O fechamento do serviço de oncologia da Santa Casa de Campo Grande, maior hospital de Mato Grosso do Sul, é mais um indicativo de que a dependência de empresas terceirizadas para o tratamento do câncer está longe de acabar. Enquanto isso, a Radius, ex-Neorad, pivô do escândalo da Operação “Sangue Frio”, segue como principal “ponto de apoio” das autoridades de saúde.
O problema principal é na radioterapia, realizada na rede pública de saúde por cerca de 160 pessoas ao mês. Em outros tratamentos, como a quimioterapia, a demanda deverá ser suprida sem problemas pelo Hospital de Câncer Alfredo Abrão, que vai “assumir” os pacientes da Santa Casa.
Hoje, apenas o próprio Hospital de Câncer possui acelerador linear em Campo Grande, equipamento usado para o tratamento via radioterapia. A Santa Casa não oferecia o serviço, porém era uma das instituições para as quais o Ministério da Saúde tentava encaminhar um aparelho. O fechamento do setor oncológico da Santa Casa significa um hospital a menos apto a receber um acelerador linear. O Hospital de Câncer ainda tenta ganhar mais um aparelho, mas não tem prazo para recebê-lo, mesma situação do Hospital Regional e do Hospital Universitário. Como diz o ditado popular, o azar de um é a sorte de outros. Como a capacidade de atendimento na rede pública é de, no máximo, metade do necessário, o restante da demanda é atendido em clínicas terceirizadas, com destaque para a Radius.
Radius é o novo nome da empresa Neorad, foco da Operação “Sangue Frio”, da Polícia Federal, que desmantelou suposto esquema de desvio de dinheiro do Sistema Único de Saúde (SUS) e de desmonte da rede pública de atendimento. Ex-proprietário da empresa e ex-diretor do Hospital de Câncer, Adalberto Siufi foi acusado de monopolizar a radioterapia na Capital e ainda atuar para impedir que o sistema público voltasse a realizar esse tipo de atendimento.
Após a operação, o comando da Neorad passou de mãos, e a empresa mudou de nome. Porém, agora chamada Radius, a empresa ainda detém grande parte dos atendimentos de radioterapia pelo SUS, aproveitando o fato de os hospitais não suportarem a demanda. Dos atuais diretores da empresa, grande parte já atendia na antiga Neorad. Hoje, o Hospital de Câncer tem capacidade para atender, no máximo, 80 pacientes de radioterapia ao mês, enquanto a demanda média gira em torno de 160 pessoas a cada 30 dias.