Da redação
A reitora Suely Vilela poderia ficar para a história como a mulher que abriu a Universidade de São Paulo (USP) para alunos de escolas públicas, se as greves não tivessem vindo para atordoá-la. Dois grandes embates com o movimento estudantil e sindicatos fizeram com que ela passasse a ser vista por uspianos e governo como uma gestora sem habilidades.
A farmacêutica Suely - que pesquisava venenos de serpentes antes de ser eleita a primeira reitora da USP - agora precisa lidar com as pressões para não deixar o cargo a poucos meses do fim do mandato.
Com pouco trânsito no Palácio dos Bandeirantes, Suely Vilela teve de assumir sozinha o ônus de permitir a entrada da Polícia Militar na Cidade Universitária.
A propaganda negativa do confronto violento com alunos e funcionários na terça-feira ainda pode ter minado mais sua relação com o governador José Serra (PSDB), que já mostrava sua insatisfação com a reitora. Para muitos, no entanto, um processo de destituição do cargo prejudicaria a universidade. O filósofo José Arthur Giannotti resumiu o momento difícil: "Ela deixou de ser magnífica reitora e virou só reitora", diz, usando a forma de tratamento cerimoniosa, comum a reitores no Brasil.
Uma parcela da USP, um gigante educacional com mais de 80 mil alunos, 5 mil professores e 15 mil funcionários, completa 39 dias de paralisação. Os grevistas são minoria, mas já mostraram que têm ousadia para deixar homens da PM em polvorosa. "Eles são intolerantes. Chega um momento em que não aguentamos tanta provocação", bufava o coronel Claudio Miguel Longo, do 4º Batalhão da PM, que comandou o uso da força contra os manifestantes na terça. Visivelmente transtornado, ele não via desproporção no choque entre homens de cassetetes, escudos e armas diante de alunos e funcionários com flores, livros, pedras e garrafas.
Naquele instante, a reitora acompanhava o confronto pela TV. Na reunião de negociação com os manifestantes, mais tarde, enviou o vice-reitor, Franco Lajolo. Desta vez, Suely decidiu abandonar estudantes e funcionários à própria sorte. Dois anos atrás, ela se sentiu traída pelo movimento grevista, cujos integrantes tinham ajudado a elegê-la. Naquela ocupação da reitoria, que durou 50 dias, optou por negociar, deu sucessivos prazos para a retirada e evitou a reintegração de posse pela polícia até o fim
Os alunos e funcionários acabaram deixando o prédio quando bem quiseram. E saíram causando tumulto, num episódio em que molharam com mangueiras quem estava do lado de fora. O preço que Suely pagou foi alto. Literalmente: R$ 350 mil em danos ao patrimônio (entre móveis e computadores quebrados). Politicamente: a indisposição com o governador e a imagem de uma pessoa fraca para lidar com a pressão. (informações da Agência Estado)