“Só quando a segunda torre caiu eu tive noção do tamanho da destruição. Percebi que o mundo mudaria a partir dali e que eu estava presenciando tudo de perto”.
Lembra-se o advogado Márcio Magalhães Canedo, 40 anos. Naquele 11 de setembro, ele saiu cedo do alojamento onde morava, na Universidade de Colúmbia, para assistir a uma aula do Mestrado em Relações Internacionais. Fazia exatamente 26 dias que ele havia se mudado para Nova Iorque. “Naquela terça-feira, lembro de ter reparado que o céu estava de um azul inacreditável. Não sei se essa observação é apenas uma maneira de mistificar o dia, mas isso ficou na minha cabeça”.
Ao passar pelo lounge da universidade, reparou que todos os monitores de televisão mostravam um único canal, exclusivo de notícias de Nova Iorque. Ele parou para olhar e viu, naquele exato momento, o avião atingindo a segunda torre do World Trade Center (WTC). “Ficamos absolutamente desentendidos e corremos para o campus atrás de informações. Ainda haviam dois aviões sob comando dos sequestradores e, temendo um ataque à universidade, os alarmes começaram a soar. Ficamos isolados no sétimo subsolo da biblioteca, um abrigo antibombas da 2ª Guerra Mundial, por três horas”.
Sem acesso a qualquer tipo de informação, a maior preocupação de Márcio era a maneira como as notícias chegariam ao Brasil. “Minha mãe estava internada com um problema sério de saúde. Meu pai chegou a ter uma complicação cardíaca quando os ataques aconteceram”.
Por conta do congestionamento nas linhas telefônicas, Márcio só conseguiu contato com os pais no final da tarde. “A Embratel criou um serviço de espera para chamadas aos EUA. Lembro de receber várias ligações a partir das 4h da madrugada seguinte, de amigos que tentaram me ligar durante todo o dia”.
Quando Márcio saiu do abrigo antibomba, a primeira torre tinha acabado de ruir e os outros dois aviões já haviam reaparecido: um atingiu o Pentágono e outro caiu na Pensilvânia. “Eu via exércitos de pessoas que tinham fugido a pé de áreas próximas ao WTC passando pelo campus da Colúmbia, cobertos de fuligem”, relata. Naquela noite, o alojamento de Márcio abrigou dezenas de pessoas que não podiam voltar para suas casas.
O clima de destruição e perplexidade era generalizado. “Mas foi ali que eu tive consciência do quanto os americanos são resilientes e têm capacidade de superação. Três dias depois dos ataques, a Wall Street já tinha voltado a funcionar”.
Exatamente um mês depois, dia 11 de outubro de 2001, Márcio prestou trabalho voluntário na área dos atentados. “Fiz três turnos de 12 horas trabalhando na logística de alimentação dos bombeiros. Ficávamos em uma igreja que se encontrava ao lado das torres e, milagrosamente, não ruiu. Nesses três dias tive uma das maiores lições da minha vida: os restaurantes da redondeza, que não vinham recebendo um cliente sequer, mandavam caminhões e mais caminhões de comida para os socorristas. Era tanta doação que tínhamos que dispensar”, relata.
Do fato de ter presenciado a destruição e a recuperação do coração financeiro dos EUA, Márcio chega a uma conclusão: “Os Estados Unidos colheram o que plantaram, da maneira mais triste e dolorosa possível. As guerras comandadas por eles e as milhões de vidas ceifadas foram cobradas. E quem pagou foram trabalhadores, pais e mães de família que seguiam para o trabalho".