica, eu estou sempre pensando e perguntando, tá, qual o próximo passo, como é que eu faço para chegar ali. E eu vou criando as minhas próprias estratégias, que às vezes dão certo, às vezes não dão e vai me levando.

Então, desde quando eu pensei em fazer jornalismo e não tinha nenhuma base, nenhum, ninguém no meu núcleo familiar ou na minha bolha social que fosse jornalista, eu falei, eu preciso entrar nesse mundo. Então, eu comecei a fazer estágios e já estagiei em revista de joia, de pet, de carro, de moto, jornal de bairro, já fiz vários freelas na área, tudo para conseguir me inserir, até que um dia eu consegui, né, me inserir de fato na televisão através do meu primeiro estágio em emissora que foi na Rede TV.

E dali eu fui sempre nesse pensamento, estou aqui dentro, qual o próximo passo? Preciso me efetivar, em que área que eu vou trabalhar aqui? Gostei da produção, vou ficar na produção, da produção o que que eu posso fazer mais? Que matérias eu posso propor? Que projetos especiais eu quero participar? E eu fui me colocando. Os anos foram passando e eu cheguei a esses 20 anos sempre com essa cabeça de qual o próximo passo, qual o próximo momento.

E hoje, quando eu olho desse ponto que eu estou para trás, eu vejo que de fato eu conquistei um espaço que eu nem imaginava. Eu conquistei alguns espaços que eu achei que, pronto, cheguei, agora tá ótimo, é aqui que eu vou ficar e não, era só um degrau para continuar subindo os próximos e é assim que eu enxergo a minha carreira.

Então, eu tenho muito orgulho de tudo o que eu construí, de alguém que teve uma base familiar para que eu pudesse sonhar com essa profissão, na qual ainda era uma grande incerteza quando eu entrei na faculdade, então eu sou muito grata aos meus pais e a educação que eles puderam me dar e a base dentro de casa.

E, mas também sou muito grata a mim, porque eu sou uma grande sonhadora e eu fui movida por tudo isso, pelos meus sonhos, pelas oportunidades que eu pude receber, pelos tropeços, pelas dificuldades, e tudo isso me trouxe até aqui, então eu me orgulho muito e que venham mais 20, mais 20, mais 20.


CE - Antes de ganhar espaço diante das câmeras, você passou muitos anos nos bastidores de grandes produções, incluindo o Jornal Nacional, o Fantástico e o Profissão Repórter. Como foi deixar uma posição em que ajudava a contar as histórias dos outros para também se tornar um rosto conhecido do público? Houve inseguranças nessa transição?
LV -
Sim, eu fui dos bastidores. Eu brinco que eu sou filha da pauta. A produção está no meu coração, é uma área do jornalismo que me formou. Eu trabalhei por muitos anos. A grande maioria da minha carreira está nos bastidores. Daqui a pouco vai ficar igual. Na frente e atrás, mas a grande parte ainda é dos bastidores. E...

Eu continuo sendo uma contadora de histórias. Acho que o jornalista, ele é um grande contador de histórias, independente se ele está nos bastidores ou se ele está na frente da câmera. Porque esse olhar sobre as histórias a gente não pode perder. A diferença é que, hoje, eu conto histórias, né, que chegam até mim. Existem os produtores que vão atrás dessas histórias e me traz as histórias para eu contar, mas eu não deixei de correr atrás das histórias para levar para que a produção também possa oferecer e que eu possa contar.

Então, eu continuo sendo uma grande contadora de histórias. A diferença é que agora eu não só faço a primeira parte. Não só vou atrás da história e dou para alguém contar, agora quem conta sou eu. E eu acho que essa bagagem dos bastidores é o que me ajuda muito a poder ter essa segurança na frente da tela e me ajuda muito a contar as histórias do jeito que eu gostaria que elas fossem contadas. Porque eu tenho muita liberdade criativa no meu processo hoje.

Então, eu sou aquela pessoa que dá ideias, que pensa: como é que eu posso contar essa história de uma maneira diferente? Qual que é a cereja do bolo dessa história? Qual é o tom dessa reportagem? Como é que eu posso experienciar isso que eu vou contar para poder mostrar para as pessoas que estão assistindo?

Como é que eu posso ser respeitosa nessa história? Qual é a versão da Letícia que vai estar aqui nessa matéria na hora de contar essa história? Então, esse processo criativo, não de bastidor, ele continua comigo, mas que me leva para o que, para fora, mas como eu vou contar para frente da câmera.

E, sim, houve muita insegurança nessa transição, porque não é simples você sair dos bastidores e passar a aparecer. Você se coloca à prova de muitas coisas. De, de críticas, eh, seja do mundo externo ou até autocrítica, eh, e aprendendo com os erros. Eu sou a pessoa que assisto tudo o que eu faço, tudo o que eu coloco no ar, eu assisto. Mas não é com um olhar de depreciação, mas é um olhar do que eu posso melhorar ou o que foi legal.

Às vezes eu identifico coisas que eu não acho legal, falo: "Ah, aqui não ficou bacana, na próxima eu vou fazer diferente", ou "Nossa, aqui eu gostei muito". Então, eu estou sempre me autoanalisando, me autocrítica, sem me depreciar, mas, e ao longo do tempo eu vou ganhando mais segurança.

No começo não foi simples, porque eu brinquei que a minha primeira experiência aparecendo na frente do vídeo, eu estava na CNN Brasil, e foi literalmente, entre o convite e a minha ida para o estúdio e o programa no ar, uma semana de diferença e, e eu até fiz uma pergunta para a direção na época, dizendo: "Vamos fazer um piloto?". E eles me responderam: "É, piloto no ar". Então, exatamente foi isso, eu sou um avião que aprendeu a voar no ar. E foi trocando pneu, foi trocando turbina e assim vai.

A jornalista e comunicadora Letícia Vidica é a Capa exclusiva do Correio B+ desta semana - Foto: Estúdio Lookatme - Diagramação: Denis Felipe - Por: Flávia Viana


CE - Sua carreira passou pelo jornalismo factual, pela liderança de equipes e, agora, pelo entretenimento da Globo, em atrações como Encontro, Mais Você e É de Casa. O que essa nova fase despertou em você como comunicadora? Existe alguma história ou encontro recente que tenha transformado sua maneira de enxergar a profissão?
LV -
Acho que essa nova fase só reforçou o quanto eu gosto de ser comunicadora, o quanto eu gosto de estar com gente, com pessoas. Eu trabalhei muito tempo fechada em redação e cheguei a pensar em alguns momentos que eu estava em lugar de conforto e que não trabalhar na rua não era para mim.

Mas, quando eu passei a trabalhar na rua, eu vi o quanto é bom a gente ficar na rua, estar com gente, contar histórias. Então hoje, é, é o oposto. Eu gosto muito mais de estar na rua gravando e tal do que ficar fechada. Mas acho que essa fase, essa nova fase desperta em mim essa Letícia comunicadora e versátil, porque, apesar de estar no de estar no entretenimento, é óbvio que a gente está muito mais para o lado da diversão, da leveza, mas hoje a gente não está longe dos factuais.

Então, essa nova fase mostrou a minha versatilidade, que eu sou aquela repórter que, se precisar se fantasiar no carnaval, vai se fantasiar, mas se tiver que ir para a porta de uma delegacia dar uma notícia séria, também vai. São experiências que ao longo desses quase três anos, como repórter do entretenimento, eu tive, e, e eu tenho feito isso e vou também me testando.

Existem várias histórias que transformaram a minha maneira de enxergar a profissão, mas eu tive uma recente, que foi, eu fiz uma peregrinação acompanhando mulheres que tiveram câncer de mama até a aparecida do até aparecida. Elas caminharam 100 km, eu acompanhei elas nos últimos 50 km.

Foi uma peregrinação pelo Caminho da Fé, e foi uma matéria que recentemente me transformou muito, porque, primeiro, que eu fui falar sobre uma coisa que eu acredito, que é muito, que é muito importante para mim, que é a minha espiritualidade, e segundo, porque eu tive que me colocar ali naquele lugar, né, em não só enquanto jornalista, mas como ser humano também, e vivenciar aquela caminhada para eu poder contar de verdade.

Eu não consigo fazer nada onde eu não vivenciei. Se eu tiver que fazer uma matéria que eu tenho que comer, eu vou comer. Eu não passa pela minha cabeça poder dizer alguma coisa que eu não fiz. E, isso é a credibilidade e a veracidade do jornalista que nem a gente carrega no DNA.

Então, esse momento me marcou demais pelas mulheres que eu conheci, eu me emocionei demais na caminhada, chorei, fiz amizades, pensei na minha vida, pensei em familiares, e me desafiei também, porque eu não sou uma pessoa, apesar de praticar exercícios físicos, eu não sou uma pessoa que caminha. Eu não corro, eu não caminho longas distâncias, e eu consegui. Então, foi muito importante para mim.

E depois também o retorno que eu tive. Que eu compartilhei sobre essa experiência nas minhas redes sociais também, o retorno que eu tive das pessoas sobre, olha o quão importante foi você trazer essa história, me só me confirmou algo que eu ouvi nessa caminhada de uma pessoa que estava lá, de uma médica, a Dra. Fabiana Mac disse, de que eu sou um canal. E eu acho que eu nunca tinha parado para pensar desse, dessa maneira: eu sou um canal, ou seja, a gente capta as informações, mas a gente também transmite.

E como, e a maneira como eu vou transmitir isso e a maneira que isso vai impactar quem está me assistindo, ela é de extrema responsabilidade e de um impacto que às vezes a gente não faz ideia, porque, de fato, isso pode mudar a vida de uma pessoa. Então, isso me tocou muito profundamente.

Acho que essa nova fase só reforçou o quanto eu gosto de ser comunicadora, o quanto eu gosto de estar com gente, com pessoas. Eu trabalhei muito tempo fechada em redação e cheguei a pensar em alguns momentos que eu estava em lugar de conforto e que, ai, não, trabalhar na rua não era para mim.

Mas, quando eu passei a trabalhar na rua, eu vi o quanto é bom a gente ficar na rua, estar com gente, contar histórias. Então hoje é o oposto. Eu gosto muito mais de estar na rua gravando e tal do que ficar fechada. Mas acho que essa fase, essa nova fase desperta em mim essa Letícia comunicadora, é, e versátil, porque, apesar de estar no de estar no entretenimento, é óbvio que a gente está muito mais para o lado da diversão, da leveza, mas hoje a gente não está longe dos factuais.

Então, essa nova fase mostrou a minha versatilidade, que eu sou aquela repórter que, se precisar se fantasiar no carnaval, vai se fantasiar, mas se tiver que ir para a porta de uma delegacia dar uma notícia séria, também vai. São experiências que ao longo desses quase três anos, como repórter do entretenimento, eu tive, e, e eu tenho feito isso e vou também me testando.

Existem várias histórias que transformaram a minha maneira de enxergar a profissão, mas eu tive uma recente, que foi, eu fiz uma peregrinação acompanhando mulheres que tiveram câncer de mama até a aparecida do até aparecida. Elas caminharam 100 km, eu acompanhei elas nos últimos 50 km.

Foi uma peregrinação pelo Caminho da Fé, e foi uma matéria que recentemente me transformou muito, porque, primeiro, que eu fui falar sobre uma coisa que eu acredito, que é muito, que é muito importante para mim, que é a minha espiritualidade, e segundo, porque eu tive que me colocar ali naquele lugar, em não só enquanto jornalista, mas como ser humano também, e vivenciar aquela caminhada para eu poder contar de verdade.

Eu não consigo fazer nada onde eu não vivenciei. Se eu tiver que fazer uma matéria que eu tenho que comer, eu vou comer. Eu não passa pela minha cabeça poder dizer alguma coisa que eu não fiz. Eh, isso é a credibilidade e a veracidade do jornalista que nem a gente carrega no DNA.

Então, esse momento me marcou demais pelas mulheres que eu conheci, eu me emocionei demais na caminhada, chorei, fiz amizades, pensei na minha vida, pensei em familiares, e me desafiei também, porque eu não sou uma pessoa, apesar de praticar exercícios físicos, eu não sou uma pessoa que caminha. Eu não corro, eu não caminho longas distâncias, e eu consegui. Então, foi muito importante para mim.

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CE - Ao longo dessas duas décadas, você precisou se reinventar em diferentes momentos, inclusive ao deixar a CNN Brasil e construir novos caminhos profissionais. Qual foi a decisão mais difícil que tomou na carreira e o que aprendeu sobre recomeçar quando já se tem uma trajetória consolidada?
LV -
Sim, a minha carreira, ela mudou muito. Eu acho que eu tive algumas decisões difíceis e importantes ao longo da minha carreira, que foram recomeços para mim e que foram necessários.

A primeira decisão difícil foi decidir sair da TV Globo e ir para a CNN naquele momento. Eu sempre gostei muito de trabalhar na TV Globo. Foram nove anos na primeira temporada muito felizes, onde eu me sentia assim valorizada como profissional, onde eu participei de projetos importantes na televisão. Mas naquele momento, quando eu recebi o convite da CNN Brasil, também fez sentido porque eles me ofereceram um passo a mais na minha carreira.

Eu estava indo ali para ser líder de uma equipe, para uma área mais executiva, algo que eu almejava também. E eu fui com muito medo, porque, né, eu troquei, foi uma troca de algo que estava mais, estava consolidado por uma, entre aspas, uma aposta de algo que estava chegando.

Então não foi uma decisão fácil, mas foi uma decisão importante, porque foi essa virada de chave que me trouxe até aqui novamente. Porque foi lá que, depois da minha passagem como líder, eu fui convidada para ir para os estúdios e fazer um, participar de um programa lá, o CNN Nosso Mundo. E aí a minha carreira muda mais uma vez e mais uma decisão difícil. Me colocar à prova de como, como serei eu enquanto apresentadora, repórter? Eu tive que me desafiar colocando esse avião no ar, trocando o pneu. Foi uma decisão difícil, mas importante.

E aí, uma terceiro, uma terceira virada de chave foi a partir dessa minha aparição na televisão. Eu tive que abrir minhas redes sociais e passei a ser convidada para fazer eventos.

Eu não tinha muito ideia de como eu poderia fazer aquilo, mas eu aceitei e comecei a fazer eventos corporativos enquanto mestre de cerimônias, mediadora, e também foi uma decisão difícil, mas importante que me fez subir nos palcos e me torna hoje essa mestre de cerimônias e essa mediadora que eu também sou hoje e que me levou à criação da minha empresa, que é a Avidica Comunicação, que hoje gerencia essa parte da minha carreira.

E a outra decisão difícil e muito importante foi quando eu saí da CNN e fiquei no mercado sem estar em emissora nenhuma, porque ali eu tive que ver de verdade o quanto o nome Letícia Vidica valia, ter um crachá no pescoço.

E eu fui muito feliz nesse momento também, porque eu tive pessoas que, que me auxiliaram muito, oportunidades continuaram a aparecer, eu foquei nesse meu lado jornalista empreendedora, comunicadora e passei a fazer mais eventos corporativos, fortaleci a minha empresa, aumentei o meu network e sobrevivi nesse período só com o meu nome.

E ali eu percebi que o meu nome tinha peso.
E aí a próxima virada foi aceitar novamente a volta para a Globo, que aí foi uma decisão fácil, mas desafiadora também de agora estar segurando o microfone como repórter. E foi importantíssima para mim.

Então eu acho que a gente tem que estar preparado para recomeçar. A gente, a nossa carreira nunca é, ela está. O meu pai me ensinou isso de que a gente não é, a gente está. Então hoje eu estou em tal lugar, hoje eu estou como tal função, amanhã eu não sei. Então eu acho que é importante a gente estar aberto para os recomeços. E eu acho que tudo é ensinamento, nada vem em vão. Então, e eu sou uma pessoa resiliente e que abraço as oportunidades, acho que essa minha característica me ajuda também a seguir e a me reinventar quantas vezes foram necessárias.

CE - Você idealizou o CNN Plural e se tornou uma das vozes atuantes na discussão sobre diversidade na comunicação. Hoje, ao observar a televisão brasileira, quais mudanças considera conquistas reais e quais barreiras ainda precisam ser enfrentadas para que profissionais negros ocupem cada vez mais espaços de decisão e protagonismo?
LV -
Hoje eu vejo uma televisão, não só uma televisão, mas eu acho que eu vejo os espaços mais plurais e diversos. A gente ainda precisa caminhar em várias frentes, mas antes a gente nem falava disso, e aí no momento onde eu criei o CNN Plural, era o momento onde a gente precisava falar disso. E falar na base do letramento mesmo.

De temas que se letram, em relação à negritude, em relação a pessoas indígenas, a pessoas idosas, a pessoas com deficiência, à comunidade LGBTQIAPN+.

E hoje, olhando especificamente para a causa racial, eu acho que a gente já avançou, porque hoje você já vê na televisão a inserção de profissionais negros nos espaços. Seja enquanto ali na reportagem, na apresentação, com mais protagonismo nas novelas.

E um ponto que eu considero essencial, hoje a gente vê especialistas negros sendo convidados para participar de programas e sendo entrevistados e participando de matérias, em, para falar daquilo pelo qual eles estudaram, e não só a mais apenas para falar de racismo, ou não só para falar que ele foi o primeiro negro, a primeira negra.

Ainda é de extrema importância a gente trazer pautas raciais, falar de situações de racismo, que é um crime, mas o que a gente quer é ser olhado enquanto um profissional, independentemente da cor da nossa pele. E eu acho que esse é um passo que a gente deu.

Então, hoje eu já vejo na televisão, por exemplo, especialistas, médicos, jornal-, médicos, jornalistas, advogados, economistas, cientistas, dermatologistas, e vários outros profissionais que são negros e que estão sendo chamados para estar ali falando daquilo pelo qual eles estudaram. Ou seja, isso é um, isso é um passo importante para a naturalização das nossas presenças.

E eu acho que ainda precisa avançar bastante, porque estamos avançando para que a gente, realmente, em todas as áreas, não só na televisão, mas em todas as áreas, né, profissionais que existem, que a gente de fato possa ocupar também cadeiras e cargos de decisão, porque esses espaços ainda não têm uma diversidade tão grande, a gente já vê profissionais negros com cargos de liderança, mas ainda não somos uma maioria, ou ainda não estamos ali em pé de, é, total de igualdade.

Então, acho que o que falta é isso, mas a gente se olhar o para trás e da época que eu fiz o CNN Plural para o que tem hoje, e, nos espaços de comunicação, por exemplo, a gente já deu passos significativos.

Letícia Vidica - Divulgação

CE - Você já compartilhou a emoção de conhecer Glória Maria, uma das grandes referências do jornalismo brasileiro. Ao mesmo tempo, vem construindo sua própria identidade na televisão. Que marca deseja deixar na comunicação e como gostaria de ser lembrada pelas próximas gerações de jornalistas?
LV -
A Glória Maria é aquela que abriu o caminho. Ela e tantas outras pessoas da geração de glória, como Dulcineia Novaes. Tantas outras jornalistas pretas contemporâneas de glória abriram caminho para que várias outras chegassem. E aí eu venho nessa atrás. Nessa segunda ou terceira onda de jornalistas pretas que se formam e que ocupam, começam a ocupar os espaços na comunicação.

Não por isso, eu e a Cris Guterres, outra jornalista admirável, amiga, criamos Herdeiras de Glória Maria, que é um coletivo negro que hoje de um coletivo de jornalistas pretas que hoje agrega quase 90 mulheres, que estão aí presentes nos diferentes veículos de comunicação, diferentes faixas etárias. E que foi que é um grupo importante, né, que ajudou a gente se achar e se enxergar.

E eu acho que a marca que eu quero deixar, e, na comunicação, eh, para ser lembrada pelas próximas pelas próximas gerações, eu acho que é de alguém que de uma grande contadora de histórias, de alguém que se desafia, de alguém que que mostrou que que é capaz de mostrar essa versatilidade que eu tenho. De que a gente não é uma coisa só, de que a gente pode estar atuando em várias frentes e isso é a soma do profissional que a gente é.

E eu quero que as próximas gerações olhem para mim e não só pensem, ah, eu posso ocupar esse espaço, mas tenham certeza de que existe espaço para elas, né? E para que elas possam ser a profissional que elas são, do jeito que elas quiserem, né, independentemente da cor da pele, que alguém veja ali a profissional que ela é.

Então, acho que é essa marca, que é a marca de quem traz leveza, alegria e muita responsabilidade e credibilidade em tudo aquilo que que fala e que diz. E eu quero seguir tocando as pessoas, levando boas mensagens para elas, para que elas um dia parem e pensem, nossa, eu ouvi isso numa reportagem que a Letícia fez, eu lembro de tal coisa. Que uma pessoa nesse universo lembre disso, eu já ficarei muito feliz.

CE - Além da televisão, você também se descobriu empresária à frente da Vidica Comunicações. Como surgiu essa vontade de empreender e quais desafios encontrou ao assumir o controle dos próprios projetos? Existe um lado da Letícia empresária que o público ainda não conhece?
LV -  
A criação da Vidica Comunicações foi um processo natural, inesperado e necessário. Eu nunca, eu não me imaginava enquanto empresária e nem achava que eu poderia empreender na comunicação, mas foi justamente nesse período onde eu fiquei fora das emissoras e eu já vinha fazendo eventos corporativos, que eu decidi começar a trabalhar para mim.

Eu passei por algumas agências, né, fiz parcerias com algumas agências para que pudessem me vender ali o meu media kit, meu portfólio para poder fazer eventos, isso foi num primeiro momento muito importante para mim, porque eu não entendia muito sobre esse mercado. E aí até que num determinado momento eu me vi ali, e conhecendo as pessoas, sendo acionada diretamente para poder fazer trabalhos, e comecei a me arriscar.

E a coisa foi crescendo e eu falei: por que não criar uma empresa onde eu possa tocar isso. E aí nasceu a Vidica Comunicações. Num primeiro momento, né, acho que todo, todo micro, todo microempresário fez isso, eu era a pessoa que ia no palco, eu também era a pessoa que prospectava, eu era a pessoa que, que mandava o e-mail, eu era a pessoa que fazia reunião, eu era a minha própria contabilidade, eu era o tudo.

Criei até uma secretária virtual imaginária para passar a responder alguns e-mails no momento. Mas aí depois a coisa foi crescendo, eu também retomei para a TV Globo e surgiu a necessidade de ter pessoas e parceiros que me ajudassem nisso. Então hoje eu tenho, eh, uma pessoa que me auxilia nisso, que é a minha assessora direta, que é a Rosa Carvalho, que é quem faz essa prospecção e essa, essa ponte para mim.

E tem outros profissionais parceiros que foram chegando e somando naquilo que eu preciso. Na contabilidade, no stylist, nas redes sociais, na fotografia, na maquiagem. E aí quando eu vi, né, eu tinha de fato uma empresa criada não só por um CNPJ, mas de fato estruturado uma empresa e uma coisa que o público não conhece da Letícia Empresária é que eu gosto muito de ser a Letícia Empresária.

É desafiador empreender no Brasil. Eu ainda me sinto uma micro, e porque tem gente que depende obviamente de recursos e fazer a roda girar. Então acho que a grande surpresa é de que a Letícia gosta de ser a Letícia Empresária.

E eu sou aquela pessoa que eu delego bem. Confio nos parceiros que estão ao meu lado, mas não tiro o olho do boi. Estou sempre envolvida em tudo, pensando em tudo, fazendo reuniões de bastidores, e, pensando em estratégias de negócio, como é que a gente pode atingir determinado evento, determinado público, o que que eu preciso melhorar nas redes sociais.

Todo o processo criativo e de como a banda vai tocar nessa empresa, tenho eu como liderança e é algo que não aparece nas redes sociais e que não aparece na televisão, porque, né, as pessoas vão ver no máximo esse meu lado enquanto produto final, que é a Letícia Mestra de Cerimônias, Letícia Mediadora em cima de um palco, que são duas coisas que eu também amo fazer.

Mas a Letícia que trouxe essa Letícia até aquele lugar, isso ninguém vê e é uma Letícia big boss, viu? Uma boa chefe.

Letícia Vidica - Divulgação

 

CE - No Café com Lê, você construiu uma relação próxima com o público ao dividir pensamentos, experiências e conversas que vão além do jornalismo tradicional. Quem é a Letícia quando as câmeras da televisão se desligam? O que costuma fazer para cuidar de si e preservar sua vida pessoal em meio a tantas responsabilidades?
LV -
Realmente, só comentando sobre o Café com Lê, são três anos de Café com Lê. É um projeto que surgiu também nesse período onde eu me descobri empresária e descobri que meu nome tinha força quando eu estava fora das emissoras.

Eu criei o Café com Lê porque eu precisava de conteúdo para as minhas redes sociais, e eu não teria mais conteúdo da minha antiga emissora para ficar postando nas minhas redes sociais. E, quando eu estava na antiga emissora, eu descobri que o público se conectava comigo ali no Instagram. Me assistia, me conhecia, muitos por conta das minhas redes sociais. Nem todos ligavam a televisão naquele exato horário quando eu estava no ar, mas muitos me conheciam mesmo sem nunca ter ligado a televisão naquele determinado horário. E aí eu via a força que aquela comunidade tinha e como seria importante manter esse elo.

E aí eu, que sou uma pessoa que ama café, resolvi criar o Café com Lê para falar de outros assuntos que, naquela época, eu não falava. Eu falava muito só de diversidade e eu queria que as pessoas me conhecessem enquanto comunicadora, que também traria outras pautas para além das pautas da diversidade.

E aí eu inventei o Café com Lê, inventei o bordão "vai um cafezinho aí?" e, com uma xícara na minha casa na mão, um celular, eu comecei a gravar. E, primeiro, eu fazia isso sozinha, depois eu fui tendo auxílio, até que eu consegui chegar a fazer com que uma equipe estivesse junto comigo para me ajudar a captar e editar, que é como eu trabalho hoje. E foi crescendo e foi crescendo e eu fui descobrindo força nesse lugar e o quanto é delicioso poder trazer as minhas ideias, o que eu penso e estar próximo do público nesse projeto que eu criei.

Mas, quando as câmeras da televisão se desligam, a Letícia é... Uma Letícia que gosta do silêncio. Gosta muito de ficar quietinha em casa. É uma Letícia animada também, que gosta de sair, gosta de viajar, que está sempre com a família. Eu estou sempre com os meus pais, com a minha irmã, com os meus familiares, que adoram um churrasco no quintal da casa da avó, e adoram um samba, mas que também precisa, às vezes, ficar no silêncio do seu lar, recolhida, para recarregar as energias. É uma Letícia, e, em alguns momentos mais introspectiva, e, mais silenciosa.

Isso é parte também do meu do meu cuidado na vida pessoal. Tem momentos que eu preciso me aquietar, olhar para dentro, ficar na minha bolha de conforto ali para me recarregar e voltar, porque o trabalho que a gente faz hoje com imagem, na rua exige de muito da gente, inclusive energia. É uma Letícia muito espiritualizada, umbandista, para que eu possa ter uma qualidade de vida melhor, para que eu possa viver melhor, para que eu possa envelhecer melhor e também para que eu possa aguentar o tranco da minha da minha rotina. Então, essa é a Letícia por trás das câmeras.

CE - Você já revelou o desejo de ter um programa de entrevistas, viajar pelo mundo contando histórias e até se tornar uma espécie de Oprah brasileira. Depois de 20 anos realizando sonhos, qual é a próxima grande conquista que deseja alcançar? E o que ainda falta o público descobrir sobre Letícia Vidica?
LV -
Sim, eu quero ser a Oprah brasileira, por que não? A Oprah no sentido do sinônimo mesmo, do tipo, não ser igual, mas pelo que essa mulher significa.

Enquanto uma grande comunicadora, uma grande empresária, um grande nome da comunicação que também atua em várias frentes e que ela tem, dona de um programa importante na televisão mundial, e por que não sonhar com isso um dia? Jogo para o universo, se tiver que ser meu, ele vai devolver.
Minha próxima grande conquista, Hum. Tá aí uma grande pergunta.

Mas, como eu gosto de contar histórias e gosto de viajar, eu gostaria muito de poder viajar o mundo ou ir para fora do país para contar uma grande história. Quem sabe, um passo que eu quero poder realizar profissionalmente e desejo que isso se concretize.

O que ainda falta o público descobrir sobre a Letícia Vidica? Hum. Talvez eu mesma ainda precise descobrir o que eu ainda quero, o que ainda preciso descobrir. A gente é sempre uma caixinha de surpresas. Eu acho que o público sabe muita coisa sobre mim e que eu sou essa jornalista, comunicadora e escritora. Talvez esteja aí. Descobrir a Letícia, redescobrir a Letícia escritora, que também pode ser uma próxima grande conquista.

Eu tenho um livro publicado que se chama "Mulheres Solteiras Não São de Marte", um livro que eu publiquei em 2011, fruto de quando eu fui blogueira. Eu tinha um blog onde eu contava histórias do universo feminino, e eu tenho um desejo de escrever um novo livro.

Eu gostaria que o público me redescobrisse enquanto Letícia escritora, porque uma coisa que eu já disse, eu fiz jornalismo porque eu gostava de escrever. Então, aquilo que me trouxe até aqui, talvez seja um momento de voltar para isso também, em algum lugar aqui da minha vida, para colocar a Letícia escritora de novo para fora e eu gostaria que o público me descobrisse nesse lugar, também.

Mais uma caixinha de surpresas aí.

 

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