“Nada no mundo ameniza minha dor, mas eu preciso defender a memória do meu filho que morreu inocente. Ele tinha tantos planos para o futuro. Quero que esses bandidos fiquem presos para que outras pessoas não sofram a dor que eu senti”. O desabafo é de uma mãe que hoje chora um ano da morte do filho, um jovem de 17 anos que morreu vítima de um disparo de arma de fogo ocorrido durante um assalto no dia 17 de fevereiro do ano passado no bairro Jardim Tarumã, em Campo Grande. Ela conversou com o Portal Correio do Estado no dia em que peritos realizaram a reconstituição do crime ocorrido em dezembro de 2010.
Ontem, Maria Aparecida dos Santos, a Cida, mãe de Paulo Henrique Rodrigues, conhecido pelo apelido carinhoso de Paulinho, se preparava para comprar flores e ir até a missa que marca a data. Para ela a intenção dos protestos feitos com pedido de justiça não é apenas para amenizar uma dor que não pode ser amenizada nunca, mas para fazer com que os acusados pagem pelo fim da vida de seu filho.
Paulinho foi atingido por um disparo que acertou o coração quando trabalhava na bicicletaria do padrasto em frente a mercearia Vidal, que foi assaltada. Dois homens praticaram o crime. Um permaneceu do lado de fora em uma motocicleta quando o outro, armado, adentrou ao recinto, anunciou o roubo e saiu. Alguém teria gritado pedindo socorro e o bandido então disparou a arma que acabou acertando o adolescente que estava do outro lado da rua.
Entre lágrimas ela contou ao Portal Correio do Estado que, depois de atingido,ele chegou a pedir socorro ao padrasto dizendo que tinha sido baleado. Paulinho foi levado a um posto de saúde mais próximo do local, mas já chegou sem vida à unidade.
Um dia após a morte de Paulinho a polícia prendeu Marcelo de Souza Ribeiro, 19 anos e Alessandro da Anunciação, 27 anos. O tiro teria partido de uma arma calibre 45 utilizada por Marcelo. Na ocasião, a dupla levou R$ 600 do estabelecimento.
Alessandro esperava por Marcelo em uma motocicleta em frente ao mercado. Ele estava evadido do sistema penitenciário e possui passagens pela polícia por roubo, homicídio, receptação e estelionato. A ficha de Marcelo tem receptação, porte ilegal de arma e roubo. O revólver utilizado no crime foi encontrado enterrado no quintal da casa de Alessandro, no bairro das Perdizes.
Dor de mãe
A dor de Cida, como é conhecida entre os amigos a mãe de Paulinho, se repete todos os dias nos vários rostos tristes de mães que perderam seus filhos para o mundo do crime. Alguns se envolveram com drogas, outros foram vítimas de assaltos, acidentes irresponsáveis. E em cada depoimento, um único sentimento. A dor é “irreversível”.
A empregada doméstica Ângela Chavez, perdeu o filho no dia 07 de novembro de 2009. Aos 17 anos, Roney Chavez já tinha várias passagens pela polícia. Era usuário de drogas e foi morto à tiros por um grupo de menores que, segundo a mãe, passaram três meses apreendidos e logo foram liberados. “Eu nem sei direito como tudo aconteceu. Sei que ele estava em casa e saiu com dois colegas que o chamaram para tomar tereré. Por volta das 4h da tarde veio a notícia de que meu filho estava morto”, relembrou.
“Ele ficava mais preso do que pra fora e me dava um pouquinho de dor de cabeça”, amenizou a mãe. Ela diz que chegou a internar o garoto em uma clínica de reabilitação mas atribui às más companhias o fato de ter perdido o jovem.
Ângela recordou com tristeza o momento em que o vizinho ofereceu à filha, uma jovem de 15 anos, uma carona para que fosse ver o irmão que tinha sido baleado. “Ela não foi porque eu sempre avisei para não pegar carona com ninguém e me chamou. Eu estava indo lá quando dei de cara com a polícia na porta da minha casa. Eles me levaram até lá. Tenho costume de prestar atenção na roupa dos meus filhos quando eles saem de casa e quando cheguei no local avistei o chinelo dele de longe. Só dava para ver os pés porque o corpo estava coberto”, narrou a mãe. De acordo com ela o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) chegou para prestar socorro mas ele já estava sem vida.
“A minha reação foi igual a de todas as mães que perderam o filho numa situação como essa. Me senti muito culpada, eu não fui uma mãe presente, estive ausente. Achei que ele ia mudar quando nascesse a filha dele, mas ele não mudou”, afirmou a mãe. Para ela a neta, uma menina que completa dois anos no próximo mês, ficou como um “pedacinho dele”. “Ainda sinto muita falta do meu filho, ainda não superei tudo o que houve e por isso me atraco no serviço. Para a mãe, o filho nunca morre. As lembranças sempre ficam e ainda hoje dói muito. Às vezes passo por alguém parecido na rua e penso que é ele”, desabafou emocionada.
“Para a mãe, o filho nunca morre.
As lembranças sempre ficam e ainda hoje dói muito”
Separada do marido, a dona de casa se culpa por ter passado muitas horas no trabalho sem condições de dar a atenção necessária aos filhos. “Ele foi muito perseguido pela polícia”, lamentou.
A primeira vez que Roney foi apreendido pela polícia, havia praticado um assalto à um ônibus na companhia de outros jovens. “Foi por causa de mixaria. Eles queriam ir à uma festa e depois foram reconhecidos pelo motorista do ônibus”, conta Ângela. A mãe reclama ainda que as unidades de internação não ressocializam os adolescentes. “Meu filho voltou de lá ainda pior, falando gírias, agindo de maneira agressiva”, reclamou.