Cidades

ENTREVISTA

''É preciso reconhecer o valor econômico do lixo, dos resíduos''

Engenheiro sanitarista diz que é preciso conhecer e respeitar a cadeia do lixo

Redação

18/01/2015 - 19h15

Com o crescimento da população, da fabricação e da utilização de artigos industrializados (inclusive embalagens), a quantidade de lixo produzida é cada vez maior, tornando-se um sério problema para o meio ambiente. Assim, para regularizar a destinação do lixo no País, há 4 anos, o Plano Nacional de Resíduos Sólidos exigiu que todos os municípios brasileiros construís­sem aterro sanitário.  O prazo acabou no fim de 2014 e muitos municípios não conseguiram finalizar a obra. Para falar sobre a cadeia do lixo – armazenamento, reciclagem, reutilização e geração de verba –, convidamos o engenheiro sanitarista e ambiental Pedro Paulo Ayala.

Perfil

Pedro Paulo Ayala Arantes dos Santos Gonçalves 
35 anos, natural de Campo Grande, MS. Formado na UCDB, em 2002, como engenheiro ambiental e sanitarista. Tem especialização em Engenharia de Segurança do Trabalho. Trabalha com monitoramento ambiental, fez treinamentos na Cetesb (São Paulo) nas áreas 
 

CORREIO PERGUNTA  - A falta de um destino adequado para o lixo urbano ainda é um dos principais problemas ambientais do Brasil. O que falta para esta equação ser resolvida?

PEDRO PAULO AYALA – O lixo está presente em tudo na vida, desde o gerado em nossa casa até o do ambiente de trabalho. Por mais estática que seja a atividade, todo trabalho gera resíduo sólido. Tanto o poder público quanto a sociedade precisam reconhecer o valor econômico do lixo, que pode ser transformado. O que posso reutilizar, reciclar? Reutilizar significa pegar aquele resíduo e utilizar novamente – pode ser um resto de madeira, por exemplo, servindo para fazer fogo ou uma peça. Quando reciclamos, estamos transformando o lixo em outra coisa. Então, eu creio que em qualquer cidade falta às autoridades saber quantos tipos de resíduos são gerados dentro da municipalidade. Porque, às vezes, o gestor municipal, o secretário de Obras, as pessoas que estão ali, à frente, para cuidar destes assuntos, não conhecem quais são os diferentes resíduos gerados. O ideal é construir aterros sanitários integrados, ou seja, com depósito para resíduo sólido de construção civil, de serviço de saúde, de poda, de varreção de rua, resíduos sólidos perigosos. 

O senhor diria que no Brasil falta uma política mais prática para lidar com o lixo?

Sim, geralmente as autoridades não têm know-how para lidar com os diversos tipos de resíduos, que, a cada dia, ampliam-se. Há profissões novas surgindo e, com elas, resíduos novos, que precisam da destinação correta. Eu acredito que uma boa saída para lidar com isso é a parceria da municipalidade com empresas privadas, ou profissionais especializados. Porque, às vezes, a municipalidade não consegue manter uma equipe técnica que esteja totalmente atualizada na área. Há muitas cidade em MS, por exemplo, com menos de 50 mil habitantes, e fica difícil cada prefeitura manter uma equipe especializada em resíduos. Então, a parceria é uma boa saída e não vendo como um projeto que gere apenas ônus para ela,  até porque é cobrada uma taxa do cidadão. É preciso reconhecer o valor econômico dos resíduos. Um exemplo que eu dou é o da construção civil. Em Campo Grande, há empresas importando britadores da China para britar estes resíduos na própria obra e reutilizá-los dentro da obra. Infelizmente, ainda é em uma ou outra obra que vemos isso. Eu creio que falta incentivo, também, da municipalidade de incentivar o cidadão a fazer este tipo de coisa, de reutilizar seus resíduos. 

Qual a diferença entre aterro sanitário e lixões? Esses são locais adequados para armazenar o lixo? 

A diferença é o sistema de controle ambiental, também conhecido pela sigla SCA. No caso do lixão, este sistema inexiste. Trata-se de um lixo recolhido e jogado numa área grande, onde não foi realizado o licenciamento ambiental, não foi feita a sondagem ambiental para saber o nível de água do lençol freático, para saber como é a fragilidade ambiental desta área. Ali, então, cria-se o chorume, que vai contaminar o solo e as águas subterrâneas. E é preciso ver que no caso do lixão temos a parte social também, já que não há aquele levantamento socioambiental e social, se haverá depreciação do bairro, por exemplo. Enfim, não há nenhum planejamento ambiental. No caso do aterro sanitário, posso dizer que é uma metodologia antiquada também. Estive no Canadá em 2011 e conheci o sistema de tratamento do lixo em Vancouver. Lá, desde 1970 não existe mais aterro sanitário. Ali, eles fazem toda a reutilização do lixo, que para eles tem valor econômico – o lixo é queimado. Como aqui a usina de cana queima o bagaço e gera energia, lá eles queimam lixo e geram energia também. Trinta por cento da energia de Vancouver vem da queima do lixo. Então, voltando ao aterro sanitário, é uma metodologia que só é válida em função do reaproveitamento dos recursos, é uma metodologia segura. Na verdade, as pessoas acham que é só um depósito de lixo, mas, não, o aterro sanitário é uma unidade da estação de tratamento de resíduos. Primeiramente, é feita a sondagem ambiental, para verificar se há condições de fazer o aterro naquele local. Porque o aterro sanitário tem vida útil, é programado para 20 anos, ele não vai durar para sempre. Depois, é feito um estudo para recuperação daquela área degradada, onde pode ser feita uma praça, um campo. 

Como  avalia a falta de ação dos municípios diante da Política Nacional de Resíduos Sólidos, já que a maioria não tem Plano de Gestão? 

Temos de levar em conta que a gestão do resíduo sólido funciona como uma corrente. Vou dar um exemplo de um restaurante. Há dez pessoas trabalhando no local e você tem coletores específicos para armazenamento dos diferentes tipos de lixo. Mas se uma destas pessoas pegar o óleo e jogar no local onde o correto é armazenar papelão, toda a cadeia ficou comprometida. Então, em uma gestão, primeiramente, deve-se começar pela educação das pessoas nesta área, temos de criar a cultura nas pessoas da destinação correta do lixo. Eu tenho 35 anos e nunca tive aula no ensino básico sobre educação ambiental. O estado ou o município deveriam criar uma matéria na grade curricular, como é a educação artística, por exemplo, uma vez por semana, para plantar aquela consciência ambiental tão necessária. Então, um dos elos desta corrente da gestão de resíduos sólidos está em criar esta cultura. O primeiro passo é promover a educação ambiental, envolver, inserir as pessoas. O município tem de criar uma área para a destinação correta, mas tudo começa com a educação ambiental.

Além da dificuldade financeira, por quais motivos os municípios têm dificuldade de aderir à coleta seletiva? 

Dando continuidade ao meu pensamento, em primeiro lugar, é esta aculturação sobre a qual eu falei, educação ambiental da população e depois a logística propriamente dita. É preciso  um veículo correto para recolher tudo isso, uma central de triagem, tem de ter um depósito para armazenamento e a logística para vender nos grandes centros. Mas, na maioria das vezes, quem administra os municípios não tem esta visão da cadeia necessária e economicamente viável do lixo. Não é dada a importância devida a ele, que e é tratado como algo que só gera ônus, que atrapalha. Por exemplo, no Canadá, as pessoas – pode ser pobre ou rico – fazem a separação correta do lixo, conseguem vender a dez centavos de dólar uma latinha, por exemplo. 

O senhor acredita que faltam, então, a educação e consciência ambiental, além de incentivo para que as pessoas descartem corretamente o lixo?

Olhe, atualmente os meios de comunicação falam quase que diariamente sobre o assunto. O Correio do Estado mesmo já fez inúmeras matérias sobre o tema. Hoje em dia, eu acredito que pouquíssimas pessoas não saibam que não podem descartar o lixo incorretamente. Os municípios mesmo têm ecopontos em que se pode descartar os mais diferentes tipos de resíduos, é só procurar. Mas eu também acho que falta fiscalização e por que não mais lixeiras na cidade. 

Em Campo Grande, alguns bairros foram beneficiados com a coleta seletiva, programa que com a mudança de gestão está paralisado. O que o senhor acha disso?

É uma pena ele ter acabado. Este é um programa que só deveria ser incentivado, multiplicado. Eu mesmo fui beneficiado, porque morava num bairro que tinha este tipo de coleta diferenciada. A pessoa já sabe o dia que tem de colocar o lixo para fora, todo separado, porque o caminhão tinha uma música que o diferenciava dos demais e até minha filhinha tinha aprendido que aquele era o caminhão da coletiva seletiva. Deixávamos os sacos com lixo seco e molhado separados, o lixo orgânico num saco e o reciclado no outro. Estas ações da prefeitura precisam ser muito bem planejadas para atingir um número maior de pessoas, não pode se restringir a alguns bairros somente, tem de ser ampliado. O grande problema do lixo na municipalidade é a centralização. Eles constroem uma usina de reciclagem ali e pronto. Na verdade, é preciso descentralizar, despolarizar as coisas. Sem falar que o município falha no próprio licenciamento ambiental dele, são entraves em cima de entraves. Um exemplo é o aterro sanitário da Capital, que está construído, mas para funcionar corretamente depende do funcionamento de uma usina de reciclagem. Hoje, quem faz a separação do lixo são os catadores. 

Como dar conta do lixo produzido numa época em que a obsolescência tecnológica e o consumo de produtos embalados imperam e, obviamente, descartam-se mais papel, plástico e embalagens de modo geral?

Realmente, cada vez mais este tipo de descarte faz parte do dia a dia das pessoas. E eu diria para as pessoas, que, nesta época, adquiriram produtos eletrodomésticos, por exemplo, que tentem não rasgar nem quebrar demais a embalagem e, se naquele dia não tiver oportunidade de fazer o descarte correto em ecopontos, que armazene o material todo separado, em lugar seco, sem umidade. Agora, o que eu costumo dizer em palestras é que as pessoas precisam dar preferência a produtos ecologicamente corretos, produtos sustentáveis, com poucas embalagens ou aquelas recicláveis. E sempre utilizar a logística reversa, de quando um produto for substituído por outro, providenciar o descarte no lugar correto (pode ser um aparelho de TV, um computador ou mesmo pilhas e baterias de celular). Temos de lembrar que todo produto eletroeletrônico contém produtos às vezes perigosos à saúde. Outra coisa é o descarte do óleo comestível, que também deve ser descartado corretamente, colocado num vidro com tampa, ou mesmo numa garrafa PET. Atitudes simples como estas mostram que nos importamos com o planeta, com a consciência ambiental, são atitudes sustentáveis e necessárias, deveriam se tornar hábito.

É possível perceber melhorias em MS com a instalação do Plano Estadual de Resíduos Sólidos? 

Eu conheço este plano e posso dizer que municípios como Aquidauana e Dourados, por exemplo, apresentaram melhorias. Há vários municípios que pediram a licença prévia para aterros sanitários. O Plano Municipal tem quatro vertentes de saneamento básico, o de resíduo sólido é uma vertente. Tem a varrição de ruas pavimentadas e não pavimentadas, a poda, a manutenção de vias; entra também a questão do gerenciamento municipal de resíduos, que faz raios X completo. Ele vai verificar quantos caminhões o município tem, se é terceirizada a coleta ou não. Muitos municípios utilizam a coleta terceirizada, como a Capital, por exemplo. Então, a coleta é algo que o município poderia puxar para ele, não terceirizar, ver outras maneiras de tratar este resíduo, como, por exemplo, reaproveitamento em biomassa.​

 

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