Conhecido por reunir multidões de católicos durante as tradicionais quartas-feiras de novena, o Santuário Nossa Senhora do Perpétuo Socorro chega aos 70 anos de inauguração nesta semana com muita história para contar. Essa trajetória começou em 1939, por meio do trabalho de um grupo de padres redentoristas norte-americanos, resultando dois anos mais tarde na edificação da igreja que hoje é a construção religiosa mais antiga da capital sul-mato-grossense. Durante esse período, a igreja (e posteriormente santuário, em 1999) contribuiu para o ingresso e renovação da fé de milhares de famílias estabelecidas em Campo Grande — ao todo, 26.379 batizados e 7.504 casamentos foram realizados no local.
Muitos desses fieis mantém uma relação de carinho e acolhimento com a igreja até hoje, como o casal José de Castro Barros Neto, 81 anos, e Luiza Pavon Barros, 79 anos. Embora tenham se casado na Igreja Santo Antônio, eles passaram a participar da comunidade da Igreja Nossa Senhora do Perpétuo Socorro em 1951, ao mudarem-se para as proximidades do local. Ali batizaram, assistiram à primeira comunhão e crismaram os cinco filhos e também comemoraram com uma missa suas bodas de ouro (50 anos de matrimônio).
O início das construções ainda hoje está na lembrança de José, que é militar porém natural de Campo Grande. A igreja demorou para ser concluída, ficando com uma edificação de um metro de altura por um bom tempo; nessa época, ele costumava brincar junto com as outras crianças no terreno. Outra recordação marcante está relacionada ao próprio processo de construção da igreja. "Sabe de onde veio aquela pedra que brilha (pó de mica), ali da frente da igreja? Da areia tirada do Rio Aquidauana. Os tijolos para a construção do ginásio (ampliação do colégio paroquial) também vieram de lá. Esse material vinha de trem, chegava até o Hospital Geral (hoje Hospital Militar de Área) e depois era transportado em carroças até o lugar das obras", relata.
Mais tarde, após ingressar na carreira militar e já formado, José e a esposa integraram grupo de católicos que trabalhou lado a lado com os padres redentoristas para dar continuidade ao complexo iniciado com a igreja, formado ainda pelo colégio paroquial, administrado pelas irmãs vicentinas. Todos os cinco filhos do casal, aliás, estudaram no local, cursando o ensino médio posteriormente nos colégios Dom Bosco (no caso dos garotos) e Auxiliadora (as meninas).
Nesse momento, os nomes de diversos padres que dedicaram-se às obras da igreja, já abrasileirados, vêm às lembranças do casal. "O padre Eduardo (sic) Jackson foi quem construiu o ginásio na escola paroquial de Campo Grande (que até então dispunha de ensino somente até a quarta série primária), com a ajuda de grandes fazendeiros e empresários da época. Trabalhamos muito com ele, que ficou dois anos com a gente. Os padres redentoristas trabalhavam muito", recorda Luiza.
Novenas
É também com carinho e admiração que ela menciona o padre Nilo Scheridan, considerado o grande incentivador das novenas. "Na época em que ele era pároco, colocava os garotos que estudavam no colégio paroquial dentro de um ônibus e eles saíam fazendo propaganda das novenas. O meu marido também ajudava, pegava o jipe da igreja e passava pela cidade, com alto-falante, divulgando. Naquela época tinha só três novenas. Tinha vezes que havia muitos padres na igreja, outras não; quando não tinha padre, a gente mesmo ia lá e ‘manda ver’", brinca.
Os frutos desse trabalho pioneiro são colhidos com sucesso hoje — toda quarta-feira, são realizadas 16 novenas no santuário, atraindo cerca de 20 mil pessoas, conforme estimativa da paróquia. Somado esse público ao das missas de sábado e domingo, chega-se a uma frequência aproximada de 100 mil fieis por mês no Santuário Nossa Senhora do Perpétuo Socorro.
Acolhimento
Mais que a estrutura física, os 70 anos de inauguração do Santuário Nossa Senhora do Perpétuo Socorro celebram as pessoas que se dedicam a trabalhar pela igreja, e encontraram nessa atividade uma forma de reencontrar a própria fé. É o caso de Maria Bernardete Angeliere de Mendonça, 74 anos, voluntária desde 1972. Frequentando o santuário todos os dias, onde "faz de tudo um pouco", ela destaca o crescimento do público que frequenta as novenas de quarta-feira. "É gente de todo local, todos os bairros, até pessoas de outras cidades. A igreja cresceu demais, é um povo que chega com sede de Deus, pedindo socorro e agradecendo ao mesmo tempo. Com todas essas tribulações, do que o povo está precisando? Da fé, do carinho dos padres redentoristas", avalia.
O mesmo caminho foi percorrido por ela própria, depois que separou-se do marido, há 25 anos. "A Igreja Nossa Senhora do Perpétuo Socorro é a minha igreja. Foi ali onde encontrei o meu lugar, tive acolhimento nos sofrimentos, nas tribulações. Ai vi que Deus existe e tive as provas da minha graça", concluiu.