A morte de da indígena Lurdivane Pires, 28 anos, nesta terça-feira deixou o clima ainda mais tenso no complexo da Aldeia Cachoeirinha, em Miranda – a 206 quilômetros de Campo Grande. A jovem morreu quase três meses depois de um ataque quando uma bomba foi lançada no dia 3 de junho contra um ônibus escolar que levava 30 indígenas de volta à aldeia, depois de aula em uma escola da cidade. Cinco pessoas ficaram gravemente feridas, com queimaduras de 3º grau. Todos estiveram internados na Santa Casa da Capital, mas receberam alta, com exceção de Lurdivane.
Um delegado da Polícia Federal da superintendência de Campo Grande acompanhou, ontem, o translado do corpo da indígena até a aldeia. "O clima está tenso. Nosso povo está revoltado. Esse atentado acabou com a vida de muita gente por aqui, não só a dessa família", disse o cacique Adilson, da Aldeia Cachoeirinha, referindo-se às consequências do ataque ocorrido.
A Polícia Federal deverá permanecer no local por três dias, segundo a liderança indígena. O inquérito que investiga o incidente foi instaurado em junho para averiguar responsabilidades do ataque a ainda está em aberto. A PF informou que não vai divulgar informações sobre o caso, mas segundo fontes, algumas pessoas foram presas mas já estão soltas por falta de provas.
Conflito agrário
Três dias depois do ataque, no dia 6 de junho, o Correio do Estado esteve na Santa Casa e entrevistou Lurdivane, que relatou sobre o episódio. "Foi tudo muito de repente. Só vimos o fogo se alastrar pelo ônibus. A sorte foi que conseguimos quebrar os vidros e sair", lembra-se, com olhar de pavor.
O complexo da Cachoeirinha é composto por seis aldeias, distribuídas em aproximadamente 2 mil hectares, onde vivem 6 mil índios. Em 2007, houve o reconhecimento de terras indígenas no entorno das aldeias que deveriam ter área ampliada em, pelo menos, 50 fazendas vizinhas. A suspeita é de que o ataque tenham acontecido por conta da disputa de terras.
Depois do incidente, não há mais ônibus escolar na aldeia. "A maioria dos índios que estudavam na cidade, desistiram depois do ataque. Há um medo muito grande na aldeia. Somos constantemente ameaçados verbalmente", aponta o cacique que também teme represálias ao informar sobre a origem das ameaças. "Prefiro não falar nada", cita. Não há policiamento na aldeia e quando há algum incidente que envolva indígenas, a PF em Campo Grande é acionada para investigação.