Neste 12 de outubro, os olhares se voltam para as crianças, que comemoram seu dia. E não é difícil perceber que o perfil destes pequeninos seres mudou muito ao longo dos últimos dez anos. Para falar sobre o assunto, o Correio do Estado convidou a psicóloga e coordenadora da Comissão da Infância, Adolescência e Juventude do Conselho Regional de Psicologia de MS, Simone Grisolia Monteiro. Entre os assuntos abordados, estão o amadurecimento precoce em função de estímulos tecnológicos, a disciplina e educação, o papel da família, os abusos por parte dos adultos e a aplicação do Estatuto da Criança e do Adolescente.
CORREIO PERGUNTA –Como a senhora definiria a construção identitária da criança nos últimos 10 anos?
SIMONE GRISOLIA MONTEIRO – Esse é um processo que ocorre no meio cultural em que ela vive e a partir de suas experiências e inter-relações, que vão tomando significado no meio familiar, na sua comunidade e na sociedade. Precisamos compreender, então, o meio que estamos oferecendo para as nossas crianças se desenvolverem, quais os valores significativos para a nossa sociedade e que alimentamos e reproduzimos nesses últimos dez anos: uma sociedade consumista, que ensina às crianças associar a sua própria imagem à de pessoas/marcas de sucesso, como meio para ingressar e ser aceito nos grupos sociais; uma sociedade em que o ter se sobrepõe ao ser; em que os fins muitas vezes justificam os meios. Mas é importante observar os avanços dos movimentos sociais no sentido do olhar para a diversidade do ser humano e para a inclusão das minorias nos espaços escolares, por exemplo.
As crianças de hoje estão vivendo num mundo completamente diferente daquele vivido pelos seus pais. Elas “amadurecem” muito mais depressa, pois são estimuladas constantemente pela televisão, videogame, brinquedos, revistas, etc. Quais os pontos positivos e os negativos neste novo universo?
Esse é o mundo globalizado que proporciona fácil acesso à informação, seja ela qual for. Podemos pensar em crianças muito estimuladas por diversas mídias, com linguagem e formatos criados para atingi-las, considerando-as potenciais consumidores para os mais diversos produtos, inclusive aqueles direcionados ao público adulto. As crianças reagem consumindo mais e mais e assumindo comportamentos adultos; mas não necessariamente estaremos falando de “amadurecimento” no sentido do desenvolvimento saudável: trata-se da reprodução de comportamentos e atitudes identificadas com o que elas podem ver como sucesso. No entanto, essa possibilidade de acesso à informação pode ser benéfica na medida em que a criança possa ter mais opções para acessar o conhecimento, considerando quantidade e qualidade, desde que isto seja mediado por um adulto.
Disciplinar e educar os filhos é de responsabilidade da família. Mas, atualmente, muitas delas fazem com que a escola assuma este papel, já que é um local onde as crianças passam a maior parte do tempo. Qual é o melhor modelo de educação, hoje, para elas?
Na atualidade, em que as crianças passam o dia longe dos pais, seja porque ambos trabalham ou porque elas próprias têm inúmeras atividades, precisamos refletir sobre disciplinar e educar, pois para isso é necessário tempo de convivência. A partir do conceito de educação integral, podemos buscar compreender estas novas relações, que começam a se estabelecer entre família, escola e as crianças. Nesta perspectiva, paramos de compartimentalizar a criança – que é disciplinada em casa, que aprende o ensino formal na escola, que tem sua saúde cuidada por médicos e assim por diante. Dentro da lógica da proteção e da educação integral, todos podem assumir suas responsabilidades, envolvendo-se com o desenvolvimento humano integral e na direção da realização de uma cultura de paz.
"Na atualidade, em que as crianças passam o dia longe dos pais, seja porque ambos trabalham ou porque elas próprias têm inúmeras atividades, precisamos refletir sobre disciplinar e educar”
Uma pesquisa mostra que aumentou em 5% a proporção de crianças que jogam videogame e que recebem amigos em casa, enquanto diminuiu em 25% o número das que dormem fora. Quais são os reflexos na formação da criança o fato de ela não brincar na rua, não pegar ônibus sozinho ou ir à escola a pé?
Veja bem, as crianças nascem em uma sociedade que já possui seus sustentáculos relativos a valores, crenças, poder e informações diversas do mundo e da vida, em que as pessoas atuam a partir de informações condensadas de anos de produção cultural acumulada pela humanidade. Este novo ser irá apropriar-se da produção dessa cultura considerando, é claro, as condições concretas de seu contexto social ao longo de seu crescimento físico, aprendizados e, consequente, desenvolvimento psíquico. Desta forma, considerando o que é valorizado por esta sociedade, costumes do passado podem se perder, e, assim, caminhar, andar de bicicleta, ir à praça, andar de patins, ir à escola a pé com os amigos e outras atividades comuns do passado vão cedendo espaço para outras atividades mais valorizadas na atualidade, como a prática de jogos eletrônicos e virtuais, conversa nas chamadas redes sociais por longas horas, ir de carro para a escola e outras atividades correlatas que podem, sem a criança perceber, afastá-la das outras e, com isso, fragilizar sua capacidade de constituição dos laços sociais a partir do outro. Daí a necessidade da atenção e mediação por parte dos adultos no estabelecimento de critérios que não comprometam a capacidade cognitiva, criadora, afetiva e social da vida humana.
A senhora diria que hoje as crianças têm mais poder de decisão dentro de uma casa, no que se refere a que comer, a que assistir ou a que fazer?
Sim, e tomar decisões é positivo na medida em que contribua para promover a autonomia da criança. Isso deve ocorrer quando o processo decisório é mediado por um adulto. O adulto deve oferecer as opções em qualquer das situações, seja no que comer, programas a assistir, quais jogos ou passeios, auxiliando a criança a perceber os limites e a se responsabilizar por suas escolhas.
“A agressividade começa na sociedade. A criança é modelo e reflexo da sociedade em que vive. Uma sociedade violenta gera crianças e jovens violentos”
A agressividade das crianças de hoje é um tema que preocupa pais e educadores, levantando muitas questões sobre a sua origem. Onde isso começa?
A agressividade começa na sociedade. A criança é modelo e reflexo da sociedade em que vive. Uma sociedade violenta gera crianças e jovens violentos. Há um longo histórico que culmina na agressividade que as crianças de hoje expressam nas escolas e em outras instituições. Muitas das instituições sociais precisam ser revistas, e o primeiro passo é reconhecer que as coisas não vão bem. Só para citar um exemplo, há uma longa luta da psicologia brasileira e de outras entidades pela democratização dos meios de comunicação no Brasil e pela regulamentação da propaganda dirigida à criança. Isso já é realidade em países como Espanha, Portugal, Austrália entre outros, com excelentes resultados. Acreditamos que, entre os mais sérios impactos da mídia para a subjetividade das nossas crianças e jovens, está o estímulo ao consumismo e a muitas formas de violência reais e simbólicas. Isso precisa ser pensado com urgência.
Atualmente, são inúmeros os casos que vêm à tona sobre abusos contra a criança, muitas delas perdendo a vida. Quais fatores têm levado ao crescente aumento destes casos, já que o ECA preconiza proteção a ela?
O Estatuto da Criança e do Adolescente preconiza a proteção integral às crianças e adolescentes desde 1990. No entanto, precisamos considerar que até hoje não foi implantada em sua totalidade. Por desconhecimento, uma parte da população insiste em afirmar que o ECA tirou a responsabilidade dos pais sobre as crianças e, com base nesse pensamento, abre mão do seu papel. No entanto, o ECA responsabilizou a família a exercer o seu papel, prevendo medidas de proteção à criança e ao adolescente nos casos de falta, omissão ou abuso dos pais ou responsável e medidas aplicáveis aos adultos. A questão que se coloca é que o ECA reconhece as crianças como sujeitos de direitos e em fase peculiar de desenvolvimento, mas parte de nossa sociedade não percebe e não compreende e continua agindo como em tempos passados, utilizando de quaisquer meios com a justificativa de educar. Além disso, apesar dos avanços na luta pela erradicação do trabalho infantil e contra a exploração sexual de crianças e adolescentes, observamos que ainda temos muito a avançar. A Rede de Proteção ainda é muito deficitária. Apesar da lei, ainda não conseguimos proteger efetivamente nossas crianças e adolescentes. Ainda não garantimos sua prioridade nem mesmo junto aos nossos governantes.
“Por desconhecimento, uma parte da população insiste em afirmar que o ECA tirou a responsabilidade dos pais sobre as crianças e, com base nesse pensamento, abre mão do seu papel”
O adulto equilibrado de amanhã é a criança que passou por quais experiências?
O ECA caminha ao lado da Psicologia quando prevê a infância que devemos proporcionar às nossas crianças: Devemos assegurar todas as oportunidades e facilidades para o seu desenvolvimento físico, mental, moral, espiritual e social, em condições de liberdade e dignidade (artigo 3º, ECA). Nós, pessoas adultas, enquanto familiares ou como pessoas da comunidade, como sociedade em geral e, ainda, enquanto poder público, temos o dever de garantir o acesso das crianças à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária (artigo 4º, ECA).
Aquelas crianças e adolescentes que não conseguiram acessar todos esses direitos, aquelas que sofreram negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão, teremos que lidar com as suas marcas. Mas é preciso considerar que a subjetividade de cada pessoa é única, cada criança é única. De modo, não falamos de caminhos determinantes, mas de vivências que favorecem o desenvolvimento saudável em um espaço de tempo.
Perfil
Conselheira do Conselho Regional de Psicologia de Mato Grosso do Sul (CRP 14/MS) e coordenadora da Comissão da Infância, Adolescência e Juventude dessa autarquia. Psicóloga, pós-graduada em Psicopedagogia e Dinâmica dos Grupos, com atuação no atendimento psicológico a adolescentes em conflito com a lei e grupos de famílias, na capacitação das redes municipais de atendimento para o auxílio a adolescentes, em cumprimento de medidas socioeducativas de meio aberto, e seus familiares. Responde pela Coordenadoria de Medidas Socioeducativas na Superintendência de Assistência Socioeducativa, ligada à Sejusp-MS.