“Uma cidade que progride sozinha”. É assim que Hildebrando Campestrini define Campo Grande. Nesta entrevista, ele destaca as principais transformações da Capital, fala do avanço na quantidade dos empreendimentos e na melhoria da memória histórica. Mas também enfatiza que diversas áreas, como saúde, educação e mobilidade urbana, merecem atenção especial do poder público. Definindo-se como “visceralmente otimista”, Campestrini afirma que “o ser humano, que tem potencial para mudar o mundo, pode resolver os problemas de Campo Grande”.
CORREIO PERGUNTA – Campo Grande completa 114 anos. O que o senhor destacaria na história da cidade?
HILDEBRANDO CAMPESTRINI – Destaco os fatos que, ao longo do tempo, consolidaram Campo Grande como a cidade mais importante do sul de Mato Grosso uno, nas principais atividades. Em 1914, a chegada da Noroeste do Brasil desloca, de outras cidades para cá, grande parte do movimento comercial; a instalação (na década de 1920) dos quartéis e da Circunscrição Militar (hoje CMO) trouxe à cidade o status de capital estratégica de vasta região oeste do Brasil; a revolução constitucionalista (1932) transformou Campo Grande em centro tão importante como Cuiabá, provocando a bipolarização da política mato-grossense; a criação de Mato Grosso do Sul (1977) acabou por consagrá-la capital. Hoje Campo Grande deve ser a única capital que é, ao mesmo tempo, centro geográfico, demográfico, político, econômico e estratégico de seu Estado.
Campo Grande, em toda sua história, recebeu muitos migrantes. Essa característica, de alguma forma, compromete a identidade da cidade?
Não entendo esta preocupação com a identidade. Vivemos bem sem ela. Aliás, pode-se afirmar que nossa identidade é não termos identidade. Formamos uma babel bem organizada, em que todos se respeitam. Há uns dois anos, atendi a uma delegação de técnicos africanos (de oito países diferentes). A primeira pergunta que me fizeram: – Como vocês conseguem viver em harmonia, havendo gente de todas as partes do mundo? Respondi: – O que nos une é o trabalho, a vontade de crescer, de buscar o sucesso; formamos uma cidade mercantilista, onde todos são potenciais clientes ou fornecedores. Não há espaço para segregações ou preconceitos. Mais: a chegada de migrantes só poderia interferir na identidade, se a cidade já a possuísse.
Qual sua avaliação quanto à preservação de monumentos históricos em Campo Grande?
Quando se observa isto ao longo do tempo, podemos afirmar que Campo Grande está amadurecendo, e bem, nesta política de preservação, que começou a desenvolver-se na década de 1990. Antes não havia preocupação; derrubava-se e pronto, como aconteceu com o palacete do dr. Vespasiano, verdadeira obra-prima arquitetônica, e com a igreja de Santo Antônio, que podia estar preservada (a engenharia está aí para isso). Hoje tais prédios não seriam derrubados – a própria população não permitiria. Isto consola e nos garante que a cidade, mesmo jovem, tem preocupação, sim, com seu patrimônio, com seus monumentos históricos.
Uma questão que se discute quanto à fundação de Campo Grande é a possível vinda de Eva Maria de Jesus e outros ex-escravos de Minas Gerais e Goiás na mesma época em que chegava José Antônio Pereira. Tia Eva seria cofundadora da cidade?
É importante esclarecer que tia Eva chegou a Campo Grande no início do século 20. Não há, nos relatos anteriores ou contemporâneos à fundação do povoado de Campo Grande, qualquer informação sobre existência de comunidades negras nesse sítio. Poderia, talvez (não foi provado ainda), existir, em início de formação, a Furna dos Dionísios, se habitada por escravos egressos da fazenda de Camapuã, por volta de 1850. É sabido que, em 1872, quando José Antônio Pereira chegou a este lugar, já havia moradores aqui (João Nepomuceno e mulher) e nos arredores (os Motas, entre Indubrasil e Terenos; o Paula, na atual Lagoa da Cruz, que se chamava Lagoa do Paula, por onde passou Taunay em 1867). Releva esclarecer: fundador não é o que chega primeiro; fundador é aquele que, liderando um grupo, forma a comunidade, constrói igreja, consegue instalar agentes do poder público, reserva área para a fixação dos habitantes. José Antônio Pereira registrou em Nioaque, em 1894, uma légua quadrada (3.600 hectares) para o rocio do Arraial de Santo Antônio de Campo Grande. Medida e demarcada, a área era de pouco mais de 5.500 hectares. Não há como negar que os méritos de fundador pertencem a José Antônio Pereira.
Muitas pessoas desconhecem as transformações pelas quais passou a cidade. Não sabem, por exemplo, que a Praça Ari Coelho era cemitério e que sob a Maracaju há um córrego. Que outras mudanças o senhor poderia destacar e que são pouco conhecidas?
Estas mudanças, ou transformações, são mais ou menos conhecidas à medida que as pessoas testemunharam, ou não, o fato. Eu conheci o córrego da Maracaju (cujo nome original foi Vertente do Dr. Arlindo) ainda a céu aberto, provocando inesquecíveis enchentes. A Praça Ari Coelho, conhecida por décadas como Jardim Público, não foi, na totalidade, cemitério, restrito a uma área bem pequena, mais ou menos onde está o parque infantil. Outras curiosidades: a Avenida Calógeras chamou-se, até 1918, Rua Santo Antônio; a Rua Padre João Crippa nasceu com o nome de 15 de Agosto, mudado depois para Constituição; a atual Rua 26 de Agosto chamava-se Afonso Pena; o São Francisco era, inicialmente, Cascudo, nome mudado por sugestão do bispo D. Orlando Chaves, em homenagem ao orago do bairro; a região da atual Rua 25 de Dezembro para cima era o Campo de Marte, porque ali se instalou o primeiro quartel (onde hoje é o fórum); a área do cemitério Santo Antônio foi doada por Amando de Oliveira, que, assassinado pouco depois, foi o primeiro a ser nele enterrado.
O que pode ser feito para melhorar a memória histórica do campo-grandense relativa à cidade?
A memória histórica da cidade vai bem; é animadora a publicação de trabalhos sobre a cidade. Em 1992, circulava praticamente só uma apostila mimeografada sobre a cidade. Hoje calculo em mais de duzentas as publicações que tratam de Campo Grande. Sem dúvida, uma estatística confortadora. Ainda é de se ressaltar o interesse (este ainda de poucos) de preservar documentos e fotos, encaminhando-os a instituições que zelem por eles. O Instituto Histórico recebe, para preservar, todo e qualquer material de caráter histórico.
Como o senhor imagina a Campo Grande do futuro?
Campo Grande pode ser projetada a partir do presente. É uma cidade que progride sozinha – basta o poder público não atrapalhar e criar a infraestrutura necessária. É suficiente constatar o número de empreendimentos imobiliários, de shoppings e a ampliação do aparato bélico (em função da fronteira, hoje território do tráfico). Isto mostra que o futuro será de cidade bem instalada, com recursos, segura, estratégica, com qualidade de vida.
Mas não há problemas em algumas áreas?
Analisando-se, outras áreas (nestes últimos dez anos), três merecem atenção. 1ª – O atendimento à saúde precisa melhorar; é, acima de tudo, questão de gerenciamento. 2ª – A educação municipal também precisa melhorar. A performance na educação não se mede por estatísticas; mede-se pela diminuição de atos infracionais e de crimes; pelas árvores preservadas, pela limpeza das ruas, pelo exercício da cidadania, pela solidariedade, pela participação responsável. Estatística de aprovados ou reprovados é ficção. A escola deve formar cidadãos, conscientes e praticantes de seus deveres e direitos – aprovados ou reprovados, pouco importa. A solução, parece-me, é criar e implantar um projeto pedagógico eficiente, nascido da sociedade e não dos técnicos. A Secretaria de Educação não pode ser só de administração escolar. 3ª – A mobilidade urbana merece cuidados. O que se busca é a fluidez, condições de ir e vir sem sobressaltos. Que fez o poder público nestes últimos anos? Na contramão da pós-modernidade, instala diariamente mais e mais semáforos e obstáculos. Isso é regredir. Precisamos ser criativos, encontrar a solução adequada. Enquanto os fabricantes de máquinas de escrever disputavam a melhor máquina elétrica, veio o computador e liquidou com todas. Precisamos desta criatividade. Repetir e criticar o que se fez ou prometer projetos mirabolantes (sem conhecer a vocação da cidade) é fácil. Encontrar respostas não é difícil: basta colocar, nos lugares certos, pessoas competentes (que devem ouvir, com muita atenção, os que entendem a cidade e sua vocação).
Esta análise não tem sabor de certo pessimismo?
Sou visceralmente otimista, porque o ser humano, que tem potencial para mudar o mundo, pode resolver os problemas de Campo Grande. Basta, repito, colocar as pessoas certas no lugar certo.