A história dos 115 anos de Campo Grande e seu desenvolvimento está diretamente ligada ao comércio da área central, fortemente representado em ruas e avenidas como a 14 de Julho, Calógeras, Rui Barbosa, 13 de Maio e todas as que as cercam. Caracterizada pelo comércio popular, atrai, há muitos anos, não só a população mas pequenas e grandes marcas nacionais e regionais. Mas a região, cujos comerciantes procuram acompanhar a evolução do setor, sofre com a falta de infraestrutura e investimentos no que se refere a estacionamento, segurança, limpeza e iluminação de qualidade, além de um plano viável de transporte público. Todos estes itens constam do Projeto Reviva Centro, uma ação há muito solicitada pelos comerciantes locais, mas que até agora existe apenas na teoria.
“É visível a dificuldade dos empresários sobreviverem no Centro desde que esse processo começou, mas muitos ainda lutam para se manter, querem que o Reviva aconteça, mas é importante que o poder público dê contrapartidas”, disse o presidente do Conselho do Comércio Central da Associação Comercial e Industrial de Campo Grande, André Eduardo Moretto, há 16 anos comerciante no local. Segundo ele, a região central tem um histórico de comércio forte e ativo. “Quando a gente abriu era aquilo do que você colocar, vende, não havia a dúvida da venda. Cabia, apenas, a capacidade da pessoa em trabalhar bem, era um lugar de oportunidades. Hoje não é mais, apenas para alguns segmentos, porque o cenário socioeconômico mudou muito”.
Campo Grande dispõe de variados estabelecimentos comerciais: em 2006 eram cerca de 12 mil, em 2008 ultrapassaram os 20 mil estabelecimentos e embora este número tenha crescido, de 2010 para cá as mudanças, - para pior - foram sentidas. Segundo Moretto, nos últimos dois anos, 400 lojas da região fecharam as portas. “Infelizmente, a intervenção do Reviva não saiu do papel. A retirada do estacionamento na área central, dos dogueiros,a desativação da antiga rodoviária, além da intervenção para retirada das fachadas contribuíram, decisivamente, para a desconfiguração da área”, completou.
Acreditando, sempre
Mesmo concordando que são inúmeros os problemas existentes para que o comércio central funcione adequadamente, comerciantes como a veterana Luíza Mitico Matsusita, de 75 anos, proprietária da Luiza Boutique, na Rua 14 de Julho, e a novata Ana Benícia de Souza, da Moça Biju (Rua Barão do Rio Branco) enumeram boas razões para continuar atendendo a população nesta área. Há 46 anos no ramo do comércio de roupas, Luíza conta que foi sacoleira, vendeu roupas de porta em porta até fixar-se no Centro. “Quando abri a primeira loja não havia shoppings nem lojas de departamentos. Pagava-se luva para conseguir um bom ponto, hoje é mais fácil de alugar. Ao longo do tempo, tivemos que nos adequar aos tempos difíceis, mas o amor e atenção com a clientela continuam”, diz a comerciante, relembrando, saudosa, de estabelecimentos como a Casa São Paulo, Mundial, Casa Dimas, todas fechadas.
O preço menor do aluguel e o custo-benefício melhor foram atrativos para Ana Benícia montar seu primeiro comércio. “Estou satisfeita porque atingi minhas expectativas. Mas não se pode negar que falta infraestrutura básica para o centro funcionar como deveria”. Para André Moretto, a população mantém seu laço de carinho com o Centro. “O povo não abandonou o Centro, continua acreditando nele, mesmo decepcionado. Eles querem preço e variedade e nós podemos oferecer isso”.