Com o período das chuvas, que segue até março, aumentam os riscos de alagamento e enchentes. E não são poucos os bairros que sofrem com estes transtornos. A principal causa deste quadro tem a ver, segundo o engenheiro agrônomo e especialista em gestão de recursos hídricos, Felipe Augusto Dias, Superintendente de Tecnologia do Estado, com a urbanização. Ela promove o desenvolvimento e, com ele, vem a impermeabilização do solo, o que altera o ciclo hidrológico. Nesta entrevista ele aborda o assunto e fala sobre plano diretor de drenagem, projetos e iniciativas simples que ajudam a minimizar o descontrole das águas.
CORREIO PERGUNTA
O período de chuvas fortes começou e, com ele, alagamentos que afetam vários bairros, numa história que se repete ano após ano. Qual é a principal causa do problema?
FELIPE DIAS – Urbanização. Esta é a principal causa. Porque com ela vem a impermeabilização, que faz com que a gente altere o ciclo hidrológico. Ou seja, aquela água que infiltraria e levaria um tempo para chegar ao córrego – dois, três, dez anos, enfim – chega em dois, três, quatro minutos. Então, este volume que chega todo ao mesmo tempo causa estas inundações. Este é um mal em todas as cidades.
Este é um mal urbano, principalmente porque nos esquecemos de um pequeno detalhe: todo córrego ou rio tem o que a gente chama de planície de inundação. Você já ouviu falar em jogo de várzea? Ele ocorria na várzea do Tietê (SP), uma planície, onde se colocava uma trave aqui, outra lá e jogava-se bola. E estas várzeas não poderiam ser ocupadas porque mesmo antes de existir a urbanização elas já se inundavam. E, com a urbanização, isso se acentua e aí vêm os desastres, porque está lá o ser humano, num local inadequado.
Os problemas poderiam ser evitados com medidas preventivas, já que estão relacionados à falta de marcos regulatórios municipais e de políticas públicas habitacionais?
Na verdade, sim. O problema é que por mais que o gestor público planeje com antecedência, a evolução da cidade é muito grande, o crescimento é muito rápido. Porque você direciona certas condições para desenvolver a cidade: há um plano diretor, um de drenagem, uso de ocupação de solo. Há diversos instrumentos para ordenar esta ocupação. Mas mesmo assim, de alguma forma, a pressão imobiliária, das pessoas, enfim, acaba utilizando os espaços e depois você acaba adequando. Campo Grande é um modelo de cidade de uns anos para cá, porque deixou de ocupar aquelas áreas na beira do córrego. Inclusive, os que estavam ali passaram a ser retirados onde a urbanização não estava totalmente fixada (por exemplo, o Sóter, o Imbirussu agora por último). Eu trabalhei no projeto de avaliação do projeto Imbirussu, dos impactos ambientais para a implantação deste projeto e existiam muitas famílias em zona de risco – de problemas que poderiam ser de saúde, além da inundação propriamente dita.
Por que várias áreas tidas como de preservação, como as próximas ao Shopping Campo Grande, são liberadas para construções? Existe lobby, pressão das construtoras?
Existem, de fato, as forças. O que acontece é que aquele que tem mais força puxa para o seu lado. E a pressão imobiliária é grande, porque a necessidade de habitação ou espaços para o comércio é bastante grande e as áreas nobres, então, são utilizadas. Normalmente, estes locais que são inadequados para incorporação na área urbana, onde não pode haver ocupação, são ocupadas por pessoas de baixa renda, como ocorre em São Paulo, por exemplo. Então, o setor imobiliário vê que ali não é um lugar adequado e vai procurar outros locais. Mas em cidades como Campo Grande, onde a rede de drenagem é muito grande – nós temos em torno de 50 nascentes na área urbana da Capital – você não vê aqui uma planície como a do Rio Tietê, por exemplo, porque nós só temos pequenos córregos. E esta percepção de espaço não é a mesma.
E é mais difícil lidar com a nossa realidade ou com a maior?
Depende. É mais difícil nós lidarmos com os grandes rios, porque os espaços se tornam menores, já que eles ocupam áreas de grande extensão e há áreas que serão inundadas. No Código Florestal nós temos pequenos córregos – até outro dia, com 30 metros de proteção ao longo dos canais. Você pega um Tietê que tem 50, 100 metros; conforme a largura do rio você tem que ter um espaço maior protegido. E para evitar que em Campo Grande se ocupem estas áreas é muito mais fácil, porque só temos córregos. Mas, por outro lado, o local onde a água vai buscar espaço para sair é menor e, portanto, qualquer volume que chega dentro destes córregos é relativamente maior, porque é uma drenagem muito grande e isso faz com que as enchentes se acumulem em vários pontos.
Grandes obras, como a da Orla Morena, por exemplo, por ter grande área pavimentada, atinge diretamente a impermeabilidade do solo. O que é feito nestes casos como compensação?
Neste caso é preciso ter um esquema de drenagem eficiente, para evitar que estas águas escorram sobre a superfície e é o trabalho que naturalmente se faz quando há obras maiores. É feita uma drenagem e ela vai direcionar à drenagem natural, que é o córrego ou o rio. Evidentemente que este volume chegando lá pode causar algum problema naquele outro ponto e não exatamente naquele onde a água precipitou. Mas esta relação precisa ser bem analisada e, para isso, existe o Plano de Drenagem. E é ele que vai delimitar o que precisa ser feito, qual a solução para evitar que aquilo ocorra.
Quanto ao binômio “erosão e assoreamento”, chega a comprometer a capacidade de vazão das drenagens urbanas?
Continuamente. Porque por mais que a sociedade mantenha a calçada limpa, você tem áreas urbanas que ainda não são asfaltadas, não têm calçamento, e estas áreas urbanas, quando há um processo de chuva mais intenso, e os sedimentos começam a se mover na direção dos canais, vão chegar em áreas que já têm asfalto, cobertura, vão entupir a drenagem, vão levantar o leito do rio. É uma consequência. Mesmo em áreas naturais este processo de erosão e sedimentação existe, porém numa proporção muito menor. Mas, naturalmente, ele acontece. E, nas áreas ocupadas, com certeza isso se amplia.
O piscinão, adotado na área do Shopping Campo Grande, seria uma solução em quais outros pontos em Campo Grande?
O piscinão é uma solução para estes locais onde não há mais área de expansão, ou seja, você não tem mais área onde a água possa se alocar. Estudos mostram que naquela área no final da Joaquim Murtinho com o córrego, talvez seja necessário fazer outro piscinão para evitar que a água chegue ao Córrego Anhanduí.
O senhor não acha que o cacoete da arquitetura e a engenharia brasileiras, de adequar o terreno aos seus projetos de prancheta, em vez de adequar seus projetos às características geológicas e topográficas do terreno, contribuem para alagamentos e enchentes?
Eu não vou entrar no mérito desta questão, porque eu conheço alguns engenheiros e arquitetos que tomam este cuidado, eles procuram fazer a planta de acordo com a terraplanagem e drenagem exigidas. Eu acho que uma preocupação que não está existindo ainda na sociedade, e talvez até o engenheiro possa oferecer – porque amplia o custo da obra – é o reaproveitamento de água. Isso sim é uma coisa necessária à cidade. Porque, além de se ter a facilitação da infiltração daquela água que já sairia da sua casa e iria embora, ou armazenar parte daquela água para outras atividades secundárias, neste sentido é muito interessante. Eu reformei minha casa recentemente e, para ocupar o espaço da forma como eu necessitava, impermeabilizei o terreno mais do que o permitido e eu fiz isso. Toda a água colhida pelas calhas do telhado vai para uma caixa que permite a infiltração e o excesso sai pela ponta. Outra solução seria fazer uma caixa para reaproveitar a água para regar o jardim, lavar o quintal, etc.
O destino inadequado de entulhos de construção civil, cujos resíduos geram volumes acentuados, seria um agravante para alagamentos?
Sim, mas existe um Plano Nacional de Resíduos Sólidos que exige que todos os municípios tenham área de recepção. Eu vejo que este resíduo é prejudicial, mas hoje você tem fiscalização. O que eu acho que tem mais relevância e atrapalha em alguns momentos é o resíduo de poda de árvore, de grama. Porque se contrata uma pessoa e ela é quem vai levar estes resíduos embora. E, muitas vezes, o ponto onde se deve jogar está muito distante de onde o profissional foi contratado para fazer o serviço, e aí ele joga em qualquer terreno baldio. Isso é um grande problema; ou, ainda, os restos de pequenas construções e reformas. Porque as grandes construtoras não fazem isso, elas sabem onde devem lançar estes resíduos.
Como os órgãos públicos deveriam conduzir projetos de drenagem urbana?
Tudo isso está dentro do plano diretor. A questão da drenagem acaba sendo continuamente alterada. Como a ocupação urbana vai acontecendo, o plano de drenagem acaba ficando aquém do necessário, então tem que estar sendo continuamente revisado. Por exemplo, os novos loteamentos já têm que ter um plano de drenagem, água, asfalto, coisas do tipo, para poder ser autorizado.
Quais são as obras atualmente em andamento que visam amenizar o problema das enchentes?
Eu não sei, mas ouvi dizer que eles estão avaliando locais para fazer a ampliação de alguns piscinões. Por exemplo, aquele perto do Shopping, ele necessita de alguma maneira ser desassoreado porque já recebeu muito sedimento e a capacidade dele já diminuiu, precisa de manutenção. Eu li outro dia o secretário dizendo que há estudos neste sentido.
E qual o conselho que o senhor daria para quem pretende fazer uma obra, em casa mesmo, no que se refere à total pavimentação do terreno?
Eu digo que o que puder deixar de espaços permeáveis, deixe. O mínimo são 12%, exigidos pela Prefeitura. Há soluções econômicas e simples que se podem fazer, com mantas, grama, por exemplo.