É isso mesmo: eles jogam vodca pura sobre os olhos para que a bebida faça efeito mais rápido. Alguns dizem que a prática começou nos Estados Unidos, inspirada por garçonetes de Las Vegas que usavam o truque para ganhar gorjetas. Outros acham que a moda surgiu nos pubs londrinos, como um jogo alcoólico. O fato é que a moda, conhecida como ?vodka eyeballing? tem trazido também os jovens brasileiros aos consultórios de oftalmologistas. E os quadros vão de uma simples vermelhidão à indicação de um transplante de córnea, sob pena de perder a visão.
"É uma mutilação que estão praticando contra eles próprios", diz o oftalmologista Leôncio Queiroz Neto, do Instituto Penido Burnier, hospital especializado em olhos. Ele atendeu dois casos nas últimas semanas em que os pacientes confessaram terem sido influenciados pelas dezenas de vídeos do Youtube que mostram jovens praticando o ?vodka eyeballing?. Há entre eles até um brasileiro famoso: o cantor Tico Santa Cruz, do grupo Detonautas. Procurado pela reportagem, ele não se pronunciou sobre a prática.
Queiroz diz que, no começo do ano, já tinha atendido um paciente com quadro semelhante, mas o jovem alegou que o espirro de vodca nos olhos havia sido acidental. Assim como o olho absorve os colírios, ele também absorve a vodca, explica o profissional. Isso ocorre por meio da conjuntiva, que é a mucosa que reveste o órgão. Ao mesmo tempo, o álcool provoca uma descamação desse tecido, levando a sérias consequências.
Queiroz Neto diz que a mucosa do olho não é como a do estômago. "Quando alguém bebe vodca, a mucosa do estômago não é muito afetada porque é protegida pelo ácido clorídrico, que faz a digestão. A conjuntiva é desprotegida, por isso o álcool queima, desidrata", esclarece.
A oftalmologista Ana Luisa Hofling Lima, do Hospital 9 de Julho, também já atendeu pessoas com lesões na córnea que confessaram terem feito algo parecido. "É possível absorver o álcool pelo globo ocular e até mesmo pelas cavidades nasais, mas o risco de irritação é gigantesca", afirma.
Apesar de não existirem estudos sobre o assunto, especialistas acreditam que a quantidade de álcool que pode ser absorvida pelo olho não seria suficiente para embebedar uma pessoa. "Não se pode dizer que a absorção feita pela conjuntiva seja mais rápida. Além disso, qualquer substância que não foi preparada para ser pingada no olho vai trazer malefícios", explica o oftalmologista Virgílio Centurion, diretor do Instituto de Moléstias Oculares de São Paulo. "Não estamos aqui para julgar, mas essa prática é, no mínimo, bizarra".
Para Queiroz Neto, a ilusão de se ter um ?barato? com o eyeballing vem do fato de que quem o pratica normalmente já está alterado. "Não acredito que as pessoas fiquem bêbadas com isso, que aumente a ?viagem?. Deve dar um frescor, um gelo, algo assim, mas já estão tão bêbados que não se pode potencializar ainda mais a sensação".