Um gesto de cavalheirismo do presidente da Rússia, Vladimir Putin, com a primeira-dama da China chamou a atenção no jantar de abertura da cúpula do fórum Apec (Cooperação Econômica Ásia-Pacífico).
Tanta atenção que a censura chinesa proibiu a cena na internet.
Cercado de grande pompa, o evento era transmitido ao vivo pela TV estatal chinesa quando a câmera capturou o momento em que Putin troca algumas palavras com Peng Liyuan.
Enquanto os dois se acomodavam lado a lado na mesa do banquete, o presidente russo tira uma manta que estava sob suas pernas e a coloca nas costas de Peng. A primeira-dama agradece com um sorriso, mas logo deixa a manta cair no chão e veste seu casaco, trazido às pressas por um assessor.
Ao lado de Peng na mesa, seu marido, o líder chinês Xi Jinping, nada percebe, ocupado numa conversa com o presidente dos EUA, Barack Obama.
O momento pegou de surpresa o locutor que conduzia a transmissão ao vivo. Não houve como evitar o registro.
"Eu acabei de ver o presidente Putin gentilmente colocar um casaco sobre o corpo de Peng Liyuan", comentou, enquanto uma música soporífera embalava o evento, realizado no monumental Cubo D'água, onde foram disputadas as provas de natação na Olimpíada de 2008.
O vídeo logo se espalhou pela internet e animou os comentários nas redes sociais.
Alguns, irônicos, lembravam da fama de machão de Putin, apreciador de caçadas e lutas sem camisa, e brincavam que ele comprovou sua coragem ao fazer o galanteio a Peng na frente do líder chinês. Mas a cena teve vida curta na internet.
Pelo visto foi um pouco demais para os padrões conservadores da China, sobretudo quando se trata dos líderes do país, assunto proibido. Em pouco tempo, a censura entrou em ação e apagou o vídeo e os comentários mais picantes.
"A China é tradicionalmente conservadora sobre a interação entre homens e mulheres sem parentesco, e a mostra pública de consideração de Putin pode oferecer um terreno para piadas, o que o grande chefão não gosta", disse à Associated Press o historiador e comentarista independente Zhang Lifan, radicado em Pequim.
Desde que Xi Jinping tornou-se o líder chinês, há dois anos, a mídia oficial tem tentado propagar uma imagem dele e de Peng Liyuan como o casal perfeito.
Fotos de Xi a protegendo da chuva durante uma visita de Estado, colhendo flores para ela ou simplesmente segurando sua mão circularam amplamente na mídia social chinesa.
Famosa nacionalmente por sua carreira de cantora bem antes da ascensão do marido, Peng tornou-se a face suave do regime. Com sua beleza discreta e um guarda-roupa baseado exclusivamente em estilistas chineses, virou um modelo de elegância no país.
Diferentemente de suas predecessoras, Peng assumiu um papel mais público, principalmente se unindo a seu marido nas viagens ao exterior como parte da investida chinesa para buscar um status global proporcional ao poderio econômico do país.
Li Xin, diretor de estudos russos e da Ásia central no Instituto de Estudos Internacional de Xangai, disse que Putin apenas se comportou como um russo e não cometeu nenhum deslize diplomático.
"É uma tradição na Rússia que homens dignos respeitem as mulheres em ocasiões públicas e, num país frio como a Rússia, é muito normal que um cavalheiro ajude as damas a colocar ou retirar seus casacos", disse Li à Associated Press. "Mas os chineses podem não estar acostumados com isso."