O inquérito que investiga a tragédia da Boate Kiss está chegando à reta final. A Polícia Civil de Santa Maria (RS) já tem algumas certezas sobre os indiciamentos, mas restam muitas dúvidas. A maior convicção é a respeito dos quatro presos: os sócios da Kiss Mauro Hoffmann e Elissandro Spohr e os dois integrantes da banda Gurizada Fandangueira - o vocalista, Marcelo de Jesus dos Santos, e o produtor musical Luciano Bonilha Leão. Eles devem ser indiciados por homicídio doloso qualificado - foram 241 vítimas -, com o componente do dolo eventual (quando o autor assume o risco de matar, mesmo sem querer que isso aconteça) e por tentativa de homicídio doloso contra cerca de 500 pessoas.
Também devem ser indiciados, pelos mesmos crimes, pessoas ligadas à boate e que, de alguma forma, exerciam funções na casa noturna, como a irmã de Elissandro, Ângela Aurélia Callegaro, que ajudava na organização das festas e era figura presente na Kiss, e o cunhado dele, Ricardo Gomes, que por vezes exercia o papel de gerente. Assim como a irmã de Kiko, a mãe dele, Marlene Terezinha, também era, no papel, uma das sócias da Boate Kiss, mas nunca teve relação alguma com o funcionamento do estabelecimento. Por isso, ela pode ser indiciada somente por falsidade ideológica.
A participação dos demais músicos da banda Gurizada Fandangueira ainda está sendo avaliada. A possibilidade de eles serem indiciados ainda é pequena.
Quando o foco se volta para as responsabilidades ligadas à prefeitura e aos bombeiros, o caso se torna mais difícil para a Polícia Civil. Quem assinou alvarás liberando a Kiss no que se refere à prevenção a incêndios está na mira. Na prefeitura, a participação de fiscais e secretários municipais nas permissões dadas à casa noturna também é avaliada. Mas a confusa e vasta legislação a respeito do assunto dificulta bastante o trabalho. Por isso, mesmo com o inquérito chegando quase ao seu final, essa questão é tratada com muito cuidado. Mesmo assim, já há uma tendência de que agentes públicos respondam por prevaricação (quando um funcionário público deixa de desempenhar sua função em beneficio de um terceiro).
Uma projeção positiva de um policial ligado ao caso prevê quase 20 indiciamentos, em graus diferentes, tanto com relação ao incêndio quanto a uma suposta omissão do poder público. É praticamente certo que haverá indiciamentos ligados à prefeitura e aos bombeiros. Mas esse é um suspense que vai durar pelo menos até a próxima quarta-feira, quando o inquérito pode ser concluído. Não se descarta que o termino da investigação seja postergado alguns dias.