Uma pesquisa realizada pela Federação do Comércio de Mato Grosso do Sul (Fecomércio) apontou que o carnaval é a segunda melhor data, depois do Natal, para movimentar a economia em Corumbá. Estima-se que os cinco dias de folia na Capital do Pantanal vão injetar R$ 5 milhões no comércio local, atraindo mais de 15 mil turistas e lotando a rede hoteleira, os restaurantes, os bares.
Qual o sucesso desse carnaval, que faz parte da cultura local, uma cultura ligada secularmente ao Rio de Janeiro quando a região sofria um implacável isolamento político e geográfico em relação ao Estado, mas se chegava a Cidade Maravilhosa pelos rios Paraguai e Prata? A razão cultural prevaleceu e Corumbá assimilou as influências do Rio, onde o samba no pé foi a maior das heranças.
Hoje, com a prefeitura investindo milhões na sua organização, o desfile das escolas de samba da Capital do Pantanal é o grande diferencial não apenas de Mato Grosso do Sul, mas do interior brasileiro. A presidente da Fundação de Cultura e vice-prefeita da cidade, Márcia Rolon, explica que esse carnaval não é um evento de cinco dias, se prepara a festa o ano todo, gerando milhares de empregos.A presidente da Fundação de Cultura e vice-prefeita de Corumbá, Márcia Rolon, explica que esse carnaval não é um evento de cinco dias, se prepara a festa o ano todo, gerando milhares de empregos.
CORREIO PERGUNTA Como explicar o fato de uma cidade que ficou tanto tempo isolada, política e economicamente, e conseguir assimilar e manter essa chama carnavalesca?
MÁRCIA ROLON: “Acho que justamente por isso...Isolada, Corumbá manteve não só a chama do carnaval, como as características que vieram de Poconé (MT), de Cuiabá, da época do Mato Grosso uno. Com esse tempo separado pelo Rio Paraguai, tendo que atravessá-lo de balsa, a nossa tradição ficou mantida e contida. E o carnaval começou onde no Estado? Aqui. Não tinha estrada, ponte, é uma cidade de pouca influência oriental, por exemplo; mantivemos o siriri, o cururu. Então por isso o carnaval cultural, a quantidade de prédios centenários, a parte toda histórica que a cidade abriga; a retomada, a guerra do Paraguai, nossos fortes Junqueira e Coimbra, e ainda a influencia da Marinha, o início do carnaval. Nossa praça onde acontece o carnaval é de petit pave em formato de Copacabana. Então, queira ou não, estamos muito ligados ao Rio de Janeir. Essa herança foi sendo passada o Mato Grosso.
Qual a sua definição hoje para essa intensa entrega do corumbaense, sua espontaneidade, seu samba no pé?
Paixão, muita paixão. O corumbaense é apaixonado pelo seu lugar e quando tem um foco, aquela escola, a tradição fala mais alto. Se você tem tradição, tem paixão. Nos chamam de bairristas, mas, na verdade, bairrismo é esse amor, essa consciência de que temos diferencial, somos únicos, realmente uma capital cultural dentro do Estado. O que temos que fazer, agora, é nos organizarmos, trabalharmos com essa economia criativa. Vamos fazer uma pesquisa para levantar como gira esse rede que o carnaval provoca, que o (Banho de) São João provoca, quantas pessoas estão envolvidas, e provar que nosso diferencial não é só paixão, mas um diferencial que gera economia para toda cidade e Estado.
Hoje esse carnaval é considerado um patrimônio da alegria entre tantos bens locais. Como é isso?
Sim, justamente por esta paixão, por este diferencial, da maneira como recepcionamos o turismo, a alegria constante que temos em Corumbá. Assistindo desde o ensaio dentro do barracão ou na rua,o ensaio técnico, você vê essa alegria, paixão e fervor, que, as veze,s chega ao extremo. Mas a base que segura é a alegria. Este é um patrimônio que deveria ser destacado no carnaval e hoje é o nosso projeto maior.
O carnaval de Corumbá, na realidade, não é simplesmente uma festa que acontece em apenas cinco dias.
Exatamente, o carnaval é o ano todo. Hoje são mais de mil pessoas envolvidas, segundo pesquisa comprovada, diretamente, e agora estamos tabulando os indiretos. É o ano todo que se trabalha, intensificamente a partir de agosto, onde começa a compra de material para preparar o enredo da escola. Envolve a criação também, o pensar. Quantas composições são feitas por ano, temos dez escolas e onze blocos, e os cordões. Não é uma coisa que se resume ao evento, de cinco dias, é o ano todo. Tem toda essa coisa da competição, o samba que vai ganhar, como será a escola, como acontece no Rio de Janeiro. As fundações de Cultura e de Turismo estão fazendo essa pesquisa quantitativa e qualitativa para comprova que o carnaval não tem começo e fim em cinco dias, é um evento cultural, porém econômico e tradicional.
Então podemos dizer que o carnaval de Corumbá é um negócio lucrativo para todos, cidade, comércio, população?
Com certeza, lucrativo na parte econômica, patrimonial, quando valorizamos o nosso diferencial; lucrativo na parte de alegria mesmo, porque é um momento em que todo mundo se extravasa, abraça, se une, alegria e briga. É também da oportunidade ao terceirizado, como a segurança contratada. É um lucro total, não apenas financeiro, mas em todos os níveis, desde a base ao topo você está trazendo benefícios para a cidade, para a comunidade.
Como a prefeitura pretende trabalhar esse produto para os próximos anos?
O primeiro passo, que vamos iniciar a partir de março, é a conversa com as escolas de samba sobre a sua profissionalização. O que não pode mais é apenas o poder público ser a única fonte de captação de recursos para estas escolas e para o carnaval. Então, estas agremiações tem que se profissionalizarem, ver o carnaval como um grande negócio, a economia criativa que estamos trabalhando. Em 2010 a economia criativa contribuiu com 2,5% do PIB nacional, e temos que alcançar um patamar muito maior em 2016, é uma meta do Sistema Nacional de Cultura. As escolas tem que entender que é possível viver disso e ter capacidade também para captar recursos do setor privado. O setor privado vai ver, sim, a partir do momento que estiverem organizadas, como um bom negócio. Colocar sua marca no carnaval de Corumbá será um bom negócio. Hoje conseguimos trazer uma empresa, a MMX. A ideia é ampliar, pensamos em sistema de cotas. Porém, as escolas tem que enxergar também isso como um negócio e se profissionalizarem.
Pela primeria vez se envolvendo diretamente com esse viés da cultura local, nos bastidores, quais suas impressões da preparação do carnaval, suas nuances, que envolvem toda a cidade?
De encantamento, porque realmente desconhecia. Agradeço profundamente toda a equipe da prefeitura, em especial da fundação de cultura, que está me ensinando a lidar com isso. Para mim está sendo um grande aprendizado. Esse encanamento é justamente por essa paixão, essa força de vontade de todos nos e a intensidade que cada um coloca, a assiduidade nos ensaios, o comprometimento de cada um. Não é um fazer momentânea, como disse, é um fazer de muita responsabilidade e isso nos motivado. Uma de minhas missões é esta, a de conseguir profissionalizar o nosso carnaval; é um desafio que o prefeito Paulo Duarte nos coloca sempre. Mas estou realmente encantada pela paixão desse povo, seu respeito pelo estandarte, pelo mestre-sala e porta-bandeira, o respeito pelo bloco, pelo bloco mirim.
Essa profissionalização que a senhora citou envolveria também vários setores da cidade, como serviços, melhor atendimento ao turista?
Isso é um papel que a Fundação de Turismo está encabeçando, temos que comprovar, com números, que é um bom negócio vir para Corumbá, investir nas ruas potencialidades, sua cultura. Então, a rede hoteleira, os restaurantes, precisam estar juntos. Temos momentos culturais importantes, de alto nível. Recebemos aqui artistas internacionais e temos nosso diferencial, a exemplo do (Banho de) São João e o carnaval. Não temos serviços ainda, mas é uma prioridade da atual administração. Outra questão é: como pode, no último dia de carnaval, a única empresa aérea (Azul) que nos atende cancelar o voo? A gente que precisa ter olhar, mas a empresa também terá que se comprometer, despertar esse olhar para Corumbá. Mas só vamos comprovar, dizer que a empresa está perdendo de ganhar dinheiro, com pesquisas.