Vereador de segundo mandato, Mario Cesar (PMDB) foi eleito presidente da Câmara Municipal para os próximos dois anos em um cenário totalmente diferente das gestões anteriores: Legislativo em oposição ao Executivo; aumento do número de vereadores, de 21 para 29; e criação de duas Comissões Parlamentares de Inquérito, do Hospital do Câncer e do Calote. A maior dificuldade foi e, tem sido, a relação com o prefeito Alcides Bernal (PP). A Mesa é unânime ao preconizar necessidade de atender pedidos do chefe do Executivo, mas cobra também reciprocidade necssária para evitar conflitos cíclicos entre os poderes.
CORREIO PERGUNTA. O senhor assumiu um comando diferente das anteriores. Primeiro, pelo maior número de vereadores. Segundo, por ser oposição ao Executivo. E por último, a criação de duas CPIs. Qual sua avaliação deste primeiro semestre exagerademente tumultuado?
MARIO CESAR. Vejo isso como fator positivo para o crescimento como pessoa e como gestor público. Se voltarmos um pouquinho, por conta das eleições, podemos observar que já havia mudança comportamental da sociedade. Essa eleição foi uma eleição difícil, tanto é verdade que apenas 13 se reelegeram. Dos 29, 16 são novos, mesmo que tenhamos o Edil, o Zeca, são novos vereadores. Não tiveram reeleição. E a sociedade deu o recado, a eleição do Executivo foi um termômetro. O prefeito teve muitos votos que eram dele, mas muitos outros de protesto, do “não” a alguma coisa. Chegando aqui faz-se uma Mesa Diretora teoricamente de oposição. Com 29 vereadores você vê que não houve uma base coesa. Existem pessoas que são base de sustentação sim, mas dentro dos nove (integrantes dessa base) você sente que não há sustentação. Eu atribuo isso ao fato de que os vereadores querem fazer algo diferente, esses que são da base, a sociedade espera que façamos isso diferente.
O que mudou após os protestos que levaram centenas de milhares às ruas de todo o País?
Quando a gente fala hoje do Gigante que acordou, e eu até falei isso na Câmara, às vezes questionam; por que essa legislatura está sendo muito mais ativa que as anteriores? Por que essa legislatura está fiscalizando muito mais que as anteriores? Por que houve esse levantamento, esse gigante clamor de todo mundo? Um dos princípios do vereador é fiscalizar. O que exacerbou neste momento foi o modus operandi que o Executivo tem adotado para com a Casa. Talvez não tivesse tanto isso nas gestões anteriores porque o Executivo geria a governabilidade. Quando o prefeito Nelsinho Trad enviava um projeto de caráter emergencial, havia uma discussão antes. A gente tinha direção. Tinha o secretariado que estava todo pronto a atender o Legislativo. Atender, mas não dar um jeitinho para o vereador. É atender porque a demanda não é do vereador, a demanda é da sociedade.
Depois de incluir o Judiciário na briga dos dois Poderes, você vê uma luz no fim do túnel?
Tem que ter, não é que eu ache. Tem que ter porque é bom para todo mundo. Tem que ter essa independência dos poderes, mas que seja harmônica. Isso tem que existir, até para a nossa sobrevivência e a população quer isso. Eu busquei a todo o momento diálogo com o prefeito e muitas vezes não tive resposta, em todo o instante que ele me chamou para o diálogo eu estive pronto para isso. Eu poderia dizer “agora eu não vou”. Em todos os momentos que a Câmara foi acionada nós demos respostas para o Executivo.
Mas a população não acaba interpretando a falta de atendimento a ela como culpa do vereador, uma vez que ela não entende o processo burocrático?
Este desgaste da imagem nós estamos enfrentando, não tenha dúvida disso. O eleitor pergunta: por que eu elegi um vereador para ele fazer a representatividade dentro da minha regionalidade, atender a demanda da sociedade se essa demanda não vem? Fica parecendo que o vereador não fez, não pediu. Só que com o tempo, as coisas começaram a ser notórias porque nós temos os conselheiros regionais, os representantes de bairros e eles também estão vivenciando isso. Para vencer isso, trouxemos os conselheiros regionais para dentro da Casa. Eles se sentiram desamparados pelo Executivo, sentiram-se preteridos, inclusive, nas reuniões dos conselhos quando convocavam secretários e eles não compareciam. Diferentemente dessa situação, nós trouxemos esses representantes para dentro da Casa; discutimos com eles os problemas atinentes a todos nós, para que a conversa chegue à ponta de maneira verdadeira. Quando a gente quer que aconteça a governabilidade, é que a gente passa a ter a prefeitura como uma parceira. Ela não é parceira da Câmara, é parceira de Campo Grande.
O eleitor votou no prefeito Alcides Bernal esperando algo novo. Qual sua avaliação deste primeiro semestre e quanto ao anseio da população?
Essa forma de gestão do Executivo, nem a sociedade campo-grande e muito menos nós vereadores estávamos acostumados. Por conta disso, estamos pagando preço alto, em especial aqueles que precisam dos serviços do poder público municipal, como atendimento em creches, Ceinfs e escolas. Mais além, ainda há o prejuízo econômico. Seja no comércio, no serviço ou na industria. Todos indistitamente não estavam preparados para isso. Aí, dá-se o prazo dos 100 dias, depois, seis meses e tem-se a esperança de que se mude. Por que a esperança que se mude? Porque temos de ter esperança que dê certo...se ele (Alcides Berbal) der certo vai dar certo para todo mundo. Agora, e se ele der errado, vai dar errado para todo mundo.
A sensação de falta de atendimento da população não ficou evidenciada pela invasão ao prédio da Câmara?
Vou separar em dois atos. Primeiro a invasão de quebra-quebra, numa sexta-feira à noite, vou atribuir isso a uma minoria, porque a grande maioria queria ser ouvida de verdade, e nós conseguimos fazer isso em duas ocasiões ao recepcioná-los na Câmara. Tiveram vez e voz nas duas vezes e é isso que tem de ser feito realmente. Desta maneira é que a Câmara está se comportando, com a Câmara Ativa e sessões itinerantes. Quanto mais nós sairmos daqui e mais próximos estivermos da sociedade, mais ouviremos a sociedade e estabeleceremos uma relação priorizando aquilo que nós nos propomos a fazer: representá-la. Essa coisa de ouvir é muito importante. Então essa invasão construtiva, crítica é que queremos.
E os prejuízos da invasão?
O único prejuízo causado foi daqueles que entraram e quebraram alguma coisa, mas eu volto a afirmar: foi uma minoria, pelo tamanho da passeata. A sociedade quer ser ouvida, as pessoas que se misturaram foram pessoas que estiveram nas Diretas Já, pessoas que estiveram no Fora Collor e hoje estão aqui. Não é fingir que ouve na época de campanha e fazer o que quiser agora. Esse é o novo modelo de legislador. Quem não se enquadrar ao que a sociedade quer hoje, vai ficar fora do processo eleitoral.
A Casa tem promovido muita audiência pública. Qual é a avaliação que o senhor faz dos resultados?
As audiências públicas são pontuais. Aprovamos agora uma LDO com 70 emendas parlamentares e por mais que haja um comentário de “colcha de retalhos”, essa colcha veio cheia de buracos e tivemos que remendar toda ela para colocar em prática, e diretrizes básicas, como cidade igualitária, reduzir déficit habitacional, reduzir déficits nos Ceinfs, plano de drenagem para contenção de enchentes. Então foram pontos que realmente precisavam ser inseridos. Muitas dessas emendas parlamentares saíram das audiências públicas.
Pode citar uma delas?
Uma, por exemplo, é a gratuidade do passe de estudante e demais gratuidades. Nós não queremos tirar a conquista de gratuidade do estudante, dos idosos, mas alguém tem que pagar por isso. Quem paga são os usuários de ônibus. Se colocarmos para dentro esse dinheiro da gratuidade, com certeza a conta do passe de ônibus será diferente, só que a gente não pode discutir pontualmente o valor do passe de ônibus, vamos discutir a qualidade do transporte público. Isso surgiu de uma emenda que nós colocamos. Tem várias audiências públicas que retornam para a sociedade em benefício daquilo que foi discutido.