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Rebeldes descobrem cenário nababesco em que vivia a família Kadafi

Rebeldes descobrem cenário nababesco em que vivia a família Kadafi

Redação

25/08/2011 - 08h14
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Um flamenguista entrou na quarta-feira vestido com a camisa do time carioca na fortaleza de Muamar Kadafi, em Trípoli - conquistada pelos rebeldes - em meio a tiros e explosões nas redondezas, para acompanhar o fim anunciado de 42 anos de ditadura. Era Mohamed Firjani, de 19 anos, filho de um diplomata líbio que representava o governo de Kadafi no Brasil até 2007 e agora desertou.

A fumaça espessa de explosões no fundo do complexo de Kadafi e o vai e vem frenético de rebeldes armados até os dentes eram a evidência de que a batalha pela conquista de Trípoli ainda não terminou. Mais de mil pessoas, entre rebeldes e aliados do regime, morreram desde sexta-feira em batalhas pelo poder da cidade. Mas o flamenguista líbio avançava desarmado no meio de rebeldes e jornalistas, com uma certeza:

- Kadafi acabou! Kadafi acabou!

Ricos empresários líbios ofereceram na quarta-feira até US$ 1,7 milhão para quem capturar o ditador. O governo de transição líbio prometeu anistia a quem o prender - rebelde ou fiel ao regime. Mas pairava sob Trípoli o mistério sobre o paradeiro do homem que há seis meses resiste, aterroriza e se diz disposto a morrer pelo poder. Uma pergunta na mente de todos: aonde ele está? O rebelde Marvan Alkaated, de 21 anos, da cidade de Tajura, tem uma suspeita.

- Está todo mundo se perguntando isso. Nós achamos que ele está num dos vários buracos perto do Grande Rio Artificial (uma enorme rede de tubulações e 130 poços que fornecem água a várias cidades na Líbia) - disse ele.

Banheira redonda e som nas cabeceiras
Com um português enferrujado, Firjani, o filho do diplomata que se orgulha de ter jogado para uma equipe júnior do Flamengo quando estava morando com o pai no Brasil, respondeu assim à pergunta se ele falava português:

- Quadra Sul, bloco 306. Morei em Brasília.

Enquanto rebeldes trocavam tiros com partidários de Kadafi em alguns pontos de Trípoli, Firjani descobria ontem, como a maioria dos líbios, a vida de luxo e um pouco da intimidade do homem que se gabava de ter criado um verdadeiro socialismo na Líbia. No complexo Bab al-Aziziya - hoje semidestruído - Kadafi ergueu um verdadeiro museu para lembrar o bombardeio do governo americano de Ronald Reagan, em 1986. Na entrada, pedaços de mísseis estão pendurados como se fossem uma instalação artística.

Na realidade, o museu é um verdadeiro culto à personalidade de Kadafi. As camas e móveis nos quartos de seus filhos foram envidraçados como se fossem quadros preciosos do museu do Louvre. A cama do ditador, como a de um motel de mau gosto, com comandos de som instalados na cabeceira e uma foto cafona de paisagem na parede, também esta envidraçada. No banheiro, construído com material importado da Itália, uma enorme banheira redonda.

O movimento de rebeldes armados e o som quase contínuo de tiros a poucos metros do complexo de Kadafi explicavam a ausência de moradores da capital neste lugar que os rebeldes consideram como seu grande trunfo.

- O jogo acabou para Kadafi, acabou! - dizia Mohamed Shawish, de 30 anos, com seu revólver.

Ele fazia parte de um grupo de rebeldes da cidade de Misurata que veio a Trípoli para reforçar o batalhão de líbios armados que não param de chegar de várias partes do país e ajudar na batalha final pela conquista da capital. Mecânico de tratores transformado em soldado, ele estava com o irmão, Youssef, que ficou cego de um olho nas batalhas de Misurata.

- Eu só quero liberdade. Muitos dos meus amigos e dois tios morreram em batalhas - lamentava Shawish, com um inglês precário, enquanto o irmão mostrava o olho perdido na batalha.

Apesar dos focos de combate e de alguns prédios destruídos, Trípoli continua inteira. Rebeldes colocaram carros bloqueando os cruzamentos de várias ruas para dificultar a eventual fuga de aliados do regime. E qualquer ajuda era bem-vinda. Como a do líbio-americano Ben Alemen, de 40 anos, técnico de uma fábrica no Arizona, que ontem patrulhava uma das principais ruas na entrada de Trípoli. Ele abandonou tudo nos Estados Unidos para lutar pela libertação da Líbia.

- Eu quero este cara (Kadafi) fora daqui. E quero vê-lo sendo julgado em Trípoli - disse Alemen.

Al-Saadi tinha túnel para outra mansão
Mas luxo mesmo da família de Kadafi, líbios revoltados descobriram em outras casas do ditador e de suas famílias, saqueadas por rebeldes e moradores. Como, por exemplo, a mansão de dois andares de Aisha, filha do ditador.

- Não acredito no que estou vendo - espantou-se Muftah Shubri, morador de Nofleen, um bairro em Trípoli, quando descobriu a enorme piscina interna da casa de Aisha, onde um barquinho de plástico ainda boiava na água.

Kadafi e sua família, na realidade, comandavam a Líbia e administravam as reservas do país como se fossem um negócio próprio. Os excessos dos filhos do ditador chocaram muitos no Ocidente. Mutassim, um de seus filhos, teria pagado US$ 1 milhão para contratar a pop star americana Beyoncé para uma festa particular de Ano Novo. Al-Saadi, outro filho, que adorava futebol (chegou a jogar para um time italiano e, até a queda de Trípoli, comandava a Federação Líbia de Futebol) colecionava carros, tinha iates e uma mansão na beira da praia. Ele tem várias passagens pela polícia no Ocidente por uso abusivo de álcool e confusão em festas. Um líbio de Trípoli, Seifallah, de 23 anos, contou como foi o saque à mansão de Al-Saadi, na segunda-feira, pelos rebeldes. Ele saiu de lá com uma calça jeans Diesel e uma garrafa de gin.

- Nós queríamos ter as coisas que ele tinha - contou o rebelde, com uma Kalashnikov no ombro.

Na mansão de al-Saadi, foram encontrados pelo menos quatro carros de luxo na garagem, além de um catálogo da empresa Benetti com uma mensagem escrita à mão com o preço de um iate de 30 metros: 7 milhões. Além disso, havia um DVD de pornografia gay chamado "Boyz Tracks", no meio de um bolo de documentos. Mas al-Saadi estava buscando uma solução para escapar. Rebeldes descobriram uma longa passagem subterrânea que levava para uma segunda mansão, ainda em construção.

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