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Banco de Edir Macedo transfere carteira podre e oculta prejuízo

O Digimais não é um banco conhecido do grande público. Não tem agências, nem sequer tem, hoje, a possibilidade de transações em pix

Agencia Estado

18/05/2026 - 07h28

O banco Digimais, do bispo Edir Macedo - que está em crise e à venda há mais de um ano -, lançou mão de uma manobra com uso de fundos de investimentos para limpar seu balanço de perdas multimilionárias. Documentos obtidos pelo Estadão e analisados por especialistas mostram que o banco fez com que carteiras de financiamentos com inadimplência de centenas de milhões de reais saíssem de suas demonstrações financeiras. Também vendeu precatórios que estão longe de serem pagos à própria holding de Macedo, em uma transação que pôs auditores em estado de alerta.

O Digimais não é um banco conhecido do grande público. Não tem agências, nem sequer tem, hoje, a possibilidade de transações em Pix. Até 2020, chamava-se Banco Renner, em referência à família gaúcha que fundou as Lojas Renner. Macedo era acionista desde 2009 e, naquele ano, comprou o banco, que foi rebatizado. Sua maior carteira é a de financiamento de veículos. Também tem crescido no ramo dos créditos consignados.

Nas últimas três semanas, a reportagem obteve auditorias sobre balanços do banco nos últimos anos, processos judiciais, contratos e outros documentos que reconstituem a criação e o uso desses fundos de investimentos, que têm o próprio Digimais como seu cotista. Também conversou com pessoas ligadas à Igreja Universal, que relatam, sob condição de anonimato, que o banco tem usado esses fundos para maquiar graves problemas financeiros

'Sinal vermelho'

Peritos e agentes do mercado financeiro ouvidos pelo Estadão descreveram alguns negócios como de "alto risco regulatório" e de "sinal vermelho forte". O Estadão apurou que a PF investiga o banco por supostas fraudes. Procurado pela reportagem, o Digimais não quis se manifestar. A Igreja Universal também não se manifestou.

Com as operações envolvendo esses fundos, o banco declarou ter lucros de R$ 31 milhões no fim de 2025. A manobra fez com que o banco deixasse de declarar pelo menos R$ 480 milhões em créditos vencidos, que deveriam diminuir o resultado declarado do banco.

A conta pode ser maior. Há, no total, um saldo de investimentos de R$ 3 bilhões em fundos que nem sequer puderam ser auditados pela falta de acesso dos auditores oficiais a documentos que comprovam suas demonstrações financeiras. O valor é equivalente a cerca de 75% do valor investido pelo banco em fundos.

'Zé com Zé'

O que chama mais a atenção é que os fundos têm o próprio Digimais como cotista. Parte desses negócios tem, portanto, o banco dos dois lados do balcão - operação conhecida como "Zé com Zé" no mercado financeiro.

Em mais um movimento que tirou ativos podres de seus balanços, o banco Digimais cedeu uma carteira de financiamentos de veículos que incluía até contrato rescindido judicialmente porque o carro vendido era roubado.

A carteira foi repassada a um pastor de outra igreja. Em troca, o banco devia investir em um negócio que envolvia a venda de imóveis por meio de crédito consignado. Mas o banco não teria depositado cerca de R$ 30 milhões prometidos.

O fotógrafo Rodrigo Menezes Martins decidiu ir à Justiça após comprar um carro que não saía do mecânico. Martins tentou desfazer o negócio, mas a revenda se negou a devolver o dinheiro e o banco passou a cobrar o financiamento.

A Justiça suspendeu a cobrança. O carro não funciona. Mesmo assim, as cobranças não pararam. "O Digimais cedeu o contrato a outra empresa. Já faz dois anos que estou nessa situação. E ele (o banco) só me cobrando, contra a ordem judicial."

Já o técnico de sistemas de segurança Rafael Cascardi, que comprou um Celta 2014 de um revendedor credenciado com financiamento no Digimais, foi parado pela polícia porque o carro era roubado. Ele conseguiu na Justiça a rescisão do contrato.

Mas nos dois casos, o Digimais não responde mais a esses processos judiciais. Em seu lugar, quem trava a disputa é a Hatikvah Participações.

Consignados

A Hatikvah tem como sócio o empresário do mercado financeiro e pastor Tiago Gouvêa, que atua no ramo de consignados. Ele é pastor de uma igreja evangélica chamada Alive Church.

A Hatikvah Participações recebeu do Digimais os direitos creditórios de uma carteira de financiamentos veiculares em 30 de dezembro de 2025. Segundo um contrato obtido pelo Estadão, a empresa comprou a carteira por R$ 255 milhões.

Em troca, a Hatikvah cedeu, inicialmente, ao banco 35% do Fundo de Investimentos em Participações (FIP) Hatikvah. Hoje, o banco já é dono de 97% do fundo, que investe em duas empresas de empreendimentos imobiliários de Gouvêa. O fundo declara que os aportes são de R$ 711 milhões.

Procurado pelo Estadão, o empresário afirmou que ofereceu ao Digimais a operação de empréstimos consignados a servidores públicos de municípios com os quais ele já tem contrato.

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