As revistas para entrar, sair e circular pelo Complexo do Alemão, no Rio, já incomodam os moradores do conjunto de favelas. Eles se sentem constrangidos com as constantes abordagens em que são revistados e obrigados a abrir pacotes e pertences. Carros também são inspecionados.
As mulheres reclamam da falta de discrição e de respeito de alguns policiais. "Tem uns que vêm com grosseria, mexem nas coisas e vêm encostando", diz a manicure S. Uma jovem mãe saiu reclamando após ser obrigada a tirar o bebê do carrinho e abrir o pacote de fraldas. A mamadeira caiu e o bico sujou. "Não tem bandido mais aqui não."
O motorista de uma perua Kombi disse que sua filha de 15 anos não quer mais sair de casa, pois é parada e revistada toda vez que encontra os policiais. "Para chegar da rua até aqui, ela foi parada quatro vezes." Ele diz que a menina usa tatuagem, "mas nunca teve nada com ninguém do crime".
Outra garota foi obrigada a levantar a blusa e teve de colocar todo o conteúdo de uma bolsa na calçada, num beco da Rua Joaquim de Queiroz. Ela tinha sido abordada por policiais civis e saiu reclamando, mas não quis falar com a reportagem.
Policiais civis e militares são os principais alvos das reclamações. "Não dizem nem bom dia, nem obrigado. São grossos e mal educados", reclamou um morador antigo da Rua Central. Ele elogiou a abordagem dos soldados do Exército. "Falam pouco, mas são educados."
Rajada de tiros
No quarto dia de ocupação pelas forças de segurança, uma rajada de tiros quebrou o silêncio da madrugada, ontem , no conjunto de favelas do Complexo do Alemão, no Rio. O tiroteio ocorreu por volta de 1h30min na favela da Fazendinha, numa área vigiada pela Polícia Militar (PM).
Os traficantes teriam disparado contra os policiais e estes revidaram. De acordo com a PM, o confronto não deixou feridos. O enfrentamento foi rápido, mas assustou os moradores. Foi o primeiro incidente após a ocupação das favelas e pode indicar que ainda há traficantes armados no complexo.
De manhã, policiais do Batalhão de Operações Especiais (Bope) e da Divisão de Capturas da Polícia Civil fizeram uma varredura no local de onde teriam partido os tiros. Eles revistaram casas, barracos e becos em busca de armas. Um homem foi preso, mas no momento da prisão ele não estava armado.
O Exército reforçou os bloqueios nas ruas que dão acesso à região. Barricadas com sacos de terra e areia foram montadas em algumas ruas. Os soldados permanecem entrincheirados durante a noite para evitar as balas. As revistas, que vinham se tornando mais rápidas, voltaram a ficar rigorosas. Na Rua Canitar, foram instalados obstáculos com cruzetas de trilhos para obrigar à passagem de um veículo por vez.
Os tiros da madrugada deixaram mais tensos os soldados que fazem o cerco ao complexo. No início da tarde, eles entraram em posição de tiro numa travessa da Rua Paranhos, depois de terem, supostamente, avistado homens com armas no Morro do Alemão.