Os moradores dos bairros que ficam nos extremos topográficos de Sidrolândia, Cascatinha e Jardim Sul, na parte alta e São Bento, na região mais baixa, vivem atemorizados pela presença desafiadora de facções de menores e adolescentes infratores, a conexão C-2, J.S(Cascatinha 2, Jardim Sul) e a FSB (Família São Bento).
No intervalo entre um enfrentamento e outro com seus rivais, eles se juntam em grupos à plena luz do dia para beber, se drogar, praticar pequenos furtos e intimidar quem ousa desafiá-los chamando a polícia. “Na prática eles nos impuseram um toque de recolher. À noite, o melhor a fazer é se trancar dentro da casa”, informa uma dona de casa, residente na Rua Diogo Cunha, no Cascatinha.
Rose (como foi identificada por razões de segurança) não se intimida e rompeu o pacto de silêncio (não declarado) que seus vizinhos afirmam. Diante de qualquer movimentação estranha, chama a Polícia Militar, que depois de uma meia dúzia de chamadas suas, acaba se deslocando para fazer rondas no bairro. “Eu acabo vencendo pelo cansaço”, informa a moradora, que é mãe de três filhos, o mais velho com 15 anos.
A dona de casa conhece, praticamente desde que nasceram, alguns dos principais líderes da Conexão Cascatinha 2 (Lacraia, Emerson, Gabriel, Tiaguinho). Ela não se conforma com a passividade dos vizinhos que preferem ignorar os abusos dos jovens, mesmo quando eles passam dos limites.
“Recentemente uma bala perdida atingiu a geladeira de uma senhora que mora nas proximidades do cemitério. Com medo, ela nem foi à delegacia registrar ocorrência. Muitas vezes o pessoal das gangues sai atirando de madrugada. Numa dessas ocasiões acabarão acertando alguém”, alerta.
Por conta desta atitude corajosa a dona de casa vem sofrendo retaliações. Sua casa já foi apedrejada por integrantes das facções. Um dos seus filhos, o mais velho de 15 anos, é constantemente alvo de piadinhas. “Se eles cismam com uma pessoa que está passando, tentam intimidar, quando não tomam a bicicleta, o celular ou qualquer objeto de valor”, conta. Pichar muros, inclusive do centro de educação infantil, dos estabelecimentos comerciais, é outra atividade a que se dedicam.
As rondas policiais tem pouca eficácia. Diante da aproximação da viatura, os jovens se dispersam. Quando a PM sai do bairro ele voltam às esquinas, que são os postos de observação para suas investidas, que incluem a prática de pequenos furtos.
Este mesmo cenário de intimação é sentido por quem mora no São Bento, território da F.S.B (Família São Bento). O “quartel general” para o grupo se reunir, é a praça em frente do ginásio de esportes Olegário da Costa Machado. Só nos últimos 12 meses foram registrados três homicídios no seu entorno.
“Enquanto a polícia militar não se instalar aqui no bairro não vamos ter sossego”, reclama dona Leonora Mendonça, residente na Rua Cassiano de Souza. Seu neto, desde março cumpre medida sócio-educativa na UNEI de Ponta Porã. Ele é acusado de ter matado no último dia 10 de março, com uma facada, Aparecido Sobral de Lima.
O crime aconteceu em uma conveniência, que fica a poucos metros da praça. Antes disso, em fevereiro, ele foi acusado de ter baleado outro menor (RCPCL) na Rua Alagoas.
Embora reconheça que ele estava andando em más companhias, ela garante que o neto foi obrigado a assumir o assassinato de Aparecido. “Os garotos estavam bebendo vinho e ele veio em casa pegar uma faca para abrir a garrafa. Ele está preso por um crime que não cometeu”, assegura.
Desde que o rapaz foi levado para Ponta Porã, todos os domingos ela vai visitá-lo. “Meu neto está preso enquanto o verdadeiro assassino anda pela cidade e ainda ri da cara da gente quando passo por ele na rua”.