Anualmente, os festeiros protagonizam, no Porto Geral, a mais popular das festas corumbaenses: o banho de São João nas águas do Rio Paraguai. Na noite de hoje (23), mais de 90 andores descerão até a prainha do Porto para prestar homenagens ao santo, que batizou Jesus Cristo nas águas do Rio Jordão.
Este ano, o município conta com 96 festeiros de São João cadastrados como agentes culturais. A certificação, além de valorizar e respaldar a manifestação espontânea é mais um passo no processo que busca o tombamento dos festejos como Patrimônio Imaterial pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Desde 2010, já são reconhecidos como patrimônio imaterial do Estado de Mato Grosso do Sul.
Duas dessas festeiras, reconhecidas como agentes culturais do Banho de São João, estarão no Porto Geral com seus andores para manter viva e cada vez mais forte a tradição de banhar a imagem de São João nas águas de um rio.
Promovendo a festa há 25 anos em sua casa, de onde sai carregando o andor para a prainha do Porto Geral, Lucila Álvares de Souza, 58 anos, explicou que a proximidade de seu aniversário com a data em que se celebra o santo, aliada a devoção a São João, a levaram a realizar o festejo.
“Meu aniversário é dia 25 de junho, pensei em prestigiar o meu santo no mês do meu aniversário. Meu irmão fazia antes e resolvi fazer também, de lá para cá nunca mais parei. Todo ano eu faço a festa aqui na rua mesmo. Enfeito tudo, tem comidas típicas, é o dia inteiro. Como é Copa do Mundo esse ano vai ser especial”, disse Lucila, que promove os festejos juninos na frente da casa onde mora, na Rua Oriental esquina com a Colombo.
Dona Lucila destacou que São João é “muito milagroso” e que já teve “várias graças alcançadas” por intercessão do santo. “Ele sempre me ajudou, é meu santo de devoção. Além de ser meu santo, ele é santo da justiça, da lei, gosta que ande tudo certinho, na linha. Desde quando comecei, sempre me ajudou na saúde, na família, porque ele também é o santo da família, ajuda a organizar a família, a não ter briga, desunião, falta de respeito”, contou.
Lucila sonha ver a única filha dando prosseguimento à festividade. Mas, acredita que isso não acontecerá. “Acho que ela não vai seguir não. O meu desejo é que ela continue, mas ela não vai não”, disse contando que só vai deixar de promover a homenagem a São João quando não tiver mais forças. “Quero manter esta festa enquanto estiver forte, com saúde, andando e batalhando. Eu gosto de São João”, afirmou.
“Andor é como noiva”
Toda a preparação para a festa conta com uma novena, iniciada no último dia 15, além de um cuidado especial com o andor que transporta o santo. “Mandei para arrumar e só vem no dia. O andor é como uma noiva, não pode ver antes, senão todo mundo vai copiar. Tem que manter guardadinho. Coloco flores naturais nele, sinto mais força e vibração. Não quero mais flor de plásticos, fica mais bonito com flor de verdade, tem uma energia boa”, avaliou a festeira.
A devoção a São João também é forte na casa da festeira Eunice Maria Pereira, de 72 anos. Moradora na Rua Barão de Melgaço, ela faz a festa para o santo há pelo menos trinta anos. A comemoração começou impulsionada pelo filho, chamado João Batista, que se estivesse vivo teria 52 anos.
“Faço aqui em casa, mesmo. Meu filho mais velho, que se estivesse vivo faria 52 anos se chamava João Batista. Por causa disso eu sempre louvei a São João Batista. Sempre fazíamos a louvação aqui, não descíamos para o Porto. Começamos a descer tem uns dez anos. Eu sempre descia com o andor de São João dos outros, não com o meu”, contou dona Eunice.
A festeira ainda disse que a devoção é forte e ela se resume a agradecer às graças alcançadas por intercessão de São João. Essa fé a faz ter a certeza que a festa, no futuro, terá sequência com seus filhos. “Acredito muito nele, ajuda muito. O que a gente pede com fé alcança. Agradeço muito a São João. Agora tenho só seis, tinha nove e acho que meus filhos vão dar continuidade a essa festa, ela é tão bonita”, afirmou bastante emocionada.
Para o momento mais importante, que é a descida do andor, dona Eunice contou que além da família, a festa é ponto de encontro para andores de outros festeiros que descem juntos em direção à prainha do Porto Geral. “Vem várias pessoas e outros andores para descer com a gente. Ano passado descemos com outros sete andores, que se encontram aqui na minha casa e descemos todos juntos. Voltamos juntos também e chegando aqui cada um segue pra sua casa, para a sua festa”, disse.
Para o banho do santo, na noite de hoje, o andor preparado pela dona Eunice já está pronto. “Achei melhor fazer tipo igreja. Fazia como arcos, mas pensei que todo mundo tem arco no andor e resolvi fazer no formato de uma igreja”, contou a festeira.